quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A mercantilização da liberdade Sexual

Vocês, caros leitores classe média, se algum dia foram do tipo mais "baladeiro" e menso monogâmico, sabem bem: já foram num motel?
É um dos lugares que mais gosto de ir...você chega, geralmente de carro, moto ou a pé(mas só fui de carro), tem uma janelinha geralmente escura(vc não vê quem te atende) com um buraco embaixo do vidro, os preços e as horas que vc terá para ficar lá numa tabela iluminada, e pede o tipo de quarto que te apetece ou que seu bolso pode pagar. Ela te dá uma chave e vc entra em um lugar com muitas garagens cobertas; entra na garagem e fecha a porta, ninguém vê o modelo de seu carro/moto. E sobe num quarto, sempre bonito e limpo, com quadros eróticos e bom...o resto é por sua conta...Se for pedir alguma coisa, seja algo para comer ou algo para comer melhor(hahahahah), tudo é colocado em uma caixinha com portas dos dois lados; a atendente abre a porta, coloca o pedido, fecha a porta; você abre a porta do outro lado e pega o pedido...
Quando for sair, o mesmo esquema de não ver ninguém que te atende; eles fazem a inspeção p/ ver se vc não roubou nada, p/ ver se vc consumiu algum dos produtos disponíveis no quarto(sais de banho, camisinhas, etc) e te dão o valor. Se vc pagar com cartão, o comprovante de pagamento vem com qualquer nome que não seja de motel - já vi uns indicarem "moda unissex", "pizzaria", nome da cidade, mas nunca, jamais "motel dos prazeres"...
Se puder pagar, você poderá gritar, sujar todos os lençóis e colchões de tudo o que seu fetiche mandar, levar quem vc quiser p/ cama(homem, mulher, transgênero, travesti, a vizinha, o/a amante, a mulher, o marido, o/a namorada(o), um grupo de amigos pervertidos e malucos escondidos no carro - claro, se tiver dinheiro, vá p/ uma suíte de swing), poderá fazer aquele sexo por qualquer lado, de qualquer jeito, vestir cueca de elefante e roupa de dominatrix...tudo pelas horas mágicas muito bem pagas em que vc é livre entre 4 paredes...e ninguém vai saber do seu crime ali, ninguém. Seu casinho, sua curiosidade não hetero, seu fetiche de ser dominado, seus gritos, seu sonho de ser lambido com leite condensado - tudo segredo, o risco de encontrar o fofoqueiro da esquina, o padre da Igreja, a mãe, é restrito aos 15 minutos de entrada na suíte e saída da suíte. Bela liberdade.

Liberdade Sexual, afinal, é muito mais que isso. Muito mais do que caçar numa balada uma pessoa em quem gozar, sem se importar com seu prazer, com seu ser humano; muito mais do que poder fazer desde que bem pago e escondido, sustentando uma indústria nojenta, um ramo do mercado, a sociedade da mentira, da anestesia, do medo. Liberdade Sexual é poder, independente do quanto tem na carteira, do que tem no meio das pernas, do que quer ter no meio das pernas, de quem se quer na cama, manifestar-se, amar e conhecer a si mesmo, sem esconderijos, sem amarras, sem preço. E isso motel nenhum, balada nenhuma, academia e cosméticos natura nenhum nos dará. A mercantilização dos movimentos de liberdade sexual nos fez escravos do mercado, mas não libertos da moral cristã de culpa e pecado do sexo, do desejo; e ainda explorou altamente a ditadura da beleza, do corpo, elevando-a em seu mais alto grau.

E nada pode ser mais cruel que a ditadura que se impõe, no Capital, aos nossos corpos, à imaginação, ao desejo, ao amor, à humanidade. Por ter me retido por tanto tempo nessa falsa idéia de liberdade sexual que se compra a cada esquina, por ter por tanto tempo me alienado de meu desespero de liberdade, por ter ludibriado meus sentidos, por tudo o que tive que passar para me dar conta disso, eu jamais perdoarei o mercado e o Capitalismo, sua plasticidade irritante, sua falácia constante. Porque, por mais livre que eu possa ser no quarto de um motel, eu continuo sendo vítma de assédio sexual, continuo sendo a possível morta num ataque de neo nazistas por ser "livre", continuo tendo que calar para alguns lados da sociedade sobre meu amor livre, continuo ouvindo piadas machistas...

A merda a liberdade de consumo!! Eu quero emancipação humana!

2 comentários:

  1. Excelente texto, pesquei ele, vou colocá-lo no meu Blog amanhã, com os devidos créditos, claro, mas sem preocupação com direitos autorais, heheh.
    Saudações

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  2. Muito boa a observação.

    Penso que liberdade inclui TAMBÉM a liberdade sexual, para além de tabus, dogmas, hipocrisias.

    Mas liberdade não é APENAS a liberdade sexual. O problema da emancipação humana -usando seu termo- é mais profundo que isso, é "radical" (sentido marxista, ir à "raiz" da questão). A saída de fundo é a mudança do sistema.

    O sujeito pode ser o mais liberal possível, sexualmente falando, mas estar preso até o pescoço nas redes de alienação do sistema. Os hippies, de certo modo, também eram alienados, não obstante todo papo "rebelde" de amor livre.

    Sem mudança de fundo (radical), repetiremos os mesmos dogmas, mascarados com ilusões de liberdade.

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