domingo, 9 de agosto de 2009

Um conto...

Acabo de ler um conto que minha colega de classe me enviou.
Disse que se lembrou de mim quando leu, e não foi por acaso.
Dentre tudo que me revolta num conto desses, dentre todas as armadilhas que apareceram nele e eu já caí algum dia, o que mais me assusta e que com certeza sustenta a homofobia, o machismo e o racismo que o conto denuncia, é a forma como é encarado o desejo, o sexo, o amor e as relações humanas.
Estou em choque com meu passado, e tenho um louco desejo de destruir o que querem que eu seja.
Conto de Alice Walker.
Obrigada, Bel!!
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Um esposo de meia idade chega em casa depois de um longo dia no
escritório. Sua esposa o recebe na porta com a notícia de que o jantar
está pronto.. Ele se sente grato. Primeiro, no entanto, ele precisa ir
ao banheiro. No banheiro, sentando-se na banqueta, abre um número da
revista Jiveboy que trouxe para casa em sua pasta. Há uma pose de um
par de mulheres que o excita particularmente. Ele examina as jovens
mulheres - louras, talvez (a loucura nacional), com cintas elásticas e
olhos convidativos - e acaricia seu pênis. No mesmo instante, seus
intestinos remexem-se com vontade de defecar. Ele fica no banheiro
durante luxuriantes dez minutos. Sai de lá aliviado, relaxado -
faminto e pronto para o jantar.
Sua esposa, usando mais tarde o banheiro, encontra a revista levemente
molhada. Ela a apanha com emoções contraditórias. É uma mulher morena,
com cabelos e olhos pretos. Examina as loura e as ruivas. Será que ele
pensa nelas, indaga, quando está fazendo amor comigo?
- Por que você precisa disso? - ela pergunta.
- Isso não significa nada - ele responde.
- Mas isso me magoa de alguma maneira - ela diz.
- Você está sendo a) boba; b) quadrada e c) ridícula - ele diz. - Você
sabe que eu te amo.
Ela não pode dizer nada a ele: Mas elas não são eu, essas mulheres.
Ela não pode dizer que tem ciúmes das fotos nas páginas da revista.
Que ela se sente invisível. Rejeitada. Negligenciada. Ao invés disso,
diz para si mesma: Ele está certo. Eu tenho de amadurecer. Entra na
linha. Nadar com a corrente.

Ele acha que a entende, o que ela estava tentando dizer. É a Jiveboy,
ele pensa. As mulheres louras.
No dia seguinte, ele traz para casa a Jivers, uma revista negra, cheia
de mulheres negras e mulatas. Fica no banheiro outros luxuriantes dez
minutos.

Ela fica olhando, segurando a revista: na capa estão as pernas e os
sapatos de um homem negro bem-vestido, carregando uma pasta e um Wall
Street Journal enrolado na mão. A seus pés - ela vira a capa da
revista uma e outra vez para entender exatamente a pose da foto - está
uma mulher, uma mulher de pele escura como a dela, enrolada e
contorcendo-se de tal maneira que sua cabeça quase não é visível. Só o
seu maravilhoso corpo - suas costas e derrière - de tal maneira que
ela parece um monte de excremento humano aos pés do homem.
Ele vai em viagem de negócios a Nova York. Leva também sua esposa. Ele
está excitantemente descobrindo a Rua 42 com ela. "Olhe", diz. "Como
tudo é livre aqui! Que diferença de Boston!" (a pequena cidade onde
moram). Ele está fascinado com as prostitutas louras, modernas, com
seus rufiões negros, marchando em bandos pela rua. Fascinado com as
diminutas saias das prostitutas negras, seus longos cabelos,
inevitavelmente falsos e louros. Ela caminha um pouco atrás dele, para
que ele veja primeiro essas maravilhas. Ele não repara, até dobrar
uma esquina, que ela parou em frente de uma vitrina que atraiu seu
olhar. Enquanto estava parada, sozinha, olhando, dois rufiões, cada um
por sua vez, perguntam-lhe de qual estábulo ela faz parte, se é que
faz parte de algum. Ou simplesmente: "Tá trabalhando?"
Ele volta rapidamente e a segura pelo cotovelo. Faz cara feia para o
cumprimento implícito nessas perguntas, depois o divide com sua
mulher: " Você é bem espertinha!"
Ela está paralisada. Seu rosto reflete sofrimento e assombro. "Mas
olhe", ela diz apontando. Quatro grandes bonecas de plástico - uma
Farrah Fawcett magrinha (assim ela pensou) em pose para uma inspeção
anal; uma oriental, com os olhos estranhamente fechados e a boca
vermelha, num beijo, aberta como uma concha de sucção; uma enorme
mulher esquimó, com pele ao redor do seu pescoço, tornozelos e vagina;
e uma mulher negra, vestindo uma pele de leopardo, incluindo o rabo.
As bonecas são todas de tamanho natural, e a eficiência de seus
genitais de borracha está explicada com detalhes num cartão visível
através do vidro.
Para ela isso é um pesadelo - provavelmente porque todas as bonecas
estão sorrindo. Ela as verá pelo resto da vida. Para ele a visão
também é chocante, mas desperta uma lasciva curiosidade. Ele
retornará, um outro dia, sozinho. Enquanto isso, deve evitar que ela
veja essas coisas, ele decide, puxando-a bruscamente para uma outra
rua.

Mais tarde, no quarto de hotel, ela vê na televisão duas cantoras
negras cantando seus últimos sucessos: a primeira mulher, vestida de
dourado (porque sua música agora é "ouro puro"!) está usando uma
corrente em volta do tornozelo - a esposa imagina que vê uma corrente
- porque a mulher está cantando: "Liberte-me de minha liberdade,
acorrente-me a uma árvore!"
- O que você acha disso? - ela pergunta ao esposo.
- Ela é uma idiota - ele diz.
Mas quando a segunda mulher canta: "Posição, aponte, fogo, meu nome é
desejo", com armas e foguetes disparando em torno dela, ele acha que o
verso "Acerte-me com seu amor" explica tudo.
Ela se sente desanimada

Ela olha no espelho o seu corpo escuro e roliço, cabelos crespos e
olhos pretos e conclui, bobamente, que não é bonita. E que tampouco é
moderna. Entre os seus vários problemas está o fato de que não gosta
que ninguém use a palavra "crioulo", e tem medo da maconha. Essas
limitações, ela sente, a tornam velha, muito parecida com sua mãe que
gosta de sexo (ela recentemente descobriu isso), mas é profundamente
religiosa e acha, por exemplo, que jogo de cartas é pecado e o álcool,
mortal. Seu marido não acharia sua mãe sexy, ela pensa. Já que ela
mesma está envelhecendo, esse pensamento a assusta. Mas,
surpreendentemente, enquanto observa a si mesma, no espelho,
transformar-se na mãe, ela descobre que acha a mãe - que
cuidadosamente trança seus cabelos grisalhos de tamanho médio, nem
fino nem grosso, toda noite antes de ir para a cama; tranças que seu
pai ainda consegue desfazer durante a noite - muito sexy .
No mesmo instante ela se sentiu reconfortada.
Resolveu lutar.

- Você é a única mulher negra do mundo que se preocupa com coisas
assim - ele lhe diz, sem saber de sua resolução, e mal-humorado com
seus meses de silenciosa reflexão.
Ela diz: - Olha, pessoa de cor, leia este ensaio de Audre Lorde.
Ele se recusa. Ela insiste.
Ele chega à frase sobre Lorde "movendo-se na luz do sol contra o corpo
de uma mulher que amo", e pára. - Espere um minuto - ele diz -, que
nome esquisito para um homem é Audre. Certamente eles queriam dizer
André.
- É o nome de uma mulher - ela diz. - Leia o resto.
- Nenhum sapatão pode me dizer coisas que interessem - ele diz,
fechando as páginas.
Ela estava calmamente esperando por isso. Ela pegou a Jiveboy e a
Jivers. Nas duas, tem mulher trepando com mulher que nem conhece. Ela
pega de novo o ensaio e lê:

Isso me leva à última consideração sobre o erótico. Compartir o poder
dos sentimentos de cada um é diferente de usar os sentimentos do outro
como usamos Kleenex. E quando olhamos para trás, a partir de nossa
própria experiência, erótica ou não, nós usamos, mais do que
compartimos, os sentimentos daqueles outros que participam da
experiência conosco. E o uso, sem o consentimento do usado, é abuso.

Ele olha para ela ressentido, porque ela está lendo e relendo esse
texto, silenciosamente, concentrada, para si mesma, segurando as
páginas com as fotos das falsas lésbicas (um dos tipos de pose que
mais o excitam, embora inconscientemente) no colo, absorta. Ele
compreende que já não pode mais tê-la sexualmente da maneira como a
tinha desde o segundo ano de casamento, como se o corpo dela
pertencesse a outra pessoa. Ele vê, no fina; do caminho, a
dissolução do casamento, uma procura constante por corpos mais
perfeitos, ou esposas mais tolas. Ele se sente oprimido pela
incipiente luta dela, e sente como se, de alguma maneira, essa sua
luta para mudar o prazer que ele sente fosse uma violação de seus
direitos.
Agora ela está ocupada afixando as palavras de Audre Lorde no armário
sobre a pia da cozinha.
Quando eles fazem amor, ela tenta olhá-lo nos olhos, mas ele se recusa
a devolver seu olhar.
Pela primeira vez ele se conscientiza de que o prazer de gozar sem ela
é amargo e solitário. É como se comesse sozinho um doce roubado, atrás
do celeiro. E no entanto, ele pensa vorazmente, é melhor que nada, o
que considera como um benefício que a luta dela trouxe a ele.
No dia seguinte, ela está lendo um outro ensaio, quando ele chega em
casa do trabalho. Chama-se "Uma Subversão Silenciosa", e é de Luisah
Teish.
- Outra sapatão? - ele pergunta.
- Outra de suas irmãs - ela responde e começa a ler, mesmo antes de
lhe servir o jantar:

Durante o movimento do Poder Negro, boa parte da educação cultural se
concentrou no físico negro. Uma das realizações deste período foi a
popularização do estilo africano de cabelo e a moda do natural. Junto
com esse novo penteado veio uma nova auto-imagem e uma nova maneira de
se relacionar. Então a indústria cinematográfica lançou "Superfly",
e o visual de Jesus Cristo, as cabeças Konked, e uma atitude similar
assolou a comunidade negra. Filmes como "Shaft" e "Lady sings the
Blues" retratavam os "heróis" negros como cheiradores de cocaína,
tolos inconseqüentes. Nesses filmes a mulher negra é sempre vítima de
uma rede de violência....
Um teatro popular em Berkeley apresentou um filme pornô intitulado
"Slaves of Love" (Escravas do Amor). O cartaz publicitário mostrava
duas mulheres negras, nuas, acorrentadas, e um homem branco de pé
sobre elas com um chicote! Como tal material pornográfico racista
escapou à atenção dos militantes negros revela um problema...

Como sempre, ele nem escuta á afirmação sobre as mulheres.
- O que essa puta sabe sobre o movimento do Poder Negro? - ele se
encoleriza. Está furioso com sua esposa por conhecê-lo há tanto
tempo e tão bem. Ela sabe, por exemplo, que foi por causa do Movimento
do Poder Negro (e na verdade do Movimento dos Direitos Civis antes), e
não exatamente por ter sido militante, que ele consegue manter seu
emprego burguês. Ela se lembra de quando o cabelo dele era afro. Agora
está apenas anelado. Ele começou a pensar que, por ela o conhecer como
era, ele não consegue fazer amor com ela como ela é. De alguma
maneira, em algum canto firmemente reprimido de sua mente, ele
considera que sua esposa continua negra, enquanto ele se sente como se
tivesse mudado para outro plano.
(Esta idéia, um lampejo que lhe ocorreu naquele instante, amedronta-o
tanto que por vários anos ele resistirá a ela. Se a tivesse aceitado
de uma vez, por mais perturbadora que fosse, isso o teria ajudado a
entender a irracionalidade de sua aceitação da pornografia usada
contra as mulheres negras: que ele havia separado a si mesmo de sua
própria negritude ao tentar identificar as mulheres negras apenas por
seu sexo.)
A esposa nunca havia se considerado uma feminista - embora fosse, com
certeza, uma "mulherista". Mulherista é feminista,só que mais comum (a
autora deste texto é mulherista). Ela fica, portanto, surpresa quando
o marido a ataca chamando-a de "feminista liberada", "lacaia da mulher
branca", "fantoche" nas mãos de Gloria Steinem, incipiente
queimadora-de-sutiã! Que conexão seria possível, ele queria
saber,entre ela e as mulheres brancas - essas bruxas
ultra-privilegiadas (ele havia lido recentemente a Newsweek) que agora
marchavam e pregavam as suas merdas puritanas pra cima e pra baixo no
Times Square!
(Ele se lembra apenas da liberdade que sentiu quando estava lá; não se
lembra que ela ficou parada diante da vitrina de bonecas de plástico.)
E se ela fosse fazer todas essas novas ligações com sapatões e
brancas, aonde isso o levaria, o homem negro, o mais brutalizado e
oprimido ser humano na face da terra? (Será porque ele agora pode
cobiçar as mulheres brancas em liberdade e ela não tem uma válvula de
escape semelhante, que ele pensa nela como ainda negra e nele como uma
outra coisa? Esse pensamento está por detrás do que ele está dizendo,
mas sua mulher desconhece isso.) Ela não sabe que é por causa desses
mesmos corpos brancos que ele foi linchado no passado e ainda é
linchado, pela polícia e pelo sistema penitenciário dos Estados
Unidos, dezenas de vezes por ano até hoje?
Astuciosamente, a esposa reservou o ensaio de Tracey A. Gardner para
esse momento. Porque Tracey A. Gardner pensou sobre tudo isso, não
apenas como está acontecendo presentemente. mas historicamente, e ela
tem clareza sobre todos os abusos cometidos contra ela como pessoa
negra e como mulher, e é destemida e é fria - ela está furiosa. A
esposa,mais inclinada à depressão e à auto-abnegação do que à fúria,
aquece-se no fogo da raiva altamente contagiosa de Gardner.
Ela começa a ler:
Porque, do meu ponto de vista, o racismo está em todo lugar, incluindo
o movimento das mulheres, e realmente precisarei dizer algo sobre isso
quando não o encontrar... e a primeira vez em que isso ocorrer, eu
lhes direi.

O marido, surpreso, acha isso muito engraçado, para não dizer
pertinente. Ele bate no joelho e senta-se. Está louco para fazer
algum tipo de comentário positivo ao que disse a sapatão, mas nada lhe
ocorre.

A escravidão na América apoiou-se na negação da humanidade dos povos
negros, e no solapamento de nosso senso de nação e de família, no
despojamento do papel do homem negro como protetor e mantenedor, e na
ordenação das mulheres negras no sistema americano de dominação do
macho branco...
-Em outras palavras - ela diz, - os homens brancos pensam que devem
estar por cima. Outros homens sabem como saborear a vida em outras
posições.
O fim da Guerra Civil trouxe o fim de uma certa 'forma' de escravidão
par os povos negros. Também trouxe o fim de qualquer 'segurança no
emprego' e a perda da proteção do dono de escravos. Os negros eram
agora caça livre, e a aterrorização e a humilhação do povo negro,
especialmente do homem negro, começaram de outra forma. Agora o homem
negro podia ter sua família e provar seu valor, mas ele não tinha os
meios para sustentar ou proteger nem a ela, nem a si mesmo...

Enquanto ela lê, ele se sente envergonhado e percebe o profundo
embaraço da esposa, por ele e por si mesma. Pela história deles
juntos. Mas obstinadamente ela continua a ler:

Depois da Guerra Civil, a justiça popular, que significava que
normalmente não seriam precisos nem julgamento nem provas, começou seu
domínio na forma de castração, morte na fogueira, decapitação e
linchamento dos homens negros. Cerca de 5.000 pessoas brancas iam
assistir a esses eventos como se fossem a uma celebração. (Ela pára,
suspira: decapitação?) Mais de 2000 homens negros foram linchados num
período de 10 anos de 1889 a 1899. Também houve um número grande de
mulheres negras linchadas. (Ela lê essa frase rapidamente e a
esquece.) Mais de 50% dos homens negros linchados eram acusados de
violação ou tentativa de violação.


Ele não consegue imaginar uma mulher sendo linchada. Nunca havia nem
mesmo considerado a possibilidade. Talvez seja por isso que a imagem
de uma mulher negra acorrentada e ferida o excita ao invés de
horrorizá-lo? É o fato de nunca ter terminado o linchamento de seu
corpo que força a esposa, no momento, a passar por cima do registro
histórico. Ela não está preparada para ligar o seu próprio marido com
a continuação daquele passado.
Ela lê:

Se um homem negro tivesse relações sexuais com uma mulher branca
aquiescente, era violação (Por que estou sempre lendo sobre, pensando
sobre, preocupando-me sobre, meu homem ter relações sexuais com
mulheres brancas? Ela pensa, desesperadamente, enquanto lê). Se ele
insultasse uma mulher branca com o olhar, era uma tentativa de
violação.

- Sim - ela diz, suavemente, como em apoio a sua obstinada leitura -,
eu li Ida B. ...como é mesmo o nome dela?

Com os linchamentos, o homem branco estava mostrando que odiava o
homem negro carnalmente, biologicamente; ele odiava sua cor, seus
traços, seus genitais. Assim ele atacava o corpo do homem negro, e
como um amante enlouquecido, mutilava sua carne, violava-o da maneira
mais íntima e pornográfica...
Eu acredito que esse tratamento obsceno, desumano, do homem negro pelo
homem branco, tem uma correlação direta com o tratamento
progressivamente obsceno e desumano das mulheres, particularmente das
mulheres brancas, na pornografia e na vida real. As mulheres brancas,
trabalhando por seu próprio crescimento e identidade, sua própria
sexualidade, tornaram-se, num certo sentido, arrogantemente negras.
Como os homens negros ameaçam a masculinidade do homem branco e o seu
poder, agora também o fazem as mulheres.

-Essa garota está tramando alguma coisa - diz o esposo, mas, pela
primeira vez na vida, ele pensa que quando não está pensando em foder
com as mulheres brancas - fantasiando com as revistas ou paquerando-as
nas ruas - ele muitas vezes pensa nas maneiras de humilhá-las. Então
ele pensa que, considerando sua história como um homem negro na
América, não é surpreendente que tenha confundido trepar com elas com
humilhá-las. Mas o que isso tem a ver com a maneira como ele se vê a
si mesmo? Este pensamento abafa o seu aplauso secreto para Gardner, e
ele lança um olhar confuso e desconcertado para sua esposa. Ele sabe
que fazer amor com sua mulher como ela realmente é, com quem ela
realmente é - na verdade, fazer amor com qualquer outro ser humano
como ele realmente é -, vai exigir um olhar escrutinador-de-alma para
dentro de si mesmo, e só pensar nisso literalmente arrepia seu cabelo.
Sua esposa continua:

Alguns negros, cheios das perspectivas e dos valores dos homens
brancos, vêem a mulher branca ou Deusa Loura como parte da imagem
americana do sucesso. Algumas vezes, quando está com a mulher negra,
ele se envergonha do modo como ela tem sido tratada e como ele tem
sido impotente, e como sempre tiveram de trabalhar juntos e proteger
um ao outro . (Sim, ela pensa, nós sempre fomos tudo o que temos, até
agora. Ele pensa: Nós ainda somos tudo o que temos, só que agora
podemos viver sem permitir a nós mesmos a consciência disso.) Frantz
Fanon diz sobre as mulheres brancas: "Ao me amar, ela me prova que sou
merecedor do amor branco. Eu sou amado como um homem branco. Eu esposo
a beleza culta, branca, a branca brancura. Quando minhas mãos
incansáveis acariciam seus seios brancos, elas se apossam da
civilização e da dignidade brancas e as tornam minhas." (Ela não pode
acreditar que ele quis escrever "dignidade branca".)

Ela pára, olha para seu esposo: - E então como deve se sentir uma
mulher negra quando o seu homem negro deixa um Playboy na mesa do
café?

Pela primeira vez ele entende completamente uma frase que sua esposa
leu no dia anterior: "A indústria pornográfica explora o corpo das
mulheres negras de uma maneira qualitativamente diferente de como
explora as mulheres brancas", porque ela está mostrando a capa de
Jivers para ele e perguntando: "Com que essa mulher se parece?"
O que ele tinha se recusado a ver - pois ver revelaria uma outra área
na qual ele se acha incapaz de proteger ou defender as mulheres negras
- é que, enquanto as mulheres brancas são retratadas como "objetos",
as mulheres negras são retratadas como "animais". Enquanto as mulheres
brancas são representadas pelo menos como corpos humanos, senão como
seres, as mulheres negras são representadas como merda.
Ele começa a se sentir mal. Pois compreende que comprou muitas, senão
todas, as publicidades sobre mulheres negras e brancas. E depois
disso, inevitavelmente, ele comprou a publicidade sobre si mesmo. Na
pornografia o homem negro é retratado como capaz de foder qualquer
coisa... até um pedaço de merda. Ele é definido apenas pelo tamanho,
prontidão e promiscuidade de seu pênis.

No entanto, ele ainda não sabe fazer amor sem as fantasias com as
quais as revistas e os filmes o alimentaram. Esses filmes e revistas
(cuja caracterização dos personagens é irrelevante ou antiética no que
lhe diz respeito) que se insinuaram entre ele e sua esposa, fazendo
com que a totalidade do corpo dela, sua inteira realidade corporal se
tornasse estranha para ele. Apertá-la com luxúria significa
automaticamente fechar os olhos. Fechar os olhos e... ele sorri com
amargura... sonhar com a Inglaterra.
Durante todos esses anos ele tem fodido a si mesmo.

No começo, lendo Lorde juntos, eles recusaram a idéia de se separarem.
Depois, descobriram que precisavam de um tempo separados para clarear
a cabeça, desvendar as feridas, se curarem. De qualquer modo, ele se
sente incapaz de forçar uma resposta; ele não quer que ela o faça. Ela
parte por uns tempos. Sozinho, ele logo procura ansiosamente a revista
que havia jogado fora. Ele se masturba furiosamente diante daquelas
lindas mulheres, espalhadas como melões a sua frente (ele começa a
perceber como os estereótipos mudam). mas ele não pode negar o que
sabe - ou que sabe que sua esposa sabe, caminhando em alguma praia num
país negro, onde todas as mulheres são descoradas e alisadas, e os
homens nunca olham para si mesmos; e são feios, de qualquer maneira,
na sua imitação do homem branco.
Muito antes que ela volte, ele lê os seus livros e pensa sobre ela - e
em sua luta sozinha e no medo e no medo que ele tem de comparti-la - e
quando ela volta, é sessenta por cento o corpo dela que ele move na
luz do sol, a própria carne negra dela confirmada pelo brilho dos
olhos dele.

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