terça-feira, 27 de julho de 2010

Sobre liberdade e o câncer do medo: 1 - Relacionamento aberto e amor livre

Imagine poder ser livre para experimentar. O que for. Livre para experimentar e refletir, livre para decidir.
O medo aqui é algo a ser combatido, enfrentado, com tranquilidade. Nunca algo a ser enaltecido, exaltado. O medo é um câncer na consciência, um demônio, uma tesoura. Você se desliga do medo aos poucos, e vai clareando a vista, enxergando as coisas cada vez com mais nitidez e paz, e enfim, você é livre para escolher.
Ah, liberdade...liberdade é escolha, é o exercício livre da consciência.

Nesses termos, nossa sociedade é totalmente doente. Temos medo de andar na rua, imagine de questionar o status quo. O medo, advindo e alimentado das mais diversas fontes – desde a triste História do homem (coloco com letra maiúscula porque falo da História ciência mesmo), até os telejornais e o fascistóide do Datena...Nossa sociedade está tomada por um câncer enorme, que imobiliza as pessoas, que as faz aceitar e abaixar a cabeça para tudo.
Lutar contra o câncer do medo não é nada fácil, mas todo mundo foi em algo tolhido demais por ele, todo mundo sofre muito em algum ponto em que o câncer encontra resistência para crescer, e é nesse ponto em geral que surge a primeira possibilidade de detectá-lo e ir, aos poucos minando-o.

O medo que se espalhava pela minha consciência ia muito bem na minha infância ignorante dos hormônios, mas quando ele chegou no sexo, encontrou aí resistência. E assim eu comecei a questionar as coisas, questionar muito...
Pois é um processo enorme, longo, acho que vou brigar com esse câncer o resto da vida. Vou falar aqui do ponto em que a briga está mais avançada, o ponto em que eu me sinto muito mais perto da cura de minha consciência...

Depois de muito penar, eu finalmente aceitei – monogamia e heterossexualidade não são para mim. Vida fora do coletivo, tampouco. Simples assim. Fui com o tempo combatendo essas ideias. Entendi, depois de um relacionamento fechado, em que eu me culpei muito e me deixei ferir muito, em que eu me tratei como alguém que não merecia amor, enfim eu aprendi. E parei de procurar por coisas assim, queria alguém que tivesse a mesma vontade que eu, um relacionamento aberto.

E por aí eu topei com o Capi. Topei muitas vezes, aliás, ele já num relacionamento aberto, e eu procurando um...falávamos muito de porque não namorar mais de uma pessoa, porque não um namoro a três, porque uma pessoa ter desejo por outra significa que não ama mais seu conjuge...acabamos, nesta e em outras facetas da vida nos aproximando...E um belo dia, depois de uma noite fofa dormindo abraçados(sim! Sem sexo, algo inédito para mim), nos apaixonamos pela maluquice um do outro. E claro, já estava dado, nosso relacionamento seria aberto. Nenhum dos dois sabe viver na monogamia, e isso era bem claro para nós.

Mas veja, não sem desafios. Seria para mim uma completa novidade, e um esforço sim estar nessa relação. Bom, eu nunca fui de fugir das coisas por serem difíceis...Eu posso ceder a muitas pressões, mas eu sempre briguei com o medo de ser feliz.

No começo, eu ainda tinha medo do julgamento do Capi. Ainda que me sentisse livre para falar(ah, geminianos, como eu amo a liberdade que sinto com eles...), ainda tinha medo de ficar com qualquer um na frente dele. Isso foi até fácil de desconstruir – o Capi nunca saiu do meu lado em relação a isso.

Mas claro, alguém que já se sentiu muito abandonada, como eu me senti, e que sempre foi fechada porque sempre enfrentou um milhão de julgamentos(ou saberia que teria que fazê-lo), e que nunca teve um relacionamento em que alguém botasse fé, obviamente tinha medo de ficar sozinha nesse também. E isso se manifestava e se manifesta até hoje no ciúme...Sim, eu sempre fui ciumenta. E a cada dia eu progrido um pouco mais contra esse maldito câncer. Hoje sou infinitamente menos ciumenta do que já fui...

E por fim, eu fui admitindo para mim mesma que eu poderia me apaixonar por mais de uma pessoa. Minha dureza antes me negava o amor até por uma, imagine por mais gente...Eu sempre demoro p/ admitir para mim mesma que estou apaixonada. E como eu não admitia na prática para mim mesma que poderia sim amar mais do que uma pessoa, eu tive que brigar muito para não ter medo de ter o amor que o outro sente por mim substituído por seus outros amores.

Bom, estou aqui no caminho, com toda a cumplicidade entre mim e o Capi, estamos construindo nas nossas cabeças o amor livre que queremos. Ter um filho só tem me ajudado a ir mais fundo nisso, cada vez mais fundo, imaginando (e de certa forma estando em) famílias em novas configurações, para além dos laços de sangue, em que todos se pertencem e se amam. (Adoro falar isso em especial p/ quem achava que iríamos encaretar...eu acho que a gente é cada dia mais maluco)...

Em resumo, para quem não entendeu: nosso relacionamento é aberto no sentido mais amoroso da coisa. Não só para sairmos com outras pessoas, não só para o sexo, não para consumirmos outras pessoas. É aberto para os nossos desejos, as nossas vontades, e aos amores que nos inundarem o coração.

É isso.

PS: e há quem diga que eu não sou romântica e que sou incrédula...

Um comentário:

  1. ótimo!!! É difícil encontrar alguém que fale sobre relacionamento aberto pela via do carinho, respeito e amor, ao invés só da sexualidade.

    Parabéns!

    Eu escrevo sobre relacionamento aberto. Se quiser conhecer meus devaneios: http://swasthya.marcocarvalho.com/relacionamento-aberto


    Abraços!

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