quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Pela maternidade (e paternidade) liberta

Dizem que a maternidade tira a liberdade da mulher.

Por muitos anos, as mulheres foram escravizadas por serem mulheres, simplesmente. Por muitos anos, não houve saída.
Um dia, nos cansamos das correntes. Precisamos concentrar as forças em quebrá-las. Fortalecemos nossos músculos para não usar os sutiãs queimados, colocamos calças, cortamos os cabelos. Primeiro nós precisamos de fato nos espelhar no masculino para provar que não eram nossas bucetas que nos proibiriam de ser capazes. Sentamos no banco do motorista, aprendemos a escrever e ler, aprendemos a lutar, e concentramos toda a força nisso.
Precisamos para isso, parar de carregar nossos bebês - que carregávamos aos montes, sem vontade, por aí. Arrastávamos junto com eles, também oprimidos pelo patriarcado, nossa dor, projetamos e reproduzimos isto neles. Precisamos por nós e por eles parar de carregá-los.

E aí começamos a ser vistas como seres que poderiam, sim, que eram capazes, que talvez pudessem ter alguma liberdade,

Mas agora, por nossa liberdade e pela liberdade da infância, nos falta quebrar essas correntes que nos colocam quando nossos úteros começam a crescer, nos falta dizer não às correntes que dizem que a maternidade é o fim da liberdade feminina.
Por nós, para que possamos escolher QUALQUER COISA, inclusive a maternidade, sem abrir mão da nossa liberdade, nós precisamos negar e bater o pé quando nos tentarem amarrar no parto. Que não nos amarrem nem em nossas tetas leiteiras, ou em nossas estrias da barriga.
Está na hora de mostrar para o mundo que nós mulheres podemos e seremos livres com nossos filhos nos braços, que eles não serão o que nos impedirá de amar livremente, gozar loucamente, lutar bravamente. Que nós ensinemos pelo que somos às nossas crias que a liberdade não tem preço e é o pressuposto para a felicidade. Por nós e por eles.

Está na hora de libertar os homens da cruz em que se meteram, de imaginar que não podem ser bons pais porque o trabalho é incompatível com os filhos. Está na hora deles entenderem que o amor é faculdade humana, que lutar, gozar e amar são possíveis também na paternidade responsável, que carinho, colo e amor também se faz com a barba, que as mãos grandes e fortes também servem para trocar fraldas e acalmar a cólica.
Está na hora de fazer da maternidade e da paternidade uma opção de vida tão livre e feliz quanto qualquer outra.

Está na hora também de construir um conceito de liberdade que não seja fiado no consumo e no mercado. Que não seja só sair a noite para tomar cerveja a hora que quer, ou comprar o carro do ano com o dinheiro que vc usaria em fraldas. Está na hora de ensinarmos ao mundo que liberdade começa dentro de si mesmo, e se expande pelo seu exercício, pela constante reflexão.
Está na hora de nos libertar da ideia do filho como um calvário que se carrega, da maternidade e da paternidade como um padecimento no paraíso, como se um filho fosse uma desgraça na vida das pessoas. Está na hora de libertarmos nossos filhos das escolhas que fizemos e das mazelas das nossas vidas.

Por um conceito de maternidade e de paternidade para além das amarras. Sim, é possível ser livre e ter filhos.

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