segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sobre conhecimento, cocô e a pós-modernidade.


Um cano x estourado, e nós, de uma das gerações que mais discutem freud, nietzche, marx, nanotecnologia, transgenia, carros de 200km/h e a relação disso tudo com a morte e vida severina, mas cada vez menos sabemos limpar o próprio cocô, somos colocados em nosso devido lugar: o de alienados da própria matéria. Completamente alienados porque não temos ideia de como se constroi uma casa, como se faz uma rede de encanamento, como se virar sem uma descarga em casa.

Quando eu dei aula no Zumbi dos Palmares, assentamento do MTST - que estruturalmente era como uma favela - eu me dei conta disso, já que meus alunos sabiam muito mais sobre casas do que eu poderia sonhar saber. Não só sabiam, como hackeavam - usando um termo tão lindo de uma cultura presente na classe média, para algo que parte, no caso deles, da sobrevivência mais intrínseca - em cima do pouco que tinham para construir alguma coisa. Como pode ser tão difícil para nós, da ponta do trabalho intelectual, perceber que somos completamente alheios de todo o lado material da produção, e que isso nos torna dependentes em tudo das classes mais pobres, que são pobres exatamente pela desvalorização de seu precioso trabalho? E não venham me dizer que um engenheiro sabe mais que essas pessoas - não, não sabe, porque eu quero ver se um engenheiro se vira com 10 folhas de madeirite e umas telhas de amianto, sem banheiro para aliená-lo do próprio cocô.

E não só de casas entendem meus alunos, entendem de árvores de café, cavalos, plantações, móveis, cozinha e, bom, claro, limpeza. Entendem e eu me sinto uma aluna aprendiz com a Clei aqui em casa, ela que é uma mestra nas artes da limpeza e da organização - e em algumas outras. Eu, como alguém que se esforça em driblar a preguiça e a frescura de intelectualóide, tento aprender, mas sou ainda sou alfabética-silábica nestas artes. Ainda me é difícil pegar na vassoura para riscar esse caderno que é o chão de minha própria casa, ainda me sinto cansada pelas primeiras panelas que lavo...Nessas artes, mal leio um livro de 30 páginas.

Tudo o que é sólido desmancha no ar, e nós, das castas alfa e beta desse Admirável Mundo Novo, estamos aqui sofrendo o esvaziamento da matéria, "vencendo" - ou melhor, cortando a cabeça dos - os limites dela, para depois procurarmos eternamente a cabeça desse espírito humano, que é o trabalho. E dá-lhe SOMA para permanecer na Utopia do consumo....

Nenhum comentário:

Postar um comentário