quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A babaquice das campanhas de amamentação

Você chega a um hospital, tem uma foto de fotógrafo lindíssima de uma mulher magra, de cabelo tratado e branca, com um bebê gorducho mamando num peito firme, escrito embaixo em letras garrafais "Amamentar é um ato de amor", e em letras menores todas as recomendações da OMS e blá blá blá.

Eu queria saber porque o Estado, em particular o Ministério da Saúde, gasta tanto dinheiro com propaganda. Só para começar o papo. Eles chamam campanha de conscientização colocar um poster com uma realidade surreal - porque quem é mãe sabe que você não tem um filho pequeno hoje e amanhã vai no cabelereiro ficar linda, nem terá o peito firme se amamenta, nem estará magrelíssima logo, e nem sempre será branca e terá um bebê branco, e muito menos estará sempre felicíssima ao amamentar e sem olheiras na cara - com um julgamento de valor RIDÍCULO sobre maternidade, do tipo, "quem ama, amamenta. Se você não amamenta, não ama". Onde vocês viram isso? No Santo Agostinho? No babaca da Freud? Na Melaine Klein?

Isso para nem passar pela pressão psicológica que passam diversas mulheres nos hospitais em que seus filhos nascem, com enfermeiras apertando os peitos doloridamente e dizendo "seu leite não desce porque você não quer". Nem vou tocar no ponto da (des)humanização da saúde, que esse vai longe.

Estava eu pensando com a minha velha irritação com as campanhas de "incentivo" ao aleitamento materno, quando me cai na mão uma notícia. http://noticias.r7.com/brasil/noticias/camara-empurra-votacao-de-projeto-que-amplia-a-licenca-maternidade-para-seis-meses-20111030.html

De que adianta essas propagandas de aleitamento materno moralistas e machistas, se não temos estrutura mínima na sociedade para garantir que as mulheres efetivamente possam amamentar suas crianças? Como seguir a recomendação da OMS de amamentar até os 6 meses exclusivamente em livre demanda se nem mesmo a mãe tem direito a licença de 6 meses? Se o Estado levasse a sério a questão de saúde pública que é a amamentação, levaria a sério os direitos trabalhistas das mães e dos pais - sim, porque deixar a mulher sozinha 6 meses em casa com serviço de casa e bebê para cuidar, vendo sua vida profissional "congelada", enquanto o pai tem que acordar cedo e trabalhar 8,9h por dia para pôr grana em casa, sem poder curtir o filho e dividir efetivamente as cansativas tarefas domésticas, não é suficiente para aumentar de fato os índices de aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade.

As campanhas publicitárias só tem um efeito real: jogar pras costas da mulher uma responsabilidade que é da sociedade em geral, e na nossa conformação social, do Estado em particular, o cuidado das novas pessoas. Colocar a culpa na mãe é fácil. Estaremos numa sociedade de "desnaturados", de mães malvadas que não amam seus filhos? Ou estamos numa sociedade que pensa mais no que se tem do que na saúde coletiva?

O Estado será realmente o grande instrumento de organizar o coletivo, ou os interesses dos grandes empresários sempre falarão mais alto?

7 comentários:

  1. Disse tudo! A primeira coisa a se fazer é desvincular amor de amamentar, amamentar é pra quem pode na sociedade de hoje, é persistencia ,as vezes ate teimosia! Tenho uma amiga que tomou trauma da amamentação de tanto que as enfermeiras a deixaram ferida e constrangida na maternidade. O que é isso? tao dificil assim conscientizar estes profissionais? Eu que nao sou da area de saude precisei de apenas duas horas com uma doula pra entender como a amamentação funciona. E o ideal mesmo seria uma licença de uns 2 meses pro pai e de um ano pra mãe. 3 meses é um absurdo! 6 meses ainda nao conheci ninguem que conseguiu .... Eu abri mão da minha carreira, do poder aquisitivo, da saude financeira, em prol da amamentação e dos cuidados com minha filha, sei que foi loucura, preferia que nosso país desalmado fosse melhor.

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  2. De fato uma campanha "quem ama, amamenta" não é muito feliz na escolha das palavras. Justamente pelo que foi apontado: isso implica a negação de que quem não amamenta não ama. E sabemos que existem muitos motivos para não amamentar.

    Entretanto uma coisa que vc não aprofundou e é culpa única e exclusivamente das mulheres é questão estética. Conheço muitas mulheres, inclusive a minha própria mãe, que resolveram não amamentar por receio dos seios caírem. Como se a gravidade não tomasse conta disso.

    Verdade seja dita: as mulheres, compram muito mais do que os homens essa ideia de estética perfeita. Fazem o impossível para remover um pêlo ou manter os seios no lugar. Fazem tanto que chegam ao ponto (não todas, claro!) de descuidarem da saúde dos filhos por um instante (não amamentam) justamente para manterem as "coisas" de pé.

    Essa coisa de culpar o estado já virou clichê. Até porque a escolha é nossa. Se um governo não nos agrada é uma questão de mobilização acabar com a festa...

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  3. Então, é que esse post não se propõe a pensar sobre de quem é a responsabilidade(porque culpa é um termo horrível) pelos baixos índices de amamentação, e sim sobre como o Estado trabalha a questão do incentivo ao aleitamento materno enquanto política pública de saúde...
    De qualquer maneira, sobre o ponto que você colocou, acho que mais do que culpar as mulheres por suas "futilidades" é preciso ver de onde vem essa lógica. O que significa na nossa sociedade não estar nos padrões de beleza? Significa sempre um risco de ser abandonada, ter menos valor socialmente...Porque a beleza é um produto de troca para as mulheres, uma questão de sobrevivência mesmo, já que era por ela principalmente que conseguíamos "bons casamentos". Hoje ela tem um peso ainda enorme sobre nós; isso nos diz desde a propaganda de maneira explícita, até quando falamos com nossas pequenas crianças, em que sempre valorizamos a beleza das meninas dizendo "que linda" se elas se vestem de vestidinhos... É claro que as mulheres compram muito mais essa ideia que os homens, a ideia se vende muito mais para nós!!! Se o problema está nas mulheres, então estamos tratando de quê? De uma essência feminina malévola, como iriam adorar colocar os antigos filósofos gregos, a igreja católica, e todos aqueles que embasaram a justificativa para a nossa escravidão? Será que faz sentido pensar por esse lado?
    Não estou tirando daquelas que escolhem não amamentar seus pequenos por estética(e por qualquer outro motivo) a responsabilidade, mas me parece fundamental entender que o fenômeno é maior e precisa ser entendido no contexto social no qual se dá.

    E desculpa, num Estado como o nosso é configurado, imaginar que realmente temos escolha de quem está no poder, com a lógica eleitoreira baseada em propaganda e todos os outros milhões de problemas da instituição democrática, é confiar demais nas promessas democráticas e fechar os olhos para o fato de que a democracia no Brasil(e no mundo, mas no Brasil isso é mais forte) é uma grande mentira. Concordo que tem que ter uma mobilização para se desbancar quem está no poder, mas isso não se faz sozinho. E quem tem hoje um projeto que junte gente para isso?

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  4. O contexto histórico que vc citou sobre conseguir "bons" casamento é errado. É quase que o contrário disso. As mulheres boas para se casar eram as menos "espalhafatosas" e as com mais habilidades manuais. Por razões óbvias. Os homens queriam alguém para cuidar da casa e educar as crianças.

    A forma como vc diz parece que a culpa (insisto no termo) é de quem vende a ideia de que beleza é fundamental. Quem compra é vítima. Quem compra uma ideia dessa é tão culpado quanto quem oferece. Não sei vc, mas eu acredito que é possível romper padrões. Mas é óbvio que não se consegue nada com um pensamento desse: beleza como moeda.

    Concordo com vc que meu comentário foi simplista no sentido de não avaliar o motivo dessa adoração a estética. Mas até quando vamos ficar culpando as regras do jogo? Será mesmo que nós (vcs) devemos simplesmente aceitar e jogar?

    Enfim, a coisa já se debandou para outras áreas então talvez seja melhor parar por aqui. Talvez assunto para outro post.

    Por fim, sobre o Estado democrático. Democracia só não funciona aqui por conta do povo. Cada povo tem os governantes que merecem. Essa cultura de querer se dá bem sempre não deixa a coisa funcionar. Boa parte dos políticos corruptos que temos hoje, tem em seu passado uma história brilhante. Lutaram para estabelecer eleições diretas, armaram contra os militares, arriscaram suas vidas em prol da liberdade dos outros. Mas aí, quando tiveram a chance de fazer diferente cagam no pau, esquecem o resto mundo e querem fazer aquele pé de meia. Horrível isso!

    Bem, é isso! De qualquer forma, parabéns pelo post e pelo nível da resposta. ;)

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  5. Nossa, adorei ter um comentário meu respondido!!!Adoro discutir coisas, em especial num tema que me envolve tanto como a maternidade, obrigada!

    Então...
    É que vai ser difícil falar em políticos, porque eu não acredito que na estrutura em que estamo seja possível ter alguém bom governando...Bom, isso é uma coisa meio anárquica minha. Deixemos de lado. Mas concordo que quem sustenta isso são as pessoas, o "povo"(entre aspas porque não me sinto segura no uso desse termo), em momento nenhum vou contra essa ideia.
    Sobre o ponto da beleza, vou abandonar a argumentação histórica porque talvez a tenha citado sem conhecê-la a fundo, realmente;mas, falando de hoje, eu sinto que existe sim uma questão forte e difícil de lidar que é a valoração que se dá a mulher pela sua beleza. Por mais que sim, isso seja responsabilidade da mulher, que ela deveria poder não comprar essa ideia, nem todas tem maturidade para romper com isso. E isso é um limite posto socialmente para a questão. É preciso que quem conseguiu se libertar disso convide outras pessoas a questionar e romper com essas ideias escravizantes...Eu tento fazer isso, em especial com minhas amigas.
    E para mim tem outra questão que sempre entra no debate da obrigação da amamentação: enquanto a maternidade não for uma opção materialmente garantida, ou seja, enquanto não conhecermos nossos corpos, pudermos dar vazão aos nossos desejos e não simplesmente tivermos que seguir "nosso destino irrevogável de mulher", tivermos pleno acesso aos meios contraceptivos e ao aborto seguro, a maternidade continuará a ser encarada do jeito que é pela maioria das pessoas: uma obrigação social na qual o mínimo de trabalho é o melhor caminho.

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  6. Simplesmente adorei esse último parágrafo! Resumiu muito bem a maternidade hoje! Sensacional! Irei me apropriar desse argumento e espero um dia usar no contexto correto!

    Até!

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  7. Tem que desvincular mesmo essa idéia: Quem amamenta, ama!" E quem não faz isso, por vários motivos é tratado como?
    Ridiculo esse tipo de campanha que invisibilisa a mulher e a realidade pessoal de cada uma, é como se todas fossem iguais. E esse modelo, mulher branca, bb branco, todos lindos e saudáveis.Mostra se vc não é linda,não tem peito firme, não é branca, não tem filho branco e não amamenta.Tá ferrada!

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