quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Greve, Movimento Estudantil e o medo do escuro

"Não vim aqui querendo provar nada,
Não tenho nada p/ dizer também
Só vim curtir meu rockzinho antigo
Que não tem perigo de assustar ninguém"

Dá-lhe Raulzito!!!

Esta foi a música que eu, depois da 3ªfeira em que acabou a greve do 1º semestre desse ano, mais ouvi, para destilar a raiva que senti ao ver argumentações do tipo "Não dá para fazer greve nas férias" como justificativas para votarmos o fim da greve. Acho que nunca saí tão exausta e tão revoltada por um comentário que ouvi dentro de um movimento - nem as feministas que não dão de 4 porque isso é "machismo", nem quando eu ouvi as palavras "progresso", "evolução humana" e "hábitos civilizados" para justificar a aculturação das culturas dos "homens do campo" no Brasil dentro de um projeto que se propõe a fazer educação popular, nem quando me disseram que esse papo de gay vai se resolver no comunismo.


Pois bem, quem começou a greve com a pauta política não-salarial foram os estudantes...Tiramos greve por todos os absurdos que ocorrem, e eu achei demais: finalmente, vamos falar para o mundo dos trabalhos, das provas, das produções acadêmicas pararem, pararemos com essa rotina maluca que não nos deixa tempo a estudar e ler algo que seja fora da academia, pararemos com a rotina que não nos dá tempo a reflexão, a criação, a análise de que tipo de formação nos estão dando, enfim vamos parar e pensar que educação se oferece neste país para nós mesmos e para a nossa sociedade, e acima de tudo protestar e manifestar que esta escola, estas instituições que são a renomada Unicamp e as estaduais paulistas, não são exatamente aquelas que queremos...

Claro, essa reflexão foi iniciada por mais um entre tantos projetos escrotamente neo-liberais pro(im)postos pelos governos tucanos nesses incontáveis e lastimátveis anos, nesta merda de estado que é São Paulo...Enfim, paramos para discutir a Univesp, o projeto de Universidade 100% a distância...

Pois bem, grupos se juntaram segundo suas afinidades políticas. Havia quem não queria que fizéssemos greve, dizendo que não era o momento....

Para mim, faltam motivos é para não se fazer greve, e todos nós que temos um pouquinho de senso crítico sabemos que a picaretagem é institucionalizada na universidade...Afinal, uma instituição que tanto valor dá ao argumento de autoridade, que baseia seu padrão de "qualidade" enquanto instituição formadora na quantidade de professores doutores, mas que os coloca em condições tais - seja por ter seu trabalho precarizado por colocá-lo nos moldes e nas condições do mercado e do lucro, seja por colocar um ser que quer ficar enfiado no laboratório para dar aquela aula que ele tanto odeia, seja por institucionalizar o "migué" de se colocar professores ainda não formados segundo seus próprios e "incontestáveis" títulos de referência - que, por mais que boa vontade se tenha, fica impossível seu exercício e compromisso com a educação que a própria instituição propôs...louco isso, não?

Voltando a greve, esse pessoal, quer por achar que não estávamos maduros o suficiente, quer por terem uma curiosa ordem de fora da universidade e do movimento estudantil, simplesmente acabaram ficando em maioria nas instâncias deliberativas de que atividade teríamos para a greve. Chamaram então, com sua crença nos argumentos de autoridade de que os acadêmicos saberiam muito mais que a gente, todos os dias, milhões de aulas públicas, com vários temas...Aulas públicas....Todas as propostas de grupos de estudos, de nós mesmos discutindo sem a "tutela" de um professor ou doutorando, discussões sobre como poderíamos construir uma educação diferente, uma outra proposta, tudo foi em absoluto BOICOTADO. Isso mesmo, boicote. Típico de política cinza, de gente que ainda não tomou - seja pelo exercício comum do não questionar, seja por interesses particulares - o movimento social, a realidade do mundo, nas próprias mãos. Não defendo que nós não estudemos mais, que a Academia não tem nada que preste - mas acho-a uma parte da argumentação, e não a verdade e a vida. Nós colocamos aulas públicas de professores que fingiram estar do nosso lado, mas apenas deram as aulas que já haviam planejado antes da greve como "atividade de greve", mas não paramos para discutir entre nós mesmos que educação queremos ter, que educação temos; não paramos para criar - não paramos nem mesmo para nos conhecer!!!!!!!!!!!Que absurdo, se um dos nossos maiores problemas é que não nos conhecemos enquanto seres humanos - eu estudo com 46 pessoas e sei o nome de quantas? 10, 15?

Sem contar o discurso que eu não engoli até agora de que "arte despolitiza o movimento" quando propusemos uma comissão para discussão e produção artísticas - que a meu ver, e na visão de muita gente que do meu lado estava, tem a propriedade fantástica de expressar mais de nós, de nos sensibilizar e trazer a reflexão, de nos abrir a cabeça para as possibilidades de criação, o que nos faz humanos, essa dimensão que está sendo perdida com a indústria cultural - imagine o que seria de nossa capacidade criativa e imaginativa se pudessemos todos os dias parar para a inspiração, o sonho, o devaneio....A arte só foi aceita enquanto instrumento de convencimento - credo! É a lógica do Capital para a arte, exatamente a mesma...Vide o cinema e Hollywood...

Mas não, nós paramos para discutir um ponto muitíssimo específico da merda de educação que temos, tiramos vários pontos em cada um dos lugares da Unicamp (falta de professor, picaretagem de professor, não assistência estudantil, Univesp, blá blá blá), e não questionamos minimamente a lógica pela qual construímos o movimento, o que significava delegarmos o "conhecimento das causas" completamente aos professores, o estudo completamente a ouvi-los sem refletir, sem sonhar, sem sair do mesmo ponto!! Fiz greve para parar as aulas e repensar as coisas...Tive um monte de aulas com os mesmos de sempre, não discuti, não repensei, não saímos do mesmo ponto.
E no fim, como nos estruturamos na mesma lógica que o Capital e o mercado, não nos aprofundamos na discussão, e não combatemos de verdade o ponto central do negócio, que é o projeto neo-liberal de educação...

Isso, claro, considerando quem estava no movimento, porque com quem estava fora isso tudo foi muito pior - com estes, simplesmente, não conseguimos nem ao menos mostrar a ligação entre os problemas de cada ponto da universidade, a lógica neoliberal e o que vemos como problema nisso - apelamos para chamá-los à "maturidade", e nomeá-los como "não-solidários", para a incontestabilidade da "autoridade da assembléia", parecíamos as velhas do Rotary, ridículo!!!

E aí, tacamos pedras nos anti grevistas, que, apesar de seu raso debate, tinham um movimento mais divertido que o nosso (o que conta muito nos nossos tempos de propaganda), e um argumento muito mais fácil de se entender com a lógica em que as pessoas estão inseridas que o nosso....No fim, justificamos as coisas do mesmo jeito que se justifica o "criminoso nato" - "Ah, estamos num contexto alienado hoje, né?"...É uma falta de senso esperar pessoas "naturalmente combativas" acordem, não existem pessoas assim, estamos na ilusão, na alienação, na narcotização que o mercado proporciona - precisamos de mais que argumentos morais para tirar as pessoas do prazer ilusório e efêmero do consumo...

E falo isso porque sei que 70% da comunidade universitária é de classe média para cima, e, portanto, não sofre diretamente na pele o enorme problema da desigualdade social e do acúmulo de riqueza, o que os faz menos sensíveis a questão.

E depois, sofremos a repressão nojenta dentro da USP...Eu fiquei absolutamente assustada...Mas o que mais importa é que a estratégia da repressão deu muito certo - não precisaram bater duas vezes, o movimento que tinha uma discussão política não tão boa se desmantelou em "discutir repressão"...O movimento lutava por uma coisa, e de repente, passou a lutar contra a repressão dele mesmo...os professores entraram em greve para tirar a polícia do campus, e, com a saída física da tropa, eles saíram da greve - mas o decreto que legitima a volta deles aos campus das universidades está lá, intocado, pronto para colocar a polícia a nos tacar gás lacrimogênio dentro de prédio de novo...

E no fim, o fim do desmantelamento - em vez de reconstruir o movimento, de refazer propostas, apesar das idéias de, para aproveitar que íamos para nossas cidades, fazermos um mutirão entre quem estaria no movimento por várias cidades do estado e do país a discutir educação, univesp, e todas as novas iniciativas para a educação pública com a população nos centros urbanos, ou então de estudarmos bastante já que não estaríamos aqui precisando mobilizar e garantir que a greve continuaria, produzirmos textos por contato virtual, enfim, apesar de todas as propostas de mobilização no que seriam as nossas "férias", como as assembléias são discursos de surdo e uma boa parte vai apenas com ordens vindas de organizações oportunistas que fazem os estudantes que delas participam massa de manobra, tive que ouvir o disparate, a indignante posição de "não tem como mobilizar nas férias". Pois eu digo o contrário - GREVE NÃO TIRA FÉRIAS!

Claro, tem o pessoal que furou a greve....Medo de fazer greve??Isso é radicalizar, ser marxista, ser revolucionário??? Esqueceram de contar que, antes de ser filósofo, pai da sociologia, escritor de "O Capital", Marx era um militante!!! E aqui faço minhas pazes com Marx, com quem briguei nessa época por ouvir suas citações em bocas de falsos leitores seus. E esses falsos leitores seus são os que negam sua condição de classe média, geralmente brancos, para falar que são mais ou menos revolucionários, como se isso fosse mais importante que as atitudes e posturas que temos. Se não temos coragem de fazer greve e enfrentar a repressão de um 0 na nota, imagine de enfrentar a polícia e suas armas letais, ou mesmo a grana chantagista dos lobbistas em Brasília(já que alguns acreditam em mudanças pela via eleitoral)...

Bom, depois dessa exaustiva terça e de minhas exaustivas 2 semanas intensas de movimento estudantil, eu não furei a greve, mas também deixei de me mobilizar em torno deste tipo de movimento...Fui p/ cama, fazer minha revolução por lá...Quando encontrei um pessoal com mais senso e menos interesse, me reuni, e me reúno até agora...
Vamos ver como sai, estou atrasada para ir p/ lá agora...

Intés!
(texto escrito há umas 3 semanas atrás, hehehe)

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