segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sobre o aborto

Escrevi este texto depois de refletir muitíssimo nos últimos meses sobre a questão...Enfim saiu, a partir de uma discussão na lista de emails da Pedagogia Unicamp...Gestação de uns 4 meses para o texto!heheheh
Para quem gosta, está no blog tb.
Até!

Isa

Sobre o aborto e o direito de escolher

Antes de tudo: Se querem defender o direito a vida, comecemos a defender o direito a alimentação, antes de qualquer outro. Com metade do mundo já nascido passando fome e morrendo de desnutrição, enquanto uns poucos comem caviar e passeiam de Ferrari, me parece bem claro onde está o maior atque ao direito a vida...Direito a vida? Então vamos lutar para pôr em prática o SUS, para que haja programas de habitação decentes e realmente sérios, para que a polícia não invada a favela e pratique execução sumária, para que a educação forme pessoas conscientes de si mesmas, e não gado marcado. Aí sim a gente pode discutir direito a vida de fetos que ainda nem nasceram. Porque falar de direito a vida só para colocar crianças no mundo me parece bem vazio...

Falo aqui como mulher, feminista e grávida, que escolheu ter um filho nesta hora da vida com o companheiro que tenho ao lado (e portanto, me sentindo plenamente responsável pelos meus atos).

O aborto não é defendido como prática contraceptiva por NENHUMA feminista, e portanto, não seria um método contraceptivo. A questão é, antes de mais nada, que mesmo que se suponha uma sociedade em que o mínimo de direitos fossem garantidos, e que a mulher e o homem conhecessem seus corpos de verdade e usassem direitinho e com total conhecimento os métodos contraceptivos que fossem adequados a seu metabolismo, ainda assim existe uma margem de risco da mulher engravidar. Conheço gente que acabou de ter nenem tomando anticoncepcional e com um quadro não muito favorável à concepção (obesidade, no caso). Ou seja, falar simplesmente em pílula e camisinha como defesa anti-aborto não faz sentido: somos as primeiras a defender o uso de contraceptivo, e mais, defendemos ainda a educação sexual como princípio para a garantia de uma vida sexual plena e responsável. Mas e quando o contraceptivo não funciona, e aí, como fica o nosso direito de decidir? A mulher é obrigada a gestar e parir uma criança que não quer? O homem que fez o filho é obrigado a ser pai? A vida começa no zigoto para os cristãos e para algumas pessoas que tem isso interiorizado, mas o Estado é LAICO e é simplesmente inadmissível que uma concepção de vida que vem de uma teoria religiosa venha me dizer o que fazer ou não com meu corpo e com a minha vida. O Estado que não legaliza o aborto e se diz laico se coloca a serviço das Igrejas e suas inquisições, e não respeita o direito de escolha religiosa ou atéia das pessoas. Além disso, o impacto de um filho para o corpo e principalmente para a mente é algo que jamais deve ser imposto: simplesmente se uma mulher e um homem não se sentem prontos para ter um filho, ela deve ter o direito garantido de não tê-lo.

Acho bom desenvolver um pouco mais sobre o que significa de verdade o direito ao aborto, uma coisa que muitas vezes fica oculta e se perde até na "praticidade" estúpida de se repetir uma frase, de se puxar uma bandeira que não se sabe muito bem por quê. Para mim, a questão começa muito antes da saúde pública(sem excluí-la da questão, é claro). Trata-se do direito de decidir, que é algo completamente violado e perdido em nossa sociedade, principalmente para nós mulheres.

Sobre os homens: em uma sociedade em que temos tantos tabus e uma divisão sexual das mentes, em que homens e mulheres não podem ser amigos(ainda que isso esteja mudando) e em que haja tanto de estereotipação e padrões comportamentais estipulados pelo sexo biológico, como se conversa para se decidir sobre um filho? Se não existe conversa, se não existe cumplicidade entre as pessoas inclusive no sexo, como evitar que um homem use uma mulher como objeto e uma mulher use o homem como um banco, ao dar nele o golpe da barriga? Os homens também têm seu direito de escolher negado, e muitas vezes não se tornam pais de verdade, servem apenas para mandar dinheiro. Sendo oprimidos mesmo estando na condição de opressores, são prisioneiros dos padrões impostos, e obrigados a bancar um filho sobre o qual nem pensaram se queriam ter. Sem a liberdade da cumplicidade, com a mercantilização e objetificação das relações, o homem também não poderá refletir sobre o que é ser pai, não terá como expor isso a mulher, e estará sujeito ao destino e a pensão alimentícia, e ela então estará sujeita a assumir sozinha algo que não necessariamente pode carregar(e no fim das contas, quem dá mesmo a palavra final, quem carregará criança e amamentará é a mulher, e portanto, ela deve dar a palavra final sobre ter ou não o filho)...

Agora sim, sobre nós, mulheres:
Não temos direito de decidir desde cedo, quando nos negam que conheçamos e exploremos nossos próprios corpos. Hoje vejo isso começar a mudar, mas desde pequenininhas somos proibidas de nos tocar e nos conhecer. Viramos adolescentes neuróticas com o aprisionamento do padrão de beleza, negamos ao nosso corpo a sua natureza e seu metabolismo(as magrinhas são "tábuas", as gordinhas são "bujões", os cabelos nos rendem horas no salão, as nossas celulites são motivo de choro e risos alheios), somos escravas de tabelas de gorduras e calorias e só conhecemos de nosso corpo o que sirva para deixá-lo como a mulher da passarela; não respeitamos o funcionamento normal do corpo quando nos entupimos de remédios p/ cólica e não temos o direito de respeitar o ciclo da lua que existe em nós, de nos recolher no cansaço e na dor dos dias da menstruação e de nos exibir e entregar a euforia deliciosa e voluptuosa dos dias férteis. Temos que funcionar sob um relógio que não nos respeita em absoluto, que só conta as horas, e não aprendemos a lidar com o próprio corpo, aprendemos a entorpecê-lo. Existe um tabu, uma burca em nossas mãos ao buscar o prazer, uma burca em nossos sentidos, tecida no medo da dor e no estigma da puta sem valor que mitifica a primeira vez, uma burca de vergonhas e estigmas ao buscar um/a parceiro/a, ao deixar revelar nossas vontades e fantasias, uma burca em nosso gozo e em nossos gemidos. E com a mercantilização da revolução sexual, ainda temos a pressão igualmente opressora de ter que transar para contar pras amigas, de escolher o bombadinho da academia(ainda que ele te machuque toda noite com a grosseria) de ter que agir como uma atriz pornô na cama para agradar o machão, de ter que ler na Nova mais mil e uma formas de enlouquecê-lo... Pois é, no fim, tanto em um caso como no outro, não temos vazão às nossas reais vontades, temos a obrigação de sermos santas e putas ao mesmo tempo, a obrigação de dizer não para o carinha que mal conhecemos que nos dá uma vontade e dizer sim ao namorado, ainda que a gente não esteja afim naquele dia.
Entre a cruz e a espada.

E finalmente, em algum momento de nossa vida SEXUAL ficamos grávidas (para não esquecer: grávidas ficaram grávidas fazendo sexo...pois é, para mim também é óbvio, mas para a maioria das pessoas não é), e aí um monte de coisas passam pela nossa cabeça (já que muitas não passam pelo nosso estômago) e uma série de coisas vêm em cima de nós, tabus, medos, crenças, consequências...A menos que estejamos casadas há 5 anos e estejamos no auge da carreira, seremos julgadas por todo mundo, e não importa muito qual seja nossa decisão, ou o que somos...Como contar para o pai, como ele vai reagir, o medo de ficar sozinha, se eu quero mesmo ter um filho, se eu posso tê-lo, se minha cabeça dá conta de um aborto ou de um filho, se eu consigo assumir o risco e o medo de um aborto não seguro, como meu corpo vai ficar depois de uns 10 quilos a mais, o tabu absoluto da dor insuportável do parto, como vão reagir meus pais, os olhares moralistas das amigas e até de alguns parceiros quando falamos que estamos subindo pelas paredes de tesão(como se a gravidez não fosse um período cheio de hormônios e de redescoberta do corpo da mulher)...E mil e uma transformações no corpo: sono excessivo, enjôos até o 3º mês, inchaço e câimbras nas pernas, fome maluca depois do 3ºmês, retenção de líquido, libido lá em cima de subir pelas paredes, blues pós parto (estado de tristeza causado pela queda de hormônios), uns 12 quilos a mais, possíveis anemias e falta de nutrientes, altos e baixos de humor, sensibilidade excessiva...E nem todo mundo está preparado para tudo isso. E as pessoas em geral tem um julgamento horroroso da situação, quase sempre catastrófico, seja pelo aborto ou por seguir com o filho....Se o fizemos, é porque na opinião de alguns, "matamos uma criança" (que nos mataria e consumiria por dentro), se não o fizemos e estudamos ouvimos que é uma pena porque nosso futuro era brilhante, se trabalhamos e não estamos bem estabelecidas sentiremos o medo de nunca mais ter sucesso, se não tivermos o pai do lado (leia-se: se vc não estiver com a aliança dourada na mão esquerda) será pintada de abandonada (ou de puta, em alguns casos), se de esquerda e feminista, aí o bixo pega de vez, os moralistas de esquerda vão dizer que não somos mulher o suficiente para abortar (como se não pudéssemos querer ter o filho!)...

Pois é, aí começamos o pré-natal e o médico não nos explica nada sobre nada de nossos corpos e daquele ser que está ali crescendo dentro de você, ele só mede um monte de coisas e prescreve mil outras, e nem sabemos muito bem para que serve aquilo tudo e se gostaríamos de tomar aquelas coisas se soubéssemos como foram feitas. Não falamos de parto, isso é tomado como algo arriscado sobre o qual nós mulheres não temos nenhum conhecimento (embora façamos isso desde que o homo sapiens está na Terra, literalemente), e por isso não podemos decidir sobre como queremos parir, só podemos decidir entre o parto "normal", cheio de intervenções e dores, e a cesárea e seus riscos de infecção e sua terrível recuperação, se tivermos dinheiro para ela, é claro. Mais uma vez, não podemos decidir livremente sobre nossos corpos, nos infiltram uma imagem de parto sofridíssimo e inumano, a la freiras dos anos 40 (sim, em muitos lugares freiras faziam o parto...e diziam absurdos, como "foi bom p/ fazer o filho, agora sofra a dor"; quando surgiu a possibilidade tecnológica de anestesia total para parto, lá pelo século XIX, a Igreja Católica foi contra, porque "a mulher tem que sentir a dor do parto e sofrer para se purificar e subir aos céus), e, muito antes de começarem as contrações (que não doem para todas as mulheres) já esperamos, por 8 meses desde que sabemos de nossa gravidez, uma dor insuportável, e quando as contrações começam, estamos tensas e já nos colocam deitadas e amarradas, e não podemos nos mexer para aliviar a dor ou para deixar fluir o prazer (sim, existem mulheres que sentem um prazer louco durante o parto), e nem podemos gritar e gemer, já que o hospital e o ritmo mercadológico do mundo mais uma vez não nos permitirá seguir o ritmo do próprio corpo, nos colocam numa posição de incapazes (como já fomos incapazes de votar, de estudar, de sentir prazer, de viver sozinhas, de trabalhar), incapazes de fazer algo para o qual nosso corpo é projetado; se nosso corpo gosta ou grita de dor, nos metem uma injeção para que não o sintamos e não expressemos o auge de nossa sexualidade; se nosso corpo não tem o ritmo rápido que permita aos médicos não perderem a hora de seu jogo de tênis, nos metem a faca e arrancam violentamente de nosso ventre o novo ser (a recomendação da OMS de cesáreas é 10 a 15% - nos hospitais particulares de São Paulo, a taxa de cesáreas vai de 70 a 90% - é bem claro que nem todas são necessárias). Não nos deixam saber o que ocorre de verdade com nosso corpo, e assim somos submetidas a um tratamento que nem temos noção de como é, e muito menos noção sobre sua real necessidade.

Antes de tudo, o direito de escolha depende de como estamos posicionados no mundo, e do quanto sabemos sobre nós mesmos e sobre o que está a nossa volta. Não existe direito de escolha se não sabemos como funciona nosso corpo, não existe direito de escolha se somos educadas com terror e moralismo e não com diálogo e verdades, não existe direito de escolha se nos subjugamos e oprimimos. Não acho que haja direito de escolha absoluto em nossa sociedade hoje, nem para os homens nem para as mulheres (mas menos ainda para nós). Todos os dias eu busco o meu direito de escolha; escolhi um companheiro, escolhi ter um filho, e agora estou escolhendo meu parto. E ainda assim sei que tenho algum direito de escolha porque sou de classe média e portanto posso comprar livros, acessar a internet regularmente para buscar informações e bancar um aborto menos inseguro ou tratamentos diferenciados durante a gravidez e porque estou numa grande universidade, que sempre aglutina informações cheias de diferentes posições e interesses, o que me dá ferramental para uma reflexão mais ampla. Se não fosse assim, provavelmente estaria com nada de direito de escolha. Só podendo decidir podemos ser livres e verdadeiramente responsabilizados pelas nossas atitudes.

Eu não julgaria uma mãe que foi obrigada a sê-lo por rejeitar seu filho... Como vou responsabilizar alguém por algo que não pode escolher?

E é ao direito pleno de escolher, indo no fundo da consciência e bem longe na informação, que se pode falar em liberdade.

Até.

Isadora Franco.

2 comentários:

  1. me fez pensar tanto que acabei escrevendo: http://barraponto.blog.br/merafalacia/2010/02/por-que-ser-homem-feminista
    te amo :*

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