domingo, 15 de agosto de 2010

Mãe e Filha

Publicado no blog da disciplina que estou fazendo este semestre:
http://ep153a.blogspot.com/2010/08/mae-e-filha.html


Não pude deixar de escrever depois de ler o texto do Larrosa, mais como filha e mãe e menos como pedagoga.
Não existe alteridade em nossa sociedade, nem com culturas distantes do ideal produtivo ocidental, nem com as mulheres e suas luas, nem com as diversas visões de Deus...e com as crianças isso certamente não é diferente.
Tantas pessoas, quando me perguntam se o Pi é tranquilo mesmo e eu digo que é, me dizem em seguida "então ele não te acorda a noite?", o que me surpreende sempre; por que temos que imaginar que "bons"(como se assim pudéssemos classificá-los) bebês devem funcionar com a nossa lógica bruta de tempo, em que o "certo" é dormir uma noite inteira para deixar os papais produzirem de manhã? Por que não podemos respeitar o tempo da criança?
Por que não respeitamos e esperamos quando e como nosso próprio corpo clama por parir? Por que não respeitamos o tempo da nossa criança nascer? Por que aceleramos o parto, ou simplesmente permitimos a um médico que arranquem de nossos corpos aquele serzinho oculto, sem permitir nenhuma novidade?
Simplesmente enquadramos os partos em horas estimadas, a gestação em semanas falsamente precisas, e tudo o que fugir disso temos como errado? Cortamos os cordões e não permitimos que a criança descubra devagar o ar em seus pulmões...
Quantas mães são incentivadas a parar de amamentar porque não podem esperar seu corpo aprender a receber o bebê e não podem esperar o bebê aprender a mamar(lembrando que quanto menos mulheres amamentam, quanto menor o tempo de amamentação, mais rápido voltam as mulheres a produzir e mais tempo de leites artificiais os bebês tomam)? Quantos de nós papais não são torturadas sistematicamente porque "precisamos" enquadrar os bebês em horários rígidos, em curvas de crescimento, em complexos vitamínicos? Por que não esperamos que eles nos indiquem o que fazer, por que somos tão presos a conselhos de médicos técnicos que não integram nossa rotina e tão soltos de nossos próprios olhos?
Essa expectativa, essa necessidade totalitária em relação a infância, desde os primeiros dias dos bebezinhos, frustra, adoece e mata. Frustra porque, por mais que os técnicos tentem enquadrar em suas gestapos e KGBs de como é uma criança, cada uma é uma. Adoece porque essa neura em enquadrar acaba por nos fazer intervir desnecessariamente em sua alimentação, em seu nascimento, em seu desenvolvimento afetivo e cognitivo, adoecendo de alergias, hiperatividades e depressões. Mata porque entorpece os sentidos, nos transforma em robôs, porque mata mesmo.
Nesse sentido, acredito que a mudança na lei que coloca o "bater corretivamente" como crime seja importantíssima na garantia da alteridade da infância...(escrevi um post sobre isso no meu blog, http://divinastetas.blogspot.com/2010/07/forca-e-opress.html )
Essa vontade de saber o que será dos nossos filhos no futuro é algo difícil e necessário de combater, em nós e nos outros. Quantas pessoas não me vem perguntar(quando categoricamente não afirmam), sempre torcendo para que meu filho me "ponha no lugar" nos meus questionamentos, como se ele fosse me fazer "pagar" pela filha que sou e frustrou todas as expectativas: "Mas e se ele for heterossexual?", "E se ele só quiser ganhar dinheiro?", "E se ele for católico?"
Oras, ele será o que ele quiser ser!
O Capi(pai do Pi) sempre diz que espera que o Pietro nos choque, e que não quer dele nada esperar além disso. E estou cá eu a cada dia me esforçando em não ser totalitária como comigo foram minha família, minha escola, e tudo o que me cercava, deixando que ele me diga aonde vai, lhe dando o colo que me faltou...

3 comentários:

  1. O endereço está bloqueado Isa, não consigo entar. =)

    ResponderExcluir
  2. Oii.
    Achei fantástico seu texto, assim como a maioria dos textos do seu blog. Admiro muito o seu jeito de ver o mundo e sua coragem de enfrentar o medo e críticas por aí.

    Beijos

    ResponderExcluir