terça-feira, 27 de setembro de 2011

Entre flores e leões.

"Vagueia
Devaneia
Já apanhou à beça
Mas para quem sabe olhar
A flor também é
Ferida aberta
E não se vê chorar"

Estava eu me lembrando esses dias de um dos meus primeiros namoradinhos, lembrando do dia que ele me levou no autorama. Eu, que sempre gostei de carros, sempre quis dirigir, sempre quis brincar de carrinho, adorei o programa de brincar de uma coisa que ninguém nunca me deixou...(aliás, qualquer semelhança com meu enorme prazer em dirigir e em correr no volante, não é mera coincidência). Não é a toa que eu era perdidamente apaixonada e tonta por ele.

Uma outra vez, muito tempo depois, um cara com quem eu tinha dançado um forró e passado meu telefone me convidou para jantar. Eu fui do meu jeito (a única sandália que tenho e uso todos os dias, saia hippie, blusinha simples, um brinco inseparável qualquer de pena, sem maquiagem, e com muita fome), com uma graninha no bolso, e ele insistiu em irmos num restaurante francês(sim, daqueles cheios de garfos), não me deixou pagar, ficou cheio de galanteios e vinhozinhos...
Não é a toa que não passou do beijo no rosto.

Qual é o problema com isso? O problema é o que está por trás; por trás do vinho caro e do galanteio "gentil",está uma ideia de mulher como alguém que tem que ser comprada, que tem que ser domada, conquistada. Como um domador que dá um torrão de açúcar para o leão e depois o explora, o manipula e maltrata. Como quem compra um bibelô bonito e caro, que terá que "retribuir a gentileza", e "dar" - e aí eu reitero, odeio os termos "comer" e "dar" para sexo, porque comer tem sempre uma conotação de poder e dar tem sempre uma conotação de ceder, como se quem dá fosse uma trouxa que se deixou levar por um poder - algo em troca.

É raro que um homem, em termos gerais, trate uma mulher como uma pessoa quando tem qualquer interesse sexual, seja apaixonado ou "animalesco" com ela. Não caiamos, aqui, na baboseira conservadora de que "mulher então gosta de desprezo", porque não é essa a questão. A questão é que essa visão é tão desumanizante quanto a violência, porque objetifica o ser humano. Objetifica porque trata a mulher como um produto: se na balada somos tratadas como um buraco em que os paus querem meter (e nisso, os homens também se objetificam, porque reprimem tudo o que lhes é humano, todas as emoções, as dores e os prazeres para além da ejaculação, para serem uma máquina ereta - e aí, brochar obviamente é o fim do mundo), no restaurante somos tratadas como um bibelô caro.

E ai vem a balela de que ficar com várias pessoas objetifica e banaliza as mulheres, que sexo com muitas pessoas tem uma inerente desvalorização do ser humano: nesses moldes, nem ficar com mil pessoas e nem ficar com uma a vida toda é humanizar-se, libertar-se. Porque podemos ser tratadas como objetos nos dois casos. E quando estivermos em um relacionamento com o carinha do restaurante e quisermos conversar sobre uma frustração qualquer, ou sobre qualquer coisa mais profunda, seremos sempre tomadas como histéricas, nossos temas serão sempre "coisas de mulher que gosta de DR", e essas bobagens machistas e coisificantes, em que sentimentos não tem vez nem espaço - e não me espanta então que se lotem os consultórios dos psicanalistas.

Por isso eu não acredito na monogamia como solução pro machismo que nos toma os relacionamentos, porque o problema para mim está mais embaixo do que restringir as inúmeras possibilidades de vivência da sexualidade.

O lance é nos tratarmos como pessoas. Pessoas podem gostar de qualquer coisa (inclusive serem boas apreciadoras de comida francesa), falar sobre qualquer assunto que quiserem, ir em autoramas. Pessoas têm história, relacionamentos e sentimentos diversos. Pessoas sentem tesão e falta de tesão, prazer e dor. Pessoas podem dividir ou não a conta, independente de terem uma buceta ou um pau, por terem mesma condição ou não de pagar naquele momento. Nessa perspectiva, independente de estar com uma pessoa 1 dia ou uma vida, para sexo ou para um relacionamento, eu posso ficar livre do machismo.

Melhor do que tratar a monogamia como a grande solução do machismo nas relações, é enxergar que o machismo pode estar inclusive nesta forma de se relacionar. Melhor do que tratar qualquer cara que queira ficar com várias pessoas na mesma época como um machista necessariamente, é pensar se o problema está na existência de um desejo múltiplo ou na forma como esse cara se comporta com essas pessoas.

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