quarta-feira, 26 de maio de 2010

Parindo a mim mesma

Ontem estávamos eu e minha mãe conversando no telefone, e ela estava super preocupada(para variar...heheh) sobre algumas coisas do parto, mas ela não estava com a postura leonina de sempre "vc está errada e não me obedece mais", ela estava com uma postura muito mais "vc já pesquisou sobre isso? é que me falaram tal coisa, como funciona?"...Tipo, ela estava com uma postura de preocupação, mas demonstrando um respeito grande pelo que eu falo sobre o parto e por tudo o que pesquisei sobre isso, uma confiança que eu não vejo nela sobre mim para quase nada central na minha vida...enfim, mas eu acho que ela estava assim porque sente que falhou no seu próprio parto e porque vê em mim uma confiança em relação a isso que talvez ela admire, como pouquíssimas coisas que eu faço...

Enfim, começou me falando que falou com uma psicóloga(certeza que era uma psicanalista machista, affe, ninguém merece psicanálise!), e que era melhor que o Capi não visse minha vagina quando o bebê estivesse passando, que era muito feio e que ele perderia o tesão por mim. Eu comecei a rir no telefone, falei p/ minha mãe ficar tranquila que, pelo contrário, muitos homens se sentiam mais atraídos por suas mulheres ao vê-las fortes e no auge da feminilidade parindo, que essa idéia de vagina aberta depois do parto vinha de um imaginário machista que coloca a boa sexualidade da mulher como uma vagina apertada...o detalhe é que eu NUNCA, em absoluto, falo de sexo com a minha mãe, até hoje se minha mãe fizer qualquer referência a sexo na minha frente ela dá uma risada e fala "isso não é mãe, é madrasta", então olha o que foi minha mãe falando e eu respondendo isso...enfim, ela começou a colocar algumas preocupações assim, do tipo "mas e a dor, como vc vai fazer? Dói muito!", "e se o bebê entalar, como vai fazer?", "tem bebê que vai e volta e demora para sair, como faz" e todas essas coisas e eu fui rebatendo com tranquilidade, conversando sobre e esclarecendo algumas coisas com tudo o que eu e o Capi viemos estudando nesse tempo...Surgiu também "e se o Capi desmaiar?", e aí eu disse que ele vem se preparando p/ esse momento também, e falei que se ele desmaiar a gente deita ele na cama e deixa ele lá, fazer o que, mas que isso não iria acontecer porque nós nos preparamos e ele está ansioso para viver o momento do parto também...

Enfim, ela ficou mais tranquila, acho eu, e começou a falar do parto dela. Me doeu um pouco: ela morava, antes de casar com meu pai, em Ribeirão Preto, numa casa com minha avó e 2 amigas(se não me engano), tinha um trabalho no HC da USP e todos os amigos p/ tomar a cervejinha de todo dia(bom, o povo de Ribeirão bebe mito mais que a gente...)...De repente ela casa, se muda p/ Santos onde não tinha quase família e nenhum amigo, sem trabalho, com meu pai trabalhando todo dia o dia todo e a sogra para encher o saco(minha avó até hoje é terrível), grávida...Bom, ficou até setembro assim, e em setembro, como queria ter o filho no HC em que trabalhava, foi para lá e ficou na casa de dois amigões dela(hoje meus padrinhos), sem se sentir a vontade, esperando...Como eu estava sentada, o médico marcou uma cesárea para a DPP, dia 17 de setembro. No dia 17, minha mãe foi internada e no exame lá estava eu cefálica. O médico disse que não podia fazer cesárea nela assim, que ela teria que esperar pelo parto normal porque eu virei. Ela voltou e ficou esperando na casa da minha madrinha mais esse tempão...aí, num domingo, 4 de outubro, ela começa a ter contrações às 4h da manhã, e estava fazendo muito muito xixi. Liga para o médico só bem mais tarde, e ele a atende no consultório, no fim da tarde. Chegando lá, ele a examina e vê que eu virei de novo, sentadinha outra vez, minha mãe com 2 dedos de dilatação só, de bolsa rota há um tempão e o bebê quase sem líquido(nem sei se isso realmente procede)...Enfim, ele mandou minha mãe correndo no hospital e fez a cesárea de emergência...nasci de mais de 42 semanas. Bom, saí com vários problemas por ter saído muito tempo depois, além de nascer com o nariz torto, e fiquei na UTI, enquanto minha mãe teve alta. Ela ficou muito mal com isso, os montes de exames que fizeram em mim, ter ido p/ casa sem me ter nos braços...Teve um baby blues pesado, não queria comer, e eu era um bebê muito bravo, chorava o tempo todo e queria minha mãe o tempo todo, além de ter que aguentar sozinha a italianada fazendo comentários em italiano e rindo sem ela entender(quando meu pai estava perto ninguém falava nada porque ele era louco apaixonado pela minha mãe, nem quando estava a minha outra avó, mãe da minha mãe, porque minha avó aprendeu rapidinho italiano e comentava tudo o que elas falavam debochando da cara delas...hahahah) enchendo o saco p/ dar chupeta(como se ngm tivesse tentado, eu não aceitava nada, só o peito), dar complemento alimentar pq tinha pouco leite, enfim, todo o tipo de palpite chato...Ela foi ficando mal, perdeu muito sangue, tinha pouco leite, emagreceu 10 kg no primeiro mês, foi enfraquecendo cada vez mais e se deprimindo, e depois de ficar uns quase 2 meses perdendo sangue, comentou com minhas avós que não estava parando de sangrar - elas quase tiveram um treco e mandaram minha mãe ligar no médico, que deu um remédio lá p/ ela...Ela parou total de ter leite com três meses e ficou muito mal com isso também, porque ela gostava de amamentar(mesmo eu sendo aqueles bebês que amamentam o tempo todo), e tentou de tudo p/ prolongar minha amamentação, mamei na minha tia(que tinha acabado de parir meu primo), mas na época não tinha banco de leite por causa da AIDS, que ninguém sabia direito o que era nem como pegava(nasci em outubro de 1987), e o jeito foi ir ao NANON, e ela disse que odiava isso, odiava mais ainda a italianada falando que sabia que ela não ia conseguir...Mas que pelo menos eu parei de dar um trabalho infinito, parei de chorar o tempo todo - o que eu tinha era fome...hehehe

Ah, enfim, eu fiquei triste por ela com isso. Isso me dá uma força enorme para querer fazer as coisas diferentes, brigar com essa visão de mundo tão machista e tão dura de parto, maternidade, de casamento, de mundo...O preconceito que minha mãe viveu na família do meu pai era porque ela é filha de empregada doméstica solteira - e talvez por isso preconceito de classe e machismo já comecem a me doer tão fortemente desde sempre. Brigar pela atitude, a desconstruir a visão de mulher incapaz, mulher quebrada(como o Freud adora colocar), mulher pecadora, comedora de maçã... Parir por ela, por mim e por todas as mulheres que não o puderam. É uma pena que eu não possa tê-la aqui comigo no dia do parto...

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