segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

"A lactância Selvagem"

Postando este texto, que eu adorei...
Eu ando bem afim de recuperar o que há de selvagem e mais feminino no meu ser...


*A Lactância Selvagem (laura gutman)*
**
A maioria das mães que consultam por dificuldades na lactância estão
preocupadas por saber como fazer as coisas corretamente, em lugar de
procurar o silêncio interior, as raízes profundas, os vestígios de
feminidade e um apoio no companheiro, na família ou na comunidade que
favoreçam o encontro com sua essência pessoal.

A lactância genuína é manifestação de nossos aspectos mais terrenais,
selvagens, filogenéticos. Para dar de mamar deveríamos passar quase o tempo
todo nuas, sem largar a nossa criança, imersas num tempo fora do tempo, sem
intelecto nem elaboração de pensamentos, sem necessidade de defender-se de
nada nem de ninguém, senão somente sumidas num espaço imaginário e invisível
para os demais.Isso é dar de mamar. É deixar aflorar nossos rincões
ancestralmente esquecidos ou negados, nossos instintos animais que surgem
sem imaginar que ainda estavam em nosso interior. E deixar-se levar pela
surpresa de ver-nos lamber a nossos bebês, de cheirar a frescura de seu
sangue, de chorrear entre um corpo e outro, de converter-se em corpo e
fluidos dançantes.

Dar de mamar é despojar-se das mentiras que nos contamos toda a vida sobre
quem somos ou quem deveríamos ser. É estar “desprolixas”, poderosas,
famintas, como lobas, como leoas, como tigresas, como “canguruas”, como
gatas. Muito relacionadas com as mamíferas de outras espécies em seu total
afeiçoo para a criança, descuidando ao resto da comunidade, mas
milimetricamente atenciosas às necessidades do recém nascido.

Deleitadas com o milagre, tratando de reconhecer que fomos nós as que o
fizemos possível, e reencontrando-nos com o que tenha de sublime. É uma
experiência mística se nos permitimos que assim seja.

Isto é tudo o que se precisa para poder dar de mamar a um filho. Nem
métodos, nem horários, nem conselhos, nem relógios, nem cursos. Mas sim
apoio, contenção e confiança de outros (marido, rede de mulheres, sociedade,
âmbito social) para ser uma mesma mais do que nunca. Só permissão para ser o
que queremos, fazer o que queremos, e deixar-se levar pela loucura do
selvagem.

Isto é possível se se compreende que a psicologia feminina inclui este
profundo afinco à mãe-terra, que o ser uma com a natureza é intrínseco ao
ser essencial da mulher, e que se este aspecto não se põe de manifesto, a
lactância simplesmente não flui. Não somos tão diferentes aos rios, aos
vulcões, aos bosques. Só é necessário preservá-los dos ataques.

As mulheres que desejamos amamentar temos o desafio de não nos afastar
desmedidamente de nossos instintos selvagens. Costumamos raciocinar, ler
livros de puericultura e desta maneira perdemos o eixo entre tantos
conselhos pretensamente “profissionais”.

Há uma idéia que atravessa e desativa a animalidade da lactância, e é a
insistência para que a mãe se separe do corpo do bebê. Contrariamente ao que
se supõe, o bebê deveria ser carregado pela mãe o tempo todo, inclusive e
sobretudo quando dorme. A separação física à que nos submetemos como rotina
entorpece a fluidez da lactância. Os bebês ocidentais dormem no moisés ou no
carrinho ou em seus berços demasiadas horas. Esta conduta singelamente
atenciosa contra a lactância. Porque dar de mamar é uma atividade corporal e
energética constante. É como um rio que não pode parar de fluir: se se o
bloqueia, desvia seu volume.

Dar de mamar é ter o bebê a colo, o tempo todo que seja possível. É corpo, é
silêncio, é conexão com o submundo invisível, é fusão emocional, é loucura.

Sim, há que ser um pouco louca para maternar.

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