segunda-feira, 26 de março de 2012

Vivências matemáticas precárias

Queridos,
Eu tô numa brisa nos últimos tempos, sem tempo de escrever aqui mas com muita vontade.
Minha brisa é sobre conhecimento popularX científico, produção de conhecimento científico por quem, onde e com quais recursos, e o papel da educação nisso tudo.
Aí vai o primeiro texto sobre isso, para a disciplina de Escola e Cultura Matemática.

Beijos!


As “Vivências precárias”
Disse o grupo que complementou nossa questão acerca da tendência etnomatemática: “se o professor se restringe exclusivamente às vivências do aluno, e esse apresenta vivências precárias, o professor acaba contribuindo para a manutenção do aluno na condição de detentor apenas de saberes populares.”
Me parece que há aqui dois problemas: um de entendimento sobre a própria crítica que faz o texto à essa perspectiva, e um de fundo ideológico, que se manifesta num discurso nas entrelinhas, que soa bastante preconceituoso.
Em primeiro lugar, o problema dessa perspectiva segundo o que o próprio texto diz, se refere a um fetiche do “mundo real” e do “dia-a-dia”, esquecendo-se da formalização da matemática em si. Em nenhum momento se referiu a alguma vivência de algum grupo em específico como sendo matematicamente “mais rica” ou “mais pobre”. Sim, existe um eurocentrismo na matemática escolar, mas não dar acesso ao conhecimento dessa matemática é excluir o educando do mundo em que estamos que ainda é o mundo capitalista e nada liberto, é excluí-lo da universidade, do concurso público, da linguagem da ciência, da medicina, da tecnologia, etc. É exclui-lo também da grande conquista da ciência, ainda em andamento, da observação sistematizada e registrada, que nos permite uma visão mais ampla e fundamentada acerca dos fenômenos que nos cercam.
Mas o próprio Paulo Freire, em seu livro “Extensão ou Comunicação?” falará sobre a importância de mover do “pensamento mágico” do mundo para um conhecimento sistematizado e científico. No primeiro capítulo, ele descreve diversas populações com conhecimentos ainda “mágicos” do mundo, e toda a sua implicação desse tipo de pensamento, desde o reforço de preconceitos até a perda de uma safra inteira de alimento. Portanto, se há este fetiche da cultura popular e da vivência for a da escola, isto vem de uma má leitura acerca do Paulo Freire, que é bastante conveniente à manutenção da opressão – e nisso concordo em gênero, número e grau com o texto. Além disso, no imaginário das pessoas, existe uma cultura escolar que ultrapassa seus muros, e muitas vezes é exigida pelos próprios educandos, até mesmo para quem está em projetos de educação fora da escola – sendo esta já uma boa brecha para pensarmos com a perspectiva da etnomatemática sobre a matemática escolar.
O problema principal da afirmação de meus colegas, porém, está longe de ser o descrito acima. Me incomoda que se fale em “vivências precárias”. O que é uma vivência não precária em matemática? É a vivência do filho do burguês, exclusivamente escolar? É a vivência da mulher proletária que tem que transformar um salário mínimo em casa, comida, roupa e transporte? É a vivência do indígena que pesca peixes para sua aldeia toda? Existe algum sentido em denominar esta ou aquela vivência como culturalmente superior, para podermos falar em vivências precárias? Nas entrelinhas, há um discurso, este bastante prejudicial ao educador, um discurso que se funda na crença da própria superioridade de seu conhecimento, e portanto de sua posição. O conhecimento matemático que o educador tem a obrigação de passar é de que natureza? A meu ver, qualquer conhecimento é uma ferramenta, uma tecnologia, criada pelo homem. Existe hierarquia entre ferramentas? E, num mundo dominado pelo branco, pelo capitalismo, a tecnologia do conhecimento matemático a ser passado na escola tem que ser focada nesta eurocêntrica, pois é esta que vai nos dar possibilidade de compreender e lutar contra a opressão hoje, através da apropriação da ciência pelo povo, não só em seus resultados, mas em sua produção. Só assim, também conseguiremos transpor uma ou outra cultura matemática, pois para uma ciência apropriada pelo povo, surgirão novas matemáticas.

Bibliografia extra:
FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação? 8ªedição. Editora Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1983.

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