sábado, 27 de novembro de 2010

Violentada na maca

Inspirada por uma conversa com um amigo e pelo post que acabo de ler no Blog do Sakamoto, sobre o último dia 25(Dia Latino Americano e Caribenho contra a Violência a Mulher), resolvi escrever sobre uma violência que sofremos e que é pouco falada: a violência médica.

Nosso corpo, pecaminoso perante a Igreja, dito quebrado perante nossa cultura misógina(que não por acaso ama o Freud, que é um exemplo claro de misoginia científica), ganha uma nova dimensão de fragilidade: a medicina o toma e impõe padrões sobre seus ciclos, detecta todos os possíveis(e nem sempre prováveis) problemas e doenças, modela nas cirurgias plásticas, dita, manda, se apropria do conhecimento que nós mulheres deveríamos ter sobre ele, sem nunca nos retornar...

Ginecologistas abrem as nossas bucetas pedindo "licença", como se fosse isso que significasse respeito a nós, como se respeito não fosse nos explicar como é o exame, mostrar o que eles estão colocando dentro de nós e o que tanto procuram por lá. Fecham sem nem nos perguntar se sabemos o que há ali dentro, sem nos explicar o que é o "está tudo OK" que dizem ao fim do exame, e sem nos perguntar se também nós achamos que "está tudo OK". Não nos perguntam de nosso histórico familiar de doenças (e que dirá de nossas práticas sexuais, para saber se precisamos de anticoncepcionais, nossas opções de vida e de alimentação, etc etc etc) nos metem pílulas anticoncepcionais, não nos elucidam sobre seus possíveis danos e seus efeitos colaterais, não nos contam sobre outros métodos anticoncepcionais menos farmacológicos e agressivos. Falta de orgasmo, dificuldades com ele? Prevenção no sexo entre mulheres? Relações afetivas? Não é assunto para o ginecologista!!! Assunto de ginecologista é te perguntar com quantos anos vc teve a primeira relação e dizer "nossa, tão novinha", é te perguntar que método vc usa e ouvir, depois que vc diz "eu quero ter um filho" que "não é hora", é dizer, depois que vc e o pai da criança exigem que ele te acompanhe no exame durante a gravidez e ouvir "quero ver se ele vai fazer questão de entrar quando o bebê estiver chorando", é dizer, durante o exame na grávida, com um riso de canto "vc acha que aguenta a dor de um parto natural?"...

Se vc chegar num ginecologista assustada, depois de uma relação não tão legal, uma forçada de barra de um cara, alguma coisa que vc não queria e não soube como dizer não(porque isso ninguém lembra: quantas vezes nós mulheres sofremos violência e não conseguimos reagir, porque não conseguimos dizer não?), dolorida na buceta e na alma, encontrará um ginecologista que não te diz bom dia, é grosseiro e te manda para casa porque "está tudo OK?". Está tudo OK? Eu chego com os olhos cheios de lágrimas, assustada, com dor, e vc me manda embora com uma cara de poucos amigos, como quem me faz um favor, dizendo "Está tudo OK"?

E aí, um belo dia, vc diz ao médico "estou grávida". Pronto, agora nada está OK...Começa a paranóia..."Eu tento parto normal, mas a gente vê na hora"...Medo do parto? Dor de parto? Formas de parir? Quais as intervenções que rolam? Como eu estou me sentindo? Insegurança? Humor maluco? Será menino ou menina? Tudo isso não é importante, não é assunto de ginecologista. Pode deixar que o ginecologista sabe tudo o que é importante da sua gravidez e do seu corpo, e vai saber exatamente o que fazer, vc, mulher, não precisa pensar. E aí, se ele não tiver encontrado cordão enrolado em qualquer grau, bebÊ sentado, diabetes gestacional, e mais um milhão de desculpas para marcar uma cesárea*, a mulher entrará em trabalho de parto! Sentirá uma contração dolorida, talvez alterações de humor, um desconforto gastro-intestinal fortíssimo, ai, chegou a hora...Todos os medos e todos os horrores que vc ouviu sobre parto a vida toda são ativados na cabeça da mulher: "parto é a pior dor que existe", "fulana teve parto normal e aconteceu isso, isso e isso", "a vagina rasga", "o marido que vê a mulher parindo deixa de a ver como 'mulher'"...Ela vai para o hospital, no primeiro sinal(e muitas vezes,nem é trabalho de parto, é pródromo** - mas ela não sabe nem que isso existe!). É colocada numa cadeira de rodas(sendo que ela pode andar, e até lhe faria bem...Ficar sentada nas contrações beira o insuportável de dor), dá tchau para seu companheiro/mãe/amiga ou qualquer pessoa de sua confiança(o que é direito da mulher, ter um acompanhante de livre escolha, mas não é respeitado em quase hospital nenhum - e isso não é frescura, existe uma vasta literatura científica atestando o quanto isso facilita o parto), se despe de sua roupa e seus acessórios e é obrigada a vestir camisolões feios e impessoais...Fazem lavagem intestinal(metem um aparelho lá para tirar todo o cocô, sem lhe perguntar se ela quer fazer isso, sem esperar que seu próprio corpo faça, ignorando seu constrangimento e anos de educação anti-escatológica), raspam seus pêlos(sem te perguntar), e ela então é colocada numa sala em que não pode gritar(e como é bom gritar nas contrações...), às vezes com outras mulheres em trabalho de parto, sem saber direito o que está acontecendo, assustada e sozinha, deitada quase sempre de barriga para cima(toda grávida sabe. todo ginecologista indica: não deite de barriga para cima na gravidez, porque isso prejudica a circulação de oxigênio para o útero, além de ser hiper desconfortável)...De tempos em tempos, vem uma enfermeira meter o dedo em sua buceta pedindo "licença" - ai, como eu odeio essa história de pedir licença! - para ver sua dilatação, que a mulher muitas vezes nem sabe onde é(eu achava, antes de me informar, que era a vagina que alargava, e não, é o colo!!)...Depois de um certo tempo, metem o "sorinho", com um hormônio artificial chamado ocitocina (a ocitocina natural é produzida no corpo durante a relação sexual, quando vemos alguém que amamos muito, quando amamentamos e adivinha? No parto!!! Ela é a responsável pelas contrações e dilatação do colo do útero. É daí que muitos médicos dizem que vem a ideia de que a mulher pode sim gozar no parto; mas essa versão artificial aumenta muitíssimo a dor, além de aumentar os riscos de ruptura uterina; a ocitocina artificial só deve ser administrada em casos em que é indicada a indução de parto), e aí, bom, a coisa pega...a mulher sozinha, não pode gritar, com uma dor insuportável, amarrada - nervosa, níveis altos de adrenalina antes da hora - o medo no parto aumenta as chances de sofrimento fetal(desaceleração grande dos batimentos cardíacos do feto - indicação de cesárea absoluta), mecônio(quando o bebê faz cocô no útero), além de fazer a musculatura(e advinha, o colo do útero é musculatura!!) contrair loucamente...Sabe a história do relaxa senão não encaixa? E aí, aquela história, bebê não encaixa, metem um fórceps, puxam o bebê pela cabeça(e vai diretinho para a UTI) e arrebentam toda a buceta da mulher!! Vai sair o bebê? Apesar da humanidade estar aqui há tanto tempo, eles ainda acham que a vagina não estica para ter o bebê e metem um corte na vagina, chamado episiotomia, uma mutilação da musculatura do períneo, que causa dores, dificuldade de cicratização, e o pior, perda de prazer sexual...

Aí, saído o bebê, cortam o cordão rapidíssimo, a criança nem tem tempo de aprender a respirar, chacoalham, limpam com panos, mostram para a mãe e somem com a criança...No momento que poderia ser o mais mágico da vida dela, a ocitocina num pico como ela nunca vai sentir em outro momento, levam o novo ser, por quem ela poderia se apaixonar na hora, se perde...E aí, lá vem um vazio, uma tristeza, um buraco...

O parto "normal" da forma como é feito hoje é um estupro, com sequelas terríveis e inimagináveis.

E aí, quando a mulher volta ao ginecologista, 40 dias depois, ela vai relatar o quanto é infeliz por ser mulher.

A humanização da saúde é uma necessidade urgente - principalmente para nós mulheres.

Hoje, depois de ter tido um parto bem assistido, com meses de preparação, estudo, reflexão e transformação, e com uma ginecologista que realmente me respeita para além de pedir "licença", eu vejo o quanto fui violentada nesses meus 10 anos indo a ginecologistas babacas e desinteressados.

Até!

Para saber mais:

Parto Normal ou Cesárea - o que toda mulher deveria saber (e todo homem também) - Ana Cristina Duarte e Simone Grillo Diniz

Pesquisas no Google: "Medicina Baseada em Evidências" ; "Parto Huamnizado".

Documentários: "O Parto Orgástico"(Orgasmic Birth): http://www.youtube.com/watch?v=zG_6IVmXvr0&has_verified=1
"Nascendo no Brasil" - Desculpem, não tenho referências aqui...

Obs: 74% dos partos nos hospitais públicos são feitos sem anestesia no Brasil. Anestesia é um direito da mulher; deve ser uma opção dada a ela, elucidando todos os riscos e deixando seu corpo fluir, induzindo o parto apenas nos casos necessários. Mas o ideal é que haja uma preparação da mulher para o momento do parto, diminuindo consideravelmente a necessidade de anestesia.


* quasse nada justifica cesárea marcada. O ideal é que a mulher seja informada dos riscos de cada procedimento e escolha junto com o médico o que fazer (nos casos de indicação relativa de cesárea) e aí espere pelo trabalho de parto, a não ser em casos rarississíssimos em que a mulher não pode entrar em trabalho de parto - mas isso não chega nem a 1%, com certeza!!

** quando o corpo tem muitas contrações doloridas até, mas não ritmadas e não efetivas(não dilatam o colo do útero). Isso é um tipo de ensaio do corpo para o parto. Muitas mulheres confundem isso com trabalho de parto, devido a pouca informação, vão para o hospital e aí o médico começa com "não tem dilatação", e começa a induzir trabalho de parto...E muitas vezes, não rola, e a mulher acaba na faca! Eu tive, e comentei o meu pródromo no post "Enlouqueci".

3 comentários:

  1. Oi, Isa!

    Adoro a forma como vc escreve, sempre que leio seus textos parece que ouço vc dizendo...rsrs

    Mas, olha só, isso aqui me parece que é Freud:

    O parto "normal" da forma como é feito hoje é um estupro, com sequelas terríveis e inimagináveis.

    Quer dizer que em todos os casos de partos normais mal conduzidos existem sequelas terríveis e inimagináveis?

    ...

    Um beijão

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  2. Oi Gi!
    Não entendo: o que parece Freud para vc?
    Por quê?
    Acho que Freud e sua hipótese de "inveja do pênis" reconstruiria sua teoria para "inveja do parto" se visse uma mulher gozando enquanto está parindo, hahahahaha....Enfim, piadas anti machismo a parte...

    Bom, toda a história que ouço de parto normal mal conduzido sempre tem um "ela/eu sofri muito no meu parto"...E boa parte dessas pessoas não se conforma com o fato de ter gente que não escolhe cesárea.

    Para mim é como as histórias da primeira vez de mulheres "de família" de antigamente, que não tinham nenhum conhecimento do próprio corpo e nem faziam ideia de como é sexo, e se viam violentadas pelos próprios maridos. Eu vi pouquíssimas pessoas descreverem seus partos "normais" sem falar disso como um trauma e uma coisa horrível, e quase todas(senão todas) são aqueles casos raros de mulheres que pariram tão rápido, que nem deu tempo dos médicos se meterem onde não devem.

    Sinceramente, o fato das mulheres não se sensibilizarem da violência que sofrem(o que é comum) também é machismo, e também gera traumas, que muitas vezes a gente não sabe de onde vem. Há uns tempos atrás, estupro era culpa da mulher, e as próprias mulheres que o sofressem acreditavam nisso(na verdade, até hoje é assim para boa parte dos casos de violência sexual, o que é uma das razões que dificulta que as mulheres denunciem) - e isso não quer dizer que não fosse traumático. Comparo o parto "normal" com um estupro e acho que isso é violência sexual sim, embora o nível de "sensibilidade" das mulheres possa ser diferente. Vc ter um processo dentro do seu corpo sobre o qual vc não é esclarecido e não exerce poder de decisão, qualquer que seja, é uma violência - desde um remédio que te injetam e vc não sabe o que é até um parto "normal" ou uma cesárea marcada pelo médico. A do parto é uma violência sexual por ser o parto um processo sexual do corpo.

    Espero que esteja mais claro o que quis dizer com a frase...=)

    Beijo

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  3. to embasbacado...

    E eu que custei a entender pq minha mãe teve depressões pós parto tão pesadas: 3 cesarianas.

    Q tamanha violência.
    faltam me as palavras.

    Abraços de quem não mais que estar ausente a esse mundo, nunca mais.

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