segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Pobrefobia?

Semana passada aconteceu uma coisa que me incomodou muito e me incomoda sempre que acontece.
Fui ao Fórum da Pedagogia, como sempre com meu grande amigo computador, e quando fui embora esqueci o carregador dele na tomada. Só me dei conta em casa...
No dia seguinte, fui direto na portaria perguntar se alguma coisa tinha sido deixada lá. Nada. Perguntei no Salão Nobre (onde estava sendo o Fórum), e nada...Pergntei para uma das moças da limpeza, que me disse que ia perguntar depois para os responsáveis pela limpeza do Salão Nobre. De repente encontrei com duas professoras que tinham estado no dia anterior, se sabiam de algo. Aí uma delas, muito solícita, me levou até a diretoria para perguntar se alguém tinha deixado algo lá e nada...Aí ela disse: “ah, pergunte para o funcinário fulano, mas caso não esteja lá, temos que saber disso, porque pode ser um colega, mas e se for uma das faxineiras? Aí precisamos saber para averiguar!”
No fim eu perguntei para outra funcionária da limpeza, que foi quem encontrou para mim(irônico, não?).
Mas eu sempre fico encucada com essa desconfiança. Puxa, outro netbook desses do mesmo estilo do meu vale uns mil reais aqui no Brasil. A maioria das pessoas que faria uso de um PC assim é de classe média/alta. Por que a desconfiança sempre recai em cima de quem supostamente tem menos?
Para mim isso é uma discriminação como o machismo, a homofobia, o racismo.
E nem tem nome. “Pobrefobia”? Tipo isso. Por que sempre os mais suspeitos de desonestidade são os mais pobres? E isso não veio de uma professora das mais escrotas não, veio de uma que tem em sua bibliografia caras como Paulo Freire, Marcos Bagno...
O quanto isso é arraigado na gente a gente nem imagina.
Existem várias formas de se manifestar a pobrefobia. Tem uma particularmente corrente entre os jovens de classe média de minha idade, que consiste no ódio ao serviço doméstico. Eu estou impregnada disso. Qualquer coisa relacionada a limpeza é visto como algo inferior, chato, intrinsecamente ruim. Mesmo nos meios mais progressistas, é sempre visto como “um mal necessário que temos que dividir”. É um tipo diferente de pobrefobia. É pobrefobia porque quem desenvolve esse trabalho na nossa sociedade é principalmente o pobre. Além de taxar o trabalho como algo inferior e pouco complexo(e quem acha que é pouco complexo, vá conversar com quem tem um curso ou muita prática de faxina para você ver), ainda vem a visão do coitadismo. “tadinho do pobre”.
Me lembro de um dia quando era mais adolescente (que vergonha), que estávamos tomando um suco num bar que tinha mesas na rua. Cairam uns guardanapos no chão que foram voando, e fui buscar, quando uma amiga minha disse “não faça isso, você está tirando empregos de gari”(ai, que raiva de gente que diz isso....eu paro de andar com alguém se escuto isso, de verdade) e eu disse “um emprego que não deveria existir, você acha que alguém gosta de trabalhar limpando coisas? ” - como se não fosse digno e como se fosse uma tortura limpar!!
Esse tipo de visão me lembra a misoginia (ódio ao feminino), que coloca como intrinsecamente ruim qualquer coisa que venha do corpo feminino: parir, menstruar, amamentar, ser penetrada. Me lembra a visão da “raça” negra (como se isso existisse) como menos inteligente, menos capaz, e em alguns casos até mais frágil de saúde... “Tadinha da mulher”, “tadinho do negro”, “tadinho do pobre”, como sofrem!! “Tadinho do gay, que tem que enfrentar preconceito, que martírio ser gay, que infortúnio do destino!”...O título de coitada, seja cunhado pelos homens mais machistas ou pelas mulheres mais feministas, pelos mais fervorosos religiosos ou o mais fervoroso militante do arco íris, eu dispenso. E dispenso ver qualquer pessoa sob o olhar da pena. Por isso pergunto: por que o trabalho do pobre é intrinsecamente menos agradável que um outro qualquer? Não podem existir pessoas que simplesmente gostem desse trabalho? Não será a valorização que se dá para ele, a forma que o encaramos, que reproduz essa lógica e molda os gostos? Porque de coitado a culpado, é um pulinho: do pobre coitado ao pobre ladrão, da santa a puta, do negro desnutrido ao negro estuprador, do gay sozinho ao gay pedófilo...E assim por diante...

2 comentários:

  1. Os pre conceitos, a minoria sempre sofre essa tarja de LADRÃO, e tudo o que no final qualquer faixa e capaz de fazer, o mal nao ve diploma nem dinheiro.

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  2. O que o ser humano busca acima de tdo eh status, nossa cultura foi construida historicamente para valorizar uns, desvalorizar outros de acordo com a importancia social que as pessoas atribuem a tal funcao.
    Penso que o proprio trabalho em si na parte da limpeza eh realizado de forma desumanizada e eh feito mto pouco para que o modo de trabalhar dos garis e lixeiros por exemplo se torne mais humano... assim consequentemente as pessoas acabam os menosprezando pela situacao e pouco valor que se dah a essa forma de trabalhar que foi imposta a eles... e mtos deles infelizmente nao percebem que sao vitimas de exploracao e continuam trabalhando felizes sem ter uma nocao certa do seu papel na sociedade. Acho mto digno o trabalho de limpeza, soh nao acho digno o modo criado para se executar o servico e da falta de vontade dos governos para valoriza-los como humanos. As empregadas domesticas sao um exemplo disso e os patroes alienados mal percebem qto eles tbm as exploram e acham que estao sendo bonzinhos apenas por empregar alguem com quem eles mantem uma relacao superficial... mas felizmente vejo que existem jah excessoes nessa area.

    O pior mesmo eh uma pessoa como ela, que segundo vc eh uma grande professora, intelectual, estudada e tdo mais, associar pobreza com desonestidade.

    E mtas vezes pessoas como eu sao inferiorizadas por nao ter um ensino superior... isso tbm eh lamentavel, pois nem todo mundo se enquadra para fazer uma faculdade para seguir a regrinha da vida como todos. Nesse exemplo vemos que uma boa formacao intelectual nem sempre significa uma boa formacao como pessoa, eticamente falando.

    Belo tema Isadora!

    Katya Sophia.

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