sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Lar doce lar

Pergunta: "Porque você fez essa escolha, de parir em casa?"


Eu escolhi parto em casa desde que soube que isso era possível.

No primeiro encontro do CAISM, do programa de parto de cócoras de lá, fomos conhecer a sala onde eles fazem o parto. As luzes, as cores, as roupas, tudo insuportável...Mas nada pior que o cheiro. Cheiro de assepsia, cheiro de produtos químicos refinados, cheiro anti-natural. Cheiro que nunca me deixaria esquecer que eu estava num hospital. Cheiro de quando, aos meus treze anos, eu vi meu pai, aquele ser alegre e acolhedor, paizão, simpático e apaixonado pela minha mãe, todo entubado e inchado, numa UTI, de onde ele nunca mais voltou. Cheiro de quando eu vi a mulher mais lúcida que conheci, a sempre alegre minha avó, perder a lucidez num mar de remédios e vomitar em si mesma, me deixando uma sensação terrível de impotência.
As lágrimas me vieram nesse dia, muito fortes como chegam agora nos meus olhos, muito fortes como naquele sábado anterior a morte da minha avó, e eu só queria sair correndo dali.
Jamais conseguiria parir num hospital sem muito preparo. Eu cairia numa cesárea.

E fui fortalecendo a idéia. No começo a ideia de parir em casa combinava com a minha postura de gostar e cultivar o meu feminino, meu ciclo, minha lua - me recolhia nas cólicas menstruais sempre que as tinha, me libertava nas ovulações produtivas e sensuais, valorizava meus seios em decotes, mantinha meu corpo saudável e feliz. Parir em casa combinava com minha busca por uma vida mais natural, com menos remédios e menos uso de tudo o que fosse proveniente de escravizar espécies inteiras.

Mas acima de tudo, descobri uma nova dimensão: parto é sexo.E sexo é "só" o centro da minha vida, centro dos meus questionamentos políticos. Foi com a opressão que me causaram pelo meu sexo, pelo meu tesão, pelo que esperavam de uma menina decente que eu busquei me libertar. Eu jamais deixei me tomarem o sexo, o prazer, e meu controle sobre meu corpo. Nunca permiti que me ditassem o que devia ou não devia fazer. E isso não ia ser diferente no meu parto, a menos que eu precisasse.

Mas eu confio e sempre confiei no meu corpo. Eu não tinha medo de precisar.

Como vcs podem ver, eu pari em casa por mim. O bebê ainda não tinha meu foco.

Pari em casa tendo toda liberdade do mundo, e com ela eu me entreguei ao meu corpo, obedeci as posições que ele me mandou ficar, dormi e gritei muito, virei onça, fiz força, redimensionei meu corpo e minha consciência dele, tive ao meu lado o homem mais magnífico e apaixonante que conheci na vida (e ele também pode acompanhar todo o processo, não saindo do meu lado), e senti cada pedacinho daquele ser sair...
E aí eu finalmente pude entender, enquanto o Pietro saía, o tamanho do meu poder de mulher, que goza, que ri, que chora, que enlouquece, e que no auge da sua sexualidade forma, nutre, dá a luz e amamenta uma nova vida.

Depois de tudo isso sobre mim, colocaram aquele ser pequenino em cima da minha barriga.

Quando eu vi aquela coisinha, pequena, deitadinha no meu colo com os olhões abertos para o mundo, aprendendo devagar a respirar, aí eu entendi o que é o amor a primeira vista. Simples assim.

E por esse momento, sem choro, sem dor, com respeito e com a maior emoção da minha vida, eu agradeço todos os dias.

E depois do parto eu passei um dia nua, leve, no maior barato da minha vida, numa sensação de êxtase, de corpo flutuante, de paz, que nenhuma droga artificial me daria e nenhum hospital permitiria.

E eu pude conhecer minha placenta, tocar nela, sentir seu peso, ver sua cor - aquilo que me manteve conectada ao meu bebê, uma parte do meu corpo, que não me foi arrancada, que voltaria, na grande rede da natureza, ao seu lugar, à terra, da qual somos todos filhos.

É o Pi um bebê tranquilo, feliz, que tem todo carinho do mundo e sempre foi respeitado em sua natureza.

E por tudo isso, eu pari em casa.
E não pretendo nunca parir em outro lugar.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto lindo e profundo.
    Como você, eu queria um parto natural também.
    Tentei, com a ajuda de duas parteiras excelentes, da primeira vez. Trinta e seis horas depois (quatro delas empurrando) e bebê em estado de choque, foi feita uma cesariana por sugestão das pateiras mesmo, que, como eu, fizeram tudo o que puderam.
    Da segunda vez, tentei de novo. Sem anestesia, sem pitocina, sem nada, fui lá eu, confiante no PNAC... Mesmo número de horas, mas com dilatação a 7cm, e bebê com batimentos irregulares. Não rolou de novo. Médico puxou de mim meu filho lutando pela vida, com cordão enrolado três vezes, e acabou descobrindo um problema congênito no meu útero que me deu paz de espírito ao justificar as cesarianas.
    Eu também não pretendia parir em nenhum outro lugar. Mas a verdade é que parto ainda é um mistério. Mulheres e bebês mundo afora morrem sem este acesso que eu - sorte a minha - tive.
    Você tem uma história de parto linda... Que bom saber que conseguiu concretizar seus desejos para o seu parto! Isto é uma carga positiva preciosa para seu filho.
    Um beijo.

    ResponderExcluir