quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O devaneio do Metrô


Trecho do meu caderno de estágio, sobre o metrô de São Paulo
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O devaneio do metrô. Tenho sensações diversas dentro dele. 
Nesse dia(de ir ao estágio), eu fui mais tarde, porque ia dormir em São Paulo; saí da linha amarela, estação Butantã, a higiênica e bem arrumada linha amarela, lá pelas 10:00h; ali, pertinho da USP, passa um monte de gente com a mesma cara de “Unicamp” que eu às vezes tenho, jovens barbudos e de saia comprida, chineludos, com seu charmoso descaso questionador, mas nem assim negando a classe social da qual vieram. Junto a esses, homens e mulheres brancos passam com livros de “como subir na empresa” andam engravatados, em sapatos doloridamente fechados e maquiagens impecáveis, rumo a Paulista geralmente, buscando alguma fortuna. 

Desci na Pinheiros, subi milhões de escadas rolantes, passei por lojas de havaianas, brigadeiros gourmet, celulares da Claro, junto com um monte de gente (quanto será de gente que tinha ali comigo, naquele tranquilo horário das 10 e pouco? Uma centena, duas, três, quanto? O que é esse tamanho de cidade, quem são essas pessoas, o que pensam? Não importa, apenas são mais algumas que seguem comigo na boiada que formamos), onde peguei o trem da CPTM, já não tão arrumado e nem higiênico, mas ainda assim bonitinho. Os avisos e os guardas do metrô e do trem me dão um certo arrepio: um garoto sentou-se no chão e alguns instantes depois veio a voz do além “evite acidentes, não sente no chão da plataforma”. Os guardas nunca são os mesmos, eu percebo, mas não sei porquê. 

Dentro do trem, as vozes dos vendedores ambulantes, geralmente homens jovens e nunca brancos, e seus anúncios e promoções: discurso de quem vende, apropriado da publicidade da TV e do rádio, a variedade de produtos baratinhos e “miraculosos”...Tudo entre uma estação e outra, tudo em silêncio na parada da estação, no “intervalo comercial”, como disse um deles uma vez, tudo dentro de uma clandestinidade desnecessária e de uma mochila. A voz que tanto nos fala e nada ouve diz “envie torpedo SMS para XXXX e denuncie irregularidades dentro do trem”. Delação, quem a fará desse rapaz franzino ganhando o seu? Que pensaria Foucault disso aqui? 

Enfim chego na Santo Amaro, e vou para a linha lilás do metrô, tão distoante da amarela, sem Arte no Metrô, com bem menos bancos a descansar nossos pés, sem barreiras de segurança na pataforma e com muito mais pichação. Entro no vagão, e alguns tem um cheiro característico, cheiro de descuido, de esquecimento, de bancos mofados, um cheiro enjoativo, e um ar condicionado meio quebrado. O público também é bem diferente da Linha Amarela, bem mais negro, bem menos engravatado, bem menos universitário, bem mais infantil, bem mais carregado, com chinelos bem mais gastos. 

Quando desço, no Capão, antes da catraca há uma única lojinha de artigos para celular, e já na rua sempre há uns vendedores de chip da Claro assediando quem passa. O celular, um dos mais baratos itens tecnológicos que adentra o fetiche mercadológico na nossa era, é claramente lucrativo. Posso ir a direita numa favelona, ou a esquerda, cruzando a estrada de Itapecerica e chegando nos bairros dali, onde fica o Campo Limpo e o CIEJA. Uma hora de viagem, da região Oeste para a Sudoeste de São Paulo - não, uma hora e eu não cruzei a cidade. Um estranho amor nasce em meu coração, pelo lugar mais improvável.

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