terça-feira, 29 de maio de 2012

Estatística e os muros da pesquisa científica

“Assim sendo, esse estudo (da estatística)os auxiliará na realização de seus trabalhos futuros em diferentes ramos da atividade humana e contribuirá para sua cultura geral (Lopes, 1998).” Minha vivência no movimento de humanização de parto e pró-aleitamento materno, que se baseia fortemente num movimento chamado MBE – Medicina Baseada em evidências - me fez repensar uma série de questões em relação a natureza da ciência e na importância de se valorizar a metodologia científica. Essa ficha me caiu porque toda a reivindicação pela humanização da saúde se baseia não só no fato de que somos pessoas e não máquinas quebradas, mas também no substancial, observável e quantificável fato de que os tratamentos que levam em conta a humanização tem resultados melhores objetivos na saúde dos pacientes. No caso do parto por exemplo, a perspectiva da humanização, onde a mulher é protagonista, a criança é respeitada, o pai não é jogado a escanteio e o médico intervém apenas quando precisa, diminui consideravelmente a mortalidade materna e infantil – isso para não entrar em outros milhões de aspectos da saúde que são influenciados pelo parto, como tempo de amamentação, depressão pós-parto, problemas respiratórios e alergias na criança, etc etc etc. Sempre converso com muitas pessoas sobre isso. Mas nenhuma conversa irrita mais do que as que tenho com profissionais da saúde que não pensam a humanização. Uma vez conversava com uma enfermeira de um hospital renomado – que eu não pisaria jamais novamente nem com 3 semanas de gestação – e ela me dizia absurdos infundados, justificava diversas intervenções médicas. E eu insistia – mas a Organização Mundial de Saúde diz que x porcento de tal procedimento só é que é necessário; as evidências científicas falam que y porcento só deveria usar tal outro procedimento nos casos A, B e C – em vão. Ela insistia em dizer que a prática diz outra coisa... Pois bem, eu não falava pela prática de um hospital só, falava pela prática de vários. Mas que tolice a minha, no fim, discutir estatísticas com alguém que não entende o que aqueles números significam. Veja, como posso compreender, opinar, decidir e transformar minha prática (seja ela qual for e sobre qual aspecto da minha vida for), se eu nem ao menos compreendo como se dá a formação daquele conceito, daquele conhecimento? Como uma pessoa que não consegue dar significado aos números que estão nas estatísticas, que não consegue entender como se constrói bem uma estatística, que não tem domínio sobre esta linguagem pode afinal se apropriar dos conhecimentos científicos que circulam na nossa sociedade? Pior, como essa pessoa conseguirá questionar e discernir sobre o que realmente é científico? Mais além, como essa pessoa poderá se valer da metodologia sistematizada, entender a preocupação de tomar a objetividade de um dado acontecimento, para produzir conhecimento? Nesse sentido, me parece fundamental que o conhecimento estatístico seja bem trabalhado na escola. Este texto veio bem a calhar, e a aula também. Não sei se conhecem, mas eu sempre escuto: estatística é balela, porque se você medir a temperatura média entre o fogão e a geladeira, terá uma temperatura habitável. É óbvio e natural que as pessoas pensem dessa maneira(que aliás, é um belo demonstrativo de que elas não entendem o que é estatística, porque essa afirmação não faz nenhum sentido): se na sociedade em que estamos as coisas precisam parecer científicas, mas não há quem consiga reconhecer o que é realmente fruto de conhecimento sistematizado (que dirá questionar a sistematização), a estatística, tão fundamental ao conhecimento científico, passa a ser um número sem valor. Até aqui, ok. Teoricamente é lindo, vimos qual a importância e tal. Mas o grande barato dessa aula foi vislumbrar uma forma de trabalhar o que é estatítstica com alunos de anos iniciais e até da Educação Infantil. Eu realmente não conseguia pensar antes em uma forma de explicar isso sem passar por um monte de conhecimentos mais avançados de matemática. Achei fantástica a ideia do gráfico de setores simples que nos foi mostrada, e mais ainda a do gráfico dos aniversários – essa porque pode ser trabalhada com bem poucos conhecimentos matemáticos. A quebra da linearidade, que é colocada no texto, foi muitíssimo bem ilustrada pela aula. E a estatística faz parte do cotidiano de nossas crianças(e dos adultos não alfabetizados, diga-se de passagem), temos um universo a explorar de material para trabalhar. Entender estatística faz parte de ler o mundo, tanto da criança da oitava série como do adulto da quarta. Fundamental também é esta ideia para que o conhecimento científico ultrapasse os muros das universidades e dos centros de pesquisa que estão amarrados ao poder econômico. Uma educação que se preocupe em ser libertadora e revolucionária precisa passar pela estatística, por toda sua potencialidade de compreensão amplificada dos fenômenos. Não me espanta que ela ainda esteja tão distante da prática do professor. O muro do conhecimento científico a se pular pelo povo não é apenas físico.

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