quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sobre a obrigação de amamentar

Resposta a esse post aqui do Mamíferas:
http://www.blogmamiferas.com.br/2010/11/amamentar-direito-ou-dever.html#comment-2329

Olá Tata!!
Primeiramente, eu concordo com você, quando diz que amamentar é um dever da mãe…
Mas antes, faço algumas ressalvas no que diz respeito a pseudo liberdade de escolha que temos nós mulheres sobre a maternidade:
1 – Antes de mais nada, nós não temos uma educação voltada para o auto-conhecimento, e assim, a escolha a maternidade. Com isso,na prática, nós não conhecemos nosso corpo. Aulas de biologia na sexta série mostrando figuras de útero não sao auto-conhecimento!!! Uma educação sexual voltada para o toque, a masturbação, a percepçãp própria do corpo, a observação, o prazer e aí sim, a livre decisão de ter ou não filhos ainda não existe. Sexo é tratado, na escola e na família, como tabu e problema propagador de doenças(nela, a gravidez também é vista como doença) que se lida na adolescência – inclusive ignorando a sexualidade na infância, que é um grande erro e um problema no auto-conhecimento posterior…
E eu digo isso com conhecimento de causa, já vi criança de 10 anos na escola me perguntando porque põe camisinha na banana quando vai fazer sexo!!!
2 – Também temos uma educação machista demais, que nos faz ceder demais; e por mais que as mães e pais e educadoras e que a sociedade verbalize que nós devemos nos afirmar e não deixar os homens transarem conosco sem camisinha, blá blá blá, no exemplo e nos contos de fadas, somos educadas a acreditar que ficaremos velhas chatas e mal amadas se ficarmos sozinhas, educação essa que faz com que nós tenhamos pavor da solidão, e aceitemos tanta coisa….Inclusive abusos dos mais variados tipos. Sem contar a educação dos homens, que faz com que eles se achem os donos do mundo e não nos respeitem nem um pouco, além de sempre jogar para cima de nós toda a carga de ter um filho.
3 – O acesso aos meios contraceptivos é ainda um problema de saúde pública. Além de todo o problema de saúde pública que afeta inevitavelmente a ginecologia, também há o problema de médicos cavalos, nada humanizados, que não nos escutam(tanto na rede pública quanto na particular) e nem olham com cuidado qual método é melhor para cada mulher, além de ignorar suas queixas e questões psicológicas intrínsecas do sexo. Eu acabo de descobrir, indo colocar meu DIU, que meu antigo ginecologista foi um irresponsável de me dar 4 tipos diferentes de pílulas com o histórico familiar de doenças vasculares que tenho.
4 – Bom, métodos contraceptivos falham…Sem legalização do aborto, ou no mínimo sua descriminalização, é IMPOSSÍVEL falar em maternidade como opção da mulher! As igrejas deveriam calar suas bocas e ficar nos seus templos, ao invés de levar isso para bancadas políticas. O Estado não deveria tomar partido de religião nenhuma, já que ele se diz laico! Liberdade sexual implica em domínio do próprio corpo, e filho não deveria ser castigo para mulheres sexualmente livres…
5 – Sem uma estrutura social que libere o casal para a maternidade e paternidade, a questão é complicadíssima…Como condenar uma mulher que não amamenta se ela até tem licença maternidade de 6 meses, mas é obrigada a dar conta de uma casa inteira sozinha, do cuidado com outros filhos, da pressão social para que ela seja “produtiva” para o Capital e tendo ainda que lidar com um marido inútil que não tira nem o prato dele da mesa(voltando a educação machista)? Nossas avós tinham uma rede de mulheres em torno para ajudar com tudo quando o bebê nascia, e nós cada dia mais estamos sozinhas…Não digo de voltar às antigas, e sim de reivindicar uma licença paternidade decente já! Só para começar…Eu optei por amamentar e estou chegando aos 6 meses de Pietro mamando exclusivamente, pretendo amamentar até os dois anos no mínimo, mas eu tenho apoio para não me preocupar com grana, praticamente nao me preocupar com a casa por viver numa comunidade, tenho um companheiro paterníssimo e hiper compreensivo inclusive com meu cansaço e com toda a questão psicológica que envolve a matermidade…Mas e as mulheres que sao deixadas pelos maridos? E as que tem que trabalhar para sobreviver porque não tem quem o faça por elas? E as mulheres hiper pressionadas pelo machismo dos comentários de que são fracas e de que não conseguem amamentar? E a pressão por seguir padrões de beleza, e a nossa cabeça com a ditadura dos peitos duros?

Por fim, digo que a amamentação não é um direito só do bebê – é um direito da mãe também!! Para que ela desfrute não só do bem para sua saúde que faz amamentar, mas também do tesão enorme que é! Eu digo mesmo, eu ADORO amamentar, mesmo ficando cansada, eu me sinto realizada e saciada inclusive sexualmente. E acho que esse mundo que faz disso uma dor e uma obrigação chata é um mundo machista e preocupado com o lucro de homens brancos capitalistas, isso sim!

Faço questão de dizer para todo mundo que amamentar é maravilhoso…
Sem contar o poder de ver nossos filhos crescendo e se desenvolvendo unica e exclusivamente com o nosso corpo…Ai, é demais!

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