sexta-feira, 19 de abril de 2013

Para além da perspectiva do monstro

Há alguns meses atrás, em um grupo de amigos que eu gosto muito e que sempre teve uma perspectiva anti-machista, ao menos em tese, um episódio dividiu águas e rachou o grupo todo: um dos casais de namorados, que tinha um relacionamento que todos sabiam que era tenso, terminou depois que a moça fez um BO denunciando a agressão física que do rapaz. Todo mundo ficou meio besta com o fato. Veio a tona muita coisa, inclusive o fato de que a agressão não era uma novidade na relação dos dois.
Isso acaba de se repetir em outro grupo de amigos em que estou, com um rapaz que confessou ter estuprado sua namorada, e ter sido este o motivo do fim do relacionamento deles.

Como o caso se repete, vou contar o primeiro que acompanhei mais de perto

O grupo se dividiu: uns a favor dela, pois se ele bateu nela, é um grande monstro agressor, uma figura desprezível no mundo, e outros em favor dele, justificando a agressão (entre dizer que ela tem um gênio muito forte e até a dizer que ele apenas revidou uma agressão que partiu dela - ignorando que aconteceram diversas agressões antes da gota d'água que gerou o BO) - e às vezes até questionando o fato de ela ter feito um BO, de como isso destruiria a carreira dele...

Para mim, seria até dispensável dizer que é absurdo culpabilizar a vítima por uma agressão, e que eu particularmente achei horrível ver argumentos feministas, como "as mulheres precisam se vitimizar menos" para justificar sua tomada de posição em favor do amiguinho agressor. Terrível, tive vontade de vomitar ouvindo isso.

Mas, infelizmente, eu devo dizer que a constatação à qual cheguei foi que, embora ambos os "lados" se dissessem rivais e tenham discutido muito sobre quem tinha mais razão, quem caracterizava o fulano como monstro ou como brother (e esses, caracterizando a moça como monstro), na verdade partem de um princípio comum entre eles muito complicado e individualista: o de quem quem agride é um monstro. Pois bem, sinto-lhes dizer que o fenômeno da agressão é institucionalizado na nossa cultura, e que na verdade, todos nós estamos nessa mesma barca. Eu não acredito, sinceramente, que qualquer homem inserido nessa nossa cultura machista não tenha jamais sido assedioso ou agressivo com uma mulher por ela ser mulher, não acredito nem nos homens mais incríveis que conheço. Tampouco acredito que alguma mulher em sua vida não tenha, em algum momento, sido conivente com isso - inclusive reiterando e justificando o assédio, o estupro e a violência. E isso, independentemente de sermos feministas ou não.

E aí está: quando você esquece disso, e coloca quem é violento e estuprador como um monstro, há duas vias de ação para uma figura que está materialmente do seu lado, ali, quando é alguém que vc conhece e sabe, ou pelo menos já achou, que é uma pessoa: uma é repelir o cara que teve esse comportamento, tratá-lo como monstro mesmo, ou como doente, o que fecha as possibilidades da pessoa pensar na imensa merda que fez e tal, e outra é relativizar a culpa dele por não reconhecer que um igual a você também pode ser um monstro - e nessa perspectiva, eu sinceramente nunca vi ninguém que caiu sem culpabilizar a vítima, o que é absolutamente grave.

Nos dois casos, se individualiza o imenso fenômeno social da violência decorrente da opressão, e revela-se uma noção de nós e outro. O monstro é alguém sub-humano, que não tem capacidade de aprender a ser diferente, não tem subjetividade. Muito fácil acreditar nisso quando o estuprador e o violento é alguém que não conhecemos, uma abstração de ser esférico no ar, mas quando a coisa fica perto, hum, aí a gente vê quem realmente entendeu o que é a situação de opressão no contexto social.

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