quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sobre a mulher, Direitos Humanos e Democracia

EP132 - Educação, Democracia e Direitos Humanos
Resenha relacionando o filme “Desmundo”, o texto de Bosi, Alfredo “Dialético da Colonização” e a questão dos Direitos Humanos.
O filme trata do início da colonização do Brasil, sob a ótica de uma portuguesa que vem ao Novo Mundo com um grupo de mulheres, obrigadas a casar-se com os homens portugueses que aqui estavam, para colocá-los na “vida cristã” de casado e constituir família. O filme evidencia principalmente o machismo nas relações do início de nossa colonização, que se dará tanto na esfera dos escravos como na fundação de uma classe dirigente na colônia.
Estes homens vêm para explorar a terra e seu povo, e o fazem em todos os sentidos; a miscigenação do brasileiro tem aí suas primeiras origens. O contato deste homem branco com os diversos indígenas que estão aqui se dará com uma relação de poder, seja pela cruz e a aculturação do índio, seja pela espada e o extermínio de quem não se submetesse a cultura e modo de produção europeus. Vem da Europa então a estrutura familiar monogâmica e patriarcal, que pressupõe a mulher enquanto posse do homem, enquanto procriadora e mantenedora dos cuidados domésticos e da vida privada, ou então enquanto “corruptora” da alma “pura” do homem, que se vê perdido e acaba por ter uma conduta poligâmica – aí está o machismo que justifica a exploração sexual, a violência, o estupro, a inferioridade moral da mulher. Esse conjunto de valores machistas resultará aqui no Brasil na miscigenação pela exploração sexual das escravas indígenas e mais tarde das escravas negras, na relação de poder e aculturação que nada tinham de anulação heróica da cultura européia pelos colonizadores portugueses (como havia sido proposto por Gylberto Freire e Sérgio Buarque de Hollanda).
Com esta formação moral machista da sociedade, institucionalizada e repetida nestes 5 séculos desde o dito “descobrimento”, ou melhor, desde a dominação cultural (pensando no sentido de “cultura” das páginas 16 e 17 do texto já referido) da já então reacionária Igreja européia até os valores atuais de mercantilização do corpo feminino, é impossível que se garantam os mínimos direitos da pessoa humana, inclusive de integridade física, da mulher enquanto ser humano. Não se mudam séculos de exploração e poder em 60 anos, pois isto requer uma mudança – que é progressiva e que culminará, se nela for investida a devida energia – geral nos valores e na ética da sociedade. Por isso, a luta pela emancipação feminina, que vai desde a Lei Maria da Penha e a Delegacia da Mulher(que ajudou e ajuda muito no julgamento dos crimes contra a mulher, que antes eram estupradas e submetidas ao julgamento moral do comprimento de suas saias) passando pelas leis trabalhistas e indo até a luta pelos plenos direitos sexuais e reprodutivos (programas de educação sexual não moralistas que esclareçam homens e mulheres sobre o funcionamento dos próprios corpos para o prazer e a reprodução, planejamento familiar e métodos contraceptivos incentivados pelo estado, legalização do aborto, casamento homossexual, enfim), é fundamental a efetivação dos Direitos Humanos no Brasil e no mundo.A questão a que me proponho agora é imaginar se estes Direitos, do ponto de vista da mulher e de qualquer outro ser humano, são possíveis em uma cultura em que o Capital domina e comanda o coletivo – o que, nas atuais circunstâncias de Capitalismo Financeiro, se concretiza nas relações humanas e de produção mercadológicas, em que seus “Direitos” são compráveis. A escolha e a liberdade do ser humano estará condicionada ao que ele, enquanto pertencente a uma determinada classe social que receberá um crédito bancário, poderá consumir de acordo com seu sexo, “raça”, religião, orientação sexual. E este condicionamento resultante da liberdade de mercado – você escolhe se puder comprar - acaba por contradizer a própria prática dita democrática, pois a escolha do indivíduo não se dá em um contexto em que ele tem plenas condições de discernir, refletir e assim escolher.

3 comentários:

  1. A mercantilização cada vez maior das relações humanas torna a coletividade cada vez mais escrava,principalmente de consciência.Por essa razão,o capitalismo é incompatível com a democracia...Não sei até que ponto o sistema não poderia apropriar-se da luta das mulheres.Mas, com certeza uma boa feminista, deve, antes de tudo, ser uma boa socialista.

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  2. Chico, O sistema capitalista pode tentar se apropriar de qualquer luta, inclusive da luta pelo socialismo, e transformar em fashion, em passarela, em produto; um bom exemplo é a foto do Che estampada nas melhores blusas das melhores grifes. Mas o fato é que a luta real, a luta por um sistema economicamente viável e igualitário, pelos direitos equânimes de mulheres e homens e transgêneros, pela liberdade sexual, pela libertação animal e do meio ambiente, pela não discriminação religiosa, são todas uma só, vários movimentos buscando a emancipação humana. E um bom militante, um militante perspicaz, atuante e estudioso, deve sempre ter em mente que nem 500 mil bonequinhas negras, nem 1 milhão de Baladas GLS, nem todas as estamparias do mundo, nem as fábricas de fetiches, nem as lojas hippies e emo, nem a revista Nova todo mês nas bancas, nem mil imagens estilizadas de todos os Santos e Orixás, fazem parte deste movimento de emancipação humana, estes sim são movimentos de apropriação do Capital...
    Atés revolucionários, e cada vez mais revolucionários...=)
    Saudades de vc...

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  3. Maravilhoso!! Tudo o que eu precisava..

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