domingo, 4 de novembro de 2012

Documentarista?


Lá estávamos nós. Câmera emprestada, tripé emprestado, e uma ideia na cabeça: a de registrar uma humanidade inteira dentro de cada uma daquelas pessoas. Por trás de uma condição material de privação, da dominação cultural que nos cerca e tenta massacrar aquelas pessoas, por trás de toda exploração e toda dificuldade para se ter o mínimo, lá estão aquelas pessoas e sua humanidade, sua subjetividade, seus gestos e seu ser a ser registrado, gravado, revelado ali para nós, em nossa frente.

Nas narrativas de cada uma daquelas pessoas, existem histórias de fundo que se relacionam numa intersubjetividade maior. Se não a história daquele lugar, de como se formou enquanto assentamento, enquanto movimento social, enquanto favela, uma história do menino que morreu na cruz. A religião é uma narrativa, que tece uma ligação entre homens e mulheres - talvez a isso se refira o religare, à história que nos liga como coletivo. Quem sabe um dia a História, construída a muitas mãos e registrada a muitas mãos, um dia não possa bastar para nos religar enquanto seres humanos.

A cada porta na cara que tomamos para gravar, um monte de sentimentos e medos nos brotavam. O quanto faz sentido estarmos ali, o quanto não invadimos da privacidade daquelas pessoas, ao mostrar sua cara, sua voz, sua casa e sua vida? Mas a cada porta aberta - e comida, e refrigerante, e pipoca, e sorvete, e o melhor de tudo o que eles tinham - nos sentimos como velhas comadres daquelas pessoas, e ao mesmo tempo, como enfim alguém "importante" que se dispõe a ouvi-los, como se fôssemos algo além do que eles são.

E abrindo os ouvidos a essas histórias, a gente entende a História pelas línguas de quem a voz é repetidas vezes silenciada, calada. Ouvindo essas histórias a gente se reconhece nesse outro que está ali, na nossa frente, essas pessoas que sempre imaginamos como uma massa de gente igual entre si mas tão distinta de nós...E de repente eu sinto o mesmo que aquele pai, o mesmo que aquela senhora, de repente eu percebo que aquela pessoa respira tanto quanto eu, simboliza tanto quanto eu, reflete tanto quanto eu.

Me perguntei já se documentário é arte. Pois eu digo que é. É, porque minha inspiração em fazê-lo era de criar um simbolismo, tocar o coração das pessoas no que me toca; e nós planejamos e pensamos em como fazê-lo, posicionamos a câmera, recortamos a imagem. E se a minha tela foi a câmera, a tinta foram aquelas histórias, que querem revelar o que eu mais me encanto em meu trabalho como professora de adultos: a humanidade que nos permeia, que permeia a mim e a ti que me lê, que permeia cada uma daquelas pessoas, que permeia cada um de nós.

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