quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Estupro invisível

Vendo o filme "O último tango de Paris" e pensando nele e em todas essas histórias de estupros dos últimos tempos, resolvi escrever algo que faz tempo que venho pensando.

Nesse filme(bem menos pesado do que eu imaginei, mas enfim), tem uma cena(a pior de todas do filme) em que o personagem do Marlon Brandon prende a mulher e a força a fazer sexo anal, mesmo sob seus lamentos e choro dizendo que não queria.
Então eu e o Capi começamos a discutir: isso teria sido um estupro?

Para mim sim, para ele não.

Por que para mim teria sido?
Porque ela dizia que não queria, e ele ignorava veementemente seu não, e continuava. A questão não era só o quanto ela "reagia"(como se dizer não fosse reação). Ela dizia não e ponto.

Mas para mim há um outro questionamento: por que o "não" dela(e de todas nós, porque isso é bem comum) tinha tão pouco valor?
Em nossa sociedade machista, aprendemos, nós mulheres, desde muito pequenininhas, que não podemos demonstrar desejo. Mulher decente diz não. E os homens aprendem que nós mulheres sempre resistimos ao sexo, e que eles devem insistir o tempo todo(até porque as que dizem "não" seriam as "que se dão valor"). Também aprendemos que nós mulheres somos cheias de melindres, e que muitas vezes temos uma "mente perversa" que quer dobrar os homens, então eles precisam nos dominar - pelo corpo, pelo dinheiro, pela humilhação.

Sob esse ponto de vista, é natural que as mulheres digam não para tudo(para o que querem e o que não querem) e muitas vezes sejam veementemente ignoradas.
Então esse estupro passa a ser invisível, embora praticado o tempo todo, na rua, no bar e nos lares de todo o Brasil.

E por que as mulheres dizem não e ainda continuam?
Dizem não às vezes por hábito; dizem não às vezes porque, mesmo querendo, sabem que a barra psicológica depois pode ser muito pesada, e não tem vontade/energia/disposição para passar por ela; dizem não às vezes por simplesmente não querer, pois assim como às vezes queremos um sorvete e às vezes não, às vezes queremos sexo e às vezes não. E continuam às vezes por medo, porque, afinal, se somos criadas para esperar quem nos proteja e esse protetor se torna algoz, não temos a quem recorrer - porque não passa pela nossa cabeça que podemos recorrer a nós mesmas e tomar posse de nosso corpo, inclusive para nos defender; continuam às vezes porque não sabem por onde expressar seu não, já que nos dizem tão boas com as palavras e elas de repente não surtem mais efeito; às vezes porque o sentimento que nutrimos por aquele homem é grande, e temos consciência de seu erro; e às vezes porque somos criadas para achar que amar é sofrer e que os homens são assim mesmo(ahá - aí caem as feministas que adoram naturalizar os homens como seres dotados de grande mal, que tratam o estupro como algo inerente e inevitável nas relações entre mulheres e homens).

Os homens continuam por quê?
Porque se sentem muito poderosos nisso; porque realmente acham que a mulher queria(e há diversas justificativas para isso, das mais reacionárias, que colocam o "não" entre os nossos melindres da mente perversa feminina, até as mais "libertárias", que colocam o "não" como uma coisa inerente à nossa repressão sexual, como se não devesse ser nossa a escolha de brigar com a repressão ou não); porque acham que as coisas são assim mesmo e mulher boa é aquela que sente dor e diz não; porque simplesmente têm que mostrar que são machos e que nunca negariam sexo - embora às vezes também não queiram.

Então, a questão está além de punição aos estupradores(vejam, eu não sou contra punição, sou super a favor, cadeia neles!), porque esses estupradores dos quais falo quase nunca se reconhecem como estupradores, e essas pessoas que passam por isso quase nunca reconhecem que foram estupradas (até porque isso é colocado num tabu e numa marginalização tão grande que é difícil admitir que passamos por uma situação assim). Esse tipo de denúncia, se chegasse numa delegacia da mulher, nem seria investigada e a pessoa que passou por isso seria bastante estimulada a "deixar para lá". E é por isso também que eu não acredito em pena de morte ou surra em estuprador, porque se fôssemos realmente bater em todos os homens que já praticaram algum tipo de violência sexual, sobraria quase nenhum sem olho roxo(eu mesma conheço quantos, uns 2? Será tudo isso?).

A questão está na manifestação do desejo. Enquanto não formos livres para manifestar nosso desejo, também não seremos livres para manifestar nosso não desejo. Enquanto o "não" for um grande valor, enquanto a gente ainda acreditar que existem situações que dizem mais que a nossa manifestação e a nossa linguagem(por exemplo: uma mulher vai na casa de um amigo ver um filme, dá uns beijos nele, e na hora que ele quer mais e ela não quer, ele vai supor que seu "não" não tem valor), nós não venceremos a questão do estupro.

10 comentários:

  1. Caramba, Isa.
    Muito interessante isso. Nunca tinha pensado nisso de estupro invisivel. E eh verdade mesmo oq vc disse.
    Curti, mas fiquei bem confuso. Serei obrigado a pensar um tanto sobre isso ainda... haushaushau

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  2. Cara, eu fiquei um tempão matutando essa questão...
    E fiquei mal quando fui percebendo essas coisas, na verdade...
    É confuso. Imagino que para os homens seja um pouco mais, porque a posição de opressor é sempre mais responsabilizada, e isso pode ser levada pro improdutivo lado da culpa.
    Recentemente, fiquei sabendo que um dos casos de estupro foi com uma pessoa próxima a mim. Ao saber disso, o Capi e um outro amigo ficaram indignadíssimos, e eu perguntei a eles: mas como vcs se sentem, sendo homens? E eles disseram que não tinham uma identificação com o estuprador. Eu achei isso muito curioso! Acho que isso vem muito dessa coisa de o estupro ainda ser visto com um estigma e uma coisa distante, quando na verdade ele está muito mais perto. Se não reconhecermos isso, e não identificarmos por onde reproduzirmos essa lógica, seguiremos na mesma, para sempre.

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  3. Interessante essa questão dos diversos significados dos nãos, acho q a questão é bem poraí. "Enquanto não formos livres para manifestar nosso desejo, também não seremos livres para manifestar nosso não desejo".

    Mas me incomoda a qualificação da cena do último tango em paris como estupro, por exemplo. Não sei se é bem isso, ou pode ser pq essa palavra está carregada d muitos estigmas tb. Não sei se essa definição no final das contas vai ajudar na nossa aceitação dos nossos desejos e não desejos... Bom, não sei, to só pensando...

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  4. Quando eu li o titulo pensei que você ia falar de algo que envolvesse o estupro sem contato físico, que poderia ser chamado de estupro brando, talvez.
    É uma coisa que eu, como homem criado assim nessa sociedade, pensei e matutei por algum tempo. É normal (palavra complicada essa, mas coloco aqui como normal na nossa sociedade atual) que os homens sempre vejam, observam, desejam, comentam, as veza até falam alguma coisa, seja groseira ou romântica, para as mulheres que passam. Se estiver com um vestido curto então, nossa!
    E é também comum, e isso é um assunto polêmico e escondido, que os homens (veja, homens de todas as idades, não apenas adolescentes) se masturbem pensando não só nas mulheres das revistas e da televisão, mas também pensando nas mulheres do seu dia a dia, da que vi passar na rua com o tal vestido, da que trabalha ou estuda junto, da chefe ou da empregada (que envolvem fetiches com relações de poder e dominação, que é outro assunto interessante).
    Esses olhares, desejos, comentários, pensamentos e principalmente a masturbação dirigida a uma mulher, sendo coisas sem consentimento, não seriam também estupro? (no meu ver, COM CERTEZA!)
    Não sei se existem estudos sobre isso e até que ponto as mulheres tocam nesse assunto ao discutir estupro, mas acho que é um ponto importante a considerar, ainda mais porque acontece com quase todas as mulheres (e homens também).

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  5. nossa, M. Mazieri...
    Eu não tinha pensado nisso...
    Já tinha pensado sobre a forma de ver que os homens tem, essa coisa de ter o tempo inteiro que olhar a mulher como um pedaço de carne...Mas não assim.
    E quando nós nos masturbamos pensando em vocês? É um estupro?
    Eu não sei se considero um estupro que nos masturbemos pensando em alguém que desejamos. Acho isso meio normal...Mas quero discutir mais isso!

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  6. Também é um estupro, no meu ver. Mas isso não chega a ser um problema social, porque não interfere na outra pessoa. Alias, pode até ser algo bom no sentido que se uma pessoa se masturba tem maior controle sobre seus desejos sexuais e encara melhor a sexualidade do outro(geralmente).
    Mas ainda me incomoda a questão de usarmos a imagem da pessoa num ato sexual (imaginário, porém real) sem a vontade dela, sem ela sequer saber!
    E claro que as vezes nos masturbamos com pessoas que também transamos, o que muda um pouco a situação.

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  7. Então, mas aí tem uma questão:
    1 - Qual a concepção de estupro de que estamos falando?
    Estupro para mim, o conceito de que estou tratando, é quando uma pessoa(em geral, um homem, mas nem sempre) coage outra a ter sexo(em geral, mulheres e crianças, mas nem sempre), seja física, moral, psicológica ou monetariamente(a prostituição não necessariamente se insere nisso). É importante caracterizar isso. E é importante cuidar para não banalizar o conceito e "tudo ser estupro" e "nada ser estupro".
    2 - Eu concordo que exista uma relação de dominação que torna algumas imaginações de desejo bem ruins. Mas será que o caminho é caracterizar como estupro?

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  8. A questão do Mike Tyson foi exatamente essa.

    Tyson was arrested in July 1991 for the rape of 18-year-old Desiree Washington, Miss Black Rhode Island, in an Indianapolis hotel room.

    A tal da Desiree foi para o hotel onde o Tyson estava e chegou a ficar só de roupas íntimas por sua própria vontade. (Eu não me arriscaria ficar de cueca perto do Mike Tyson).

    She testified that upon arriving at his hotel room, Tyson pinned her down on his bed and raped her despite her pleas to stop.

    A parte complicada do caso é que Desiree não apresentava sinais de agressão física.

    Dê uma olhada na imagem...

    http://redemetropolitana.com.br/imgs/f335.jpg

    Se ele tivesse segurado ela com os dedos com um pouco de força, teria deixado marcas. Não... não houve sinais de violência física dessa natureza. As evidências que apoiavam a hipótese de estupro eram 2:
    - Distúrbio psicológico
    - A região da vagina estava sensibilizada, como se a Desiree não tivesse excitada durante o coito (ou que esse foi feito de forma não consensual).

    No final Tyson foi preso. E eu concordo com a prisão de Tyson, assim como concordo com os argumentos da autora. Mas precisamos admitir que existem estupros com maior e menor grau de violência. E é curioso a necessidade de uma palavra para esse tipo de ação.

    Qualquer coisa feita com o corpo de outro sem seu consenso é crime. Nosso código penal até pouco tempo não considerava estupro, o sexo não consensual entre pessoas do mesmo sexo. Nesse sentido acho a palavra um erro, desnecessária, supérflua. O respeito ao espaço alheio deveria ser visto de forma mais séria.

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  9. Só abordando a questão da abordagem...
    Desejar é humano. Todos temos tesão e desejos. Alguns casos são doentios e precisam de tratamento como, por exemplo, a pedofilia, mas nos demais casos "normais", despir uma pessoa com a imaginação é, simplesmente, extinto, assim como se masturbar pensando em alguém. A excitação do novo, alguém com quem nunca teve relações, é extremamente interessante e desperta uma curiosidade gigantesca. Nesse caso, a abordagem não deve ser diferente do que a que nosso extinto manda, ou seja, TENTAR, assim como todos os outros animais fazem (não deixando de lembrar que somos animais).
    O consentimento do outro lado pode ou não existir... e ai que entra o respeito!
    Acredito que todos nós não vemos nada de errado em dar uns beijos enquanto assistimos um filme e, se o desejo bater, tentar um algo a mais com o(a) parceiro(a). Seria extremamente sem graça consultar as intenções da outra pessoa com palavras SECAS ao invés de usar a sedução, assim como tantos outros animais fazem. O problema é que para nossa espécie algumas tentativas de "acasalar" são levadas como um abuso (não digo estupro). Isso nos faz reprimir nossos reais desejos, tudo por conta da sociedade e da religião como principais influentes. Não pode fazer sexo antes de casar, não pode ter relações com mais parceiros(as) num mesmo mês ou ao mesmo tempo, não pode com o(a) colega de trabalho, não pode com alguém que seja parente... e por ai vai. Isso reprime nossos desejos e nos coloca medo para uma questão um tanto simples chamada: SEXO!
    Nos preocupamos muito com o que está ao nosso redor ao invés de perceber que o sexo pode ser apenas o momento. Para muitos, não é simples tocar o foda-se para valores morais e religiosos... e eu entendo que isso também tem que ser respeitado, mas a questão é que isso gera uma série de NÃOs que queriam muito serem uns SIMs. Uma tentativa usando a sedução mostra esse SIM, mesmo que da boca da pessoa saia NÃO, e isso, em geral, faz com que se insista em tentara arrancar um SIM, e muitas vezes esse SIM aparece depois de alguns falsos NÃO. Não satisfeito em falar isso, ainda afirmo que "fazer um joguinho de quem não quer, mas quer" é uma espécie de fetiche para muitas pessoas. E para acabar de fuder com o assunto, tenho uma amiga que já falou que o fetiche dela é ser pega a força por um homem e grande e bonito e ser "estuprada"!
    Mas vamos sair da questão fetiches e voltar para o SIM e Não.
    Existe, é claro, o NÃO de verdade. Esse NÃO é firme e concreto, passa a mensagem mesmo que dito em tom de voz suave. Ele não deixa dúvidas. Insistir em cima desse não é um abuso que pode, facilmente, se tornar um estupro, mas a tentativa de fazer sexo, junto à sedução, não foi e nunca poderá ser um estupro. Isso é humano, é instinto, é animal e é natural.
    Hoje confundimos muito essa aproximação com um abuso, e isso só tende a dificultar ainda mais a questão que você, tão claramente, colocou.
    Beijão!
    Roque.

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