terça-feira, 20 de setembro de 2011

A Naturalização do Sentimento

Uma vez, o Pi tinha uns 2 meses, estávamos num evento com outras mães e bebês, quando uma menininha de 1 ano e algo veio ver o Pi e fazer carinho nele. Aí uma pessoa que estava disse: "Ai, que linda, é o instinto materno".
O Pi faz isso hoje que tem um ano e 3 meses, quando vê bebês menores...Instinto materno? Nossa, meu filho deve então ser trans! Ai meu deus, que conflito freudiano ele não resolverá???

Aí está uma situação um pouco patética e caricata, mas que mostra uma realidade que permeia milhões de debates: a naturalização dos sentimentos.

Tratamos aquilo que sentimos, o tempo todo, como se fossem coisas "naturais", viessem de nós e se produzissem em nós em qualquer situação, contexto histórico, posição social, como se elas fizessem parte de uma dada "essência humana" e fossem compartilhadas em qualquer cultura, região e credo.

A psicanálise acho que é o exemplo mais fácil de perceber isso, já que coloca como "consequência biológica" que homens e mulheres se sintam deste ou daquele jeito, e qualquer coisa fora disso é doença, maluquice, psicose. Mas a psicanálise não é a única: muitas feministas caíram no mesmo engodo. A Badinter, em "O mito do amor materno", em que ela tão lindamente desconstrói a balela burguesa de amor materno, acaba por naturalizar a maternidade como um sofrimento, prisão feminina, vazio; não lhe passa pela cabeça que uma mulher pode ser mãe e ser feliz. Quantos comunistas não colocam na instauração inquestionável da monogamia a liberdade feminina, como se os homens naturalmente sempre fossem tirar proveito da poligamia e as mulheres sempre ficassem a ver navios, como se os homens fossem naturalmente sempre possessivos e fossem atrapalhar qualquer possibilidade nossa de amor livre?

É preciso perceber que os nossos sentimentos também são aprendidos, e aprendidos de uma determinada cultura, que construiu um imaginário e uma representação social do que é vivenciar uma dada situação, e isso se circunscreve em um determinado momento histórico. Não vou negar que existam "proto-sentimentos", que podem ter uma origem biológica. Mas a forma de reagir a isso é socialmente construída.

Quando eu fiquei grávida, senti sim um impulso de proteger minha cria (que é o que eu chamo de instinto materno, e que só se manifesta depois de uma gravidez; também acho que exista um "instinto paterno" em quem está em volta e aceita a gravidez...outro papo!). Mas meu impulso por proteger minha cria me leva a um sentimento de me empenhar mais politicamente para mudar esse mundo que é perigoso ao meu bebê. A outras pessoas, pode significar qual(is)quer outra(s) coisa(s), pode até não significar nada. No imaginário que circunda por aí, em geral é de que a mãe se retira das atividades políticas para proteger seu bebê, porque essas atividades seriam perigosas...

Tem um livro que eu quero ler que se chama "O Anti-Édipo", que localiza as teorias psicanalíticas de como se processam esses sentimentos como algo deste tempo.

A justificativa de que nada fora da monogamia é possível de ser construído porque "quem pratica sente ciúmes", por exemplo, põe no ciúme um peso de regra, de fato, de coisa inerente à natureza humana, e não consegue ver que nós somos criados o tempo todo para sentir ciúme, que isso é um mal de nossa era (independente de se pretender uma relação monogâmica ou não, pois o problema está na instituição da monogamia como regra social - eu não tenho nada contra os autênticos monogâmicos, embora conheça pouquíssimos e a maior parte das pessoas que debate isso do lado deles, seja comigo ou usando minhas confidências - e isso dói cara, dói mais que rasteira de capoeira, pela hipocrisia e pela traição - não pratica efetivamente isso), e que é sim um sentimento a ser vencido, como tantas outras coisas nesse caminho de pedras que trilhamos para transformar algo no mundo.

Portanto, só quando nós desnaturalizarmos nossos sentimentos e nossas emoções, quando entendermos a historicidade/culturalidade/localidade disso é que efetivamente começamos a dar um passo para a revolução real, porque começamos a refletir sobre o que realmente nos governa, que é o que temos no coração.

Um comentário:

  1. Hoje acordei entediada com o senso comum e me deparo com um texto lúcido....
    Que grata surpresa!

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