domingo, 21 de outubro de 2012

Trabalho feminino - A Bela da Tarde

A profissão que escolhi, de professora, não tem lá umas perspectivas muito boas. Desde que a profissão virou marcadamente feminina no Brasil, existe uma desvalorização constante, sentida tanto no prestígio de dizer "sou professora"(o que vira nos ouvidos das pessoas "sou espera-marido"), como no salário; quanto mais subimos na etapa de escolarização,  maiores os salários e mais homens na docência. É uma das profissões de Ensino Superior com menor salário no Brasil. Somos responsabilizadas (em contraponto ao machismo linguístico, como somos uma enorme maioria feminina, usarei sim o feminino para concordância aqui) pelo fracasso das escolas brasileiras, e de quebra, nada do que dissermos a repeito de educação tem muito valor - economistas, médicos, jornalistas, qualquer profissional parece ter mais bagagem para falar sobre educação. Nossos baixos salários nos obrigam a  um acúmulo de salas e lugares para dar aula, somos super exploradas pelo Estado e pelas escolas particulares, e isso se sente em nossos corpos - quem trabalha com educação infantil vive com dores nas costas por carregar 10 mil crianças todos os dias, quem trabalha no fundamental têm problemas de voz por conta dos gritos, problemas nos ombros por conta de escrever na lousa, isso sem contar em quem não aguenta e se deprime  com o difícil tranco de educar uma juventude numa época em que se passou o autoritarismo do professor para o aluno, numa crítica necessária porém mal feita, sobre autoritarismo na escola.

Quase ninguém hoje escolhe ser professor: por ser um dos cursos mais baratos e rápidos de Ensino Superior - é possível ser pedagogo ocupando só os sábados durante dois anos, por 200,00 -, muita gente que busca ascensão social vê esta como uma das únicas saídas e possibilidades. É gritante a insatisfação geral de quem é professor, a quantidade de afatamentos por saúde, a desesperança e desistência numa das profissões mais fundamentais ao crescimento do país.

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Quase toda mulher que se casa vira dona de casa em alguma medida. Se o casal não tiver grana suficiente para pagar uma empregada , o marido até "ajuda", mas quem vira dona de casa é sempre a mulher. Casar pressupõe uma série de coisas e expectativas em relação a mulher: é ela quem vai manter arrumada e limpa a casa, quem fará a comida, quem lavará a roupa, e qualquer coisa fora do lugar já é motivo para sogros desagradados e um monte de gente criticando a mulher. E isso muitas vezes é tido pela própria mulher como sua obrigação; muitas vezes ela até gosta desses afazares domésticos. O gostar é uma construção que vem desde a infância, nas vassourinhas, panelinhas e ferrinhos de passar com os quais brincamos. E por isso desvalorizamos seu gosto por isso?

Essa exploração da mulher não está só no seu tempo encurtado e na constante crítica que recebemos, mas também no seu corpo: serviço de casa é coisa pesada e interminável, cansa demais fazê-lo, dá uma dor nas costas filha da mãe ficar num tanque esfregando roupa; cozinhar no calor é torturante.

Pior, nunca recebemos um tostão por fazê-lo, nunca - trabalhamos dentro de casa e não ganhamos nadica por isso. Se não trabalhamos fora também, o fato de não recebermos muitas vezes nos coloca numa condição de dependência do homem, o que o coloca numa vantagem enorme, pois se ele violenta sua mulher, bate nela, grita com ela, ou não lava um copo, ela simplesmente não tem condições de se separar e buscar outra vida. Se ficamos doentes, não temos licença médica, pois a casa nunca dá descanso, a menos que você tenha condições de chamar uma empregada, o que, em geral (mas nao sempre), é transferência de opressão: vc chamará uma empregada para pagar muito pouco e exigir dela uma limpeza tão criteriosa como exigiam de você. De quebra, a dona de casa que é exclusivamente dona de casa tem sido cada vez mais desvalorizada, chamada muitas vezes de "exploradora do homem" por não trabalhar fora, de "burra" por não procurar "coisa melhor", ou por alguns feminismos, como o atestado de "mulher condizente com a opressão". Se a dona de casa é também qualquer outra profissional, ela ouve críticas do tipo "nossa, mas não dá conta da casa?", "não cuida direito do meu filhinho", "não cuida dos filhos", etc etc etc.

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Pois bem. Dois casos de trabalho feminino super explorado, em termos de grana, de corpo, de moral, a professora e a dona de casa. Há um contexto histórico enorme para isso, de desvalorização da mulher e de seu trabalho. E ainda assim há mulheres que escolhem essas posições. Eu escolhi ambas, escolhi ser professora e escolhi casar, mesmo com essas condições todas de desvalorização e opressão, porque eu gosto. Simples, eu gosto da vida de casada e gosto demais de ser professora; mesmo sabendo que meu salário vai ser muito curto e sentindo que a casa consome boa parte do meu tempo livre, em que eu podia estar aqui escrevendo pra vocês, lendo livros, trepando, conversando com amigos, e estou lá, lavando louça, roupa, varrendo o chão... Quase ninguém questiona a decisão de uma mulher de se casar, ou a decisão de ser professora (pelo menos, não a nível coletivo). Não ouço as vozes revoltadas dizendo "isso é reprodução do machismo!", ou "isso é imoral", não tramita na câmara ou no senado um projeto de proibição às donas de casas e às professoras, nem de punição dos alunos e maridos...

Pois então me digam, por que diabos proibir a prostituição? Trabalho marcadamente feminino - mas não só, viu? -, desvalorizado, que expõe a mulher (e os homens, e travestis) que o fazem a grande possibilidade de violência, de clientes e da polícia, mas ainda asim mais bem remunerado que o meu trabalho como professora e como dona de casa, com uma enorme carga moral de discriminação social; ok, concordamos até aqui.

Mas afinal, quem somos nós para proibir a prostituição? Há uma ideia de que este é um trabalho não necessário, mas isso é uma mentira: o tesão está por toda parte. Por que eu posso ter garantido o consumo de um chocolate quando me bate uma vontade louca e não posso ter garantida uma trepadinha naquele dia que tô subindo pelas paredes e meu companheiro não quer, ou estou sem companheiro e sem sorte na noite?

Há quem questione se existiria a prostituição numa sociedade fora do patriarcado, e eu digo que poderia existir sim, e bem mais frequente do que é hoje, bem mais igualitária - eu, mulher, poderia cismar que quero trepar num dia que meu marido não quer, e ao invés de me resignar sem sexo se ele estiver cansado, eu pago. Qual é o problema de resolver o tesão? Eu não tenho dúvidas que isso seria bem mais igualitário do que um marido obrigar sua mulher a trepar com ele. Me parece ser bem claro que isso resolveria boa parte dos casos de violência sexual, especialmente a conjugal, que é a mais comum. Sexo deveria ser direito nosso, não obrigação de uns e privilégio de outros.

E por que essa sacralização do sexo? Quando um babaca de um político aí, que não me lembro qual, falou que professor não pode trabalhar pelo dinheiro, tem que trabalhar por amor, todo mundo ficou revoltadinho(inclusive eu); mas por que a gente não pode admitir que se pode fazer sexo por dinheiro, que tem que ser sempre com amor? Isso é uma bobeira; sexo é necessidade corpórea para boa parte da população (tem a galera assexuada, que tem seu direito de viver assim, assim como tem gente que não come por opção, ok, pessoas que não comem por opção não são argumentação para proibirmos distribuição igualitária de alimentos, né?), qual o problema de saciar essa vontade? Vendemos até água, tem gente morrendo de sede por isso e não vemos mal moral nisso. Por que @ prostitut@ não pode vender sexo?

E quem disse que só tem coisas desmoralizantes em ser prostituta? Quem disse que só pessoas trogloditas as frequentam? Tirar do cliente a roupagem de algoz é fundamental para tratarmos a profissão um pouco melhor. No filme da Bruna Surfistinha, em algum ponto ela cita uma passagem bonita em que diz que conhece o ser humano de outro jeito, como se o conhecesse por dentro. E eu mesma conheço poucos homens que disseram nunca ter ido numa prostituta, inclusive entre meus amigos libertários. E quem disse que eles necessariamente trataram mal suas prostitutas?

A prostituição é uma profissão como outra qualquer, tão explorada como as outras, porque nós vivemos num modelo social de exploração chamado CAPITALISMO. E sinceramente, perante algumas profissões, ela é bem mais vantajosa: prostitutas ganham mais que professoras, por exemplo. Dentro do capitalismo, a exploração é, no máximo, regulada. Assim como as professoras têm a profissão regulada e isso lhes dá alguns direitos, como férias, décimo terceiro, feriados, licença maternindade/paternidade, as prostitutas também deveriam ter seus direitos garantidos; inclusive para diminuir a violência que sofrem. Nós não vamos acabar com a exploração na prostituição enquanto não acabarmos com o capitalismo. Mas também não vamos acabar com a cafetinagem e o tráfico de mulheres e crianças com uma lei de proibição a qualquer prostituição, porque proibir é botar a prostituta por opção(dentre as possíveis, claro, porque no fim é sempre opção dentre as possíveis) e a que está em condição de escravidão no mesmo balaio.

O presuposto de que "mulheres que escolhem isso necessariamente não percebem que estão sendo condizentes com sua opressão de gênero" me parece demasiado simplista, pois quem disse que a mulher não teve que questionar a moralidade sacralizante do sexo, o dito de que ela seria menos por trabalhar com isso? Quem disse que ela, por ter tido essa vontade (uai, tem gente que curte a ideia de trepar com desconhecidos, de trepar por dinheiro; o desejo é um labirinto cheio das coisas mais incomuns que podemos imaginar), não teve que questionar anos de inculcação machista de desvalorização do desejo e da disposição sexual da mulher? Quem somos nós, feministas ou não, para julgar a escolha de qualquer pessoa sobre seu corpo? Somos as feministas ocidentais as embaixadoras da liberdade feminina, a arrancar véus e mulheres de trabalharem no que querem? Liberdade para quê, senão para fazer o que se quer?

Ficou na minha cabeça as entrevistas com mulheres do filme "Lixo Extraordinário", que é sobre catadores de lixo no aterro do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias. Não preciso dizer que a profissão é extremamente desvalorizada, mal vista e mal paga, e que explora ao extremo os corpos de quem a exerce. Pois bem, TODAS as mulheres, ao falar de sua profissão no filme, dizem "é melhor estar aqui que rodando bolsinha, que cair na vida". A única argumentação delas quando perguntadas se gostavam da profissão de catadora era essa. Por quê? Porque moralmente a prostituta é a versão feminina do bandido - mas que mal faz a prostituta a sociedade? Ou vamos continuar culpando a prostituta pela "destruição de lares" que são construídos sobre pilares de papel?

Um comentário:

  1. Oi, gostei do seu texto! Tem um filme Frances de 2012 sobre o tema. ELLES. Fica a dica.
    Jana

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