sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sobre o sensível e a arte

Cá estou eu estudando, mas tive que parar para falar porque me lembrei de muitas coisas...

O texto disparador foi "Modesta proposta para proteger os jovens dos produtos da poesia", de Hans Magnus Enzensberger (Livro: Mediocridade e loucura e outros ensaios)...Já li algumas poucas coisas desse cara e tudo que li até hoje foi um tesão de epifanias consecutivas...

Ele está falando da interpretação "correta" e seus riscos, sua autoridade despótica e nojenta dos críticos de arte, da leitura(e interpretarei isso como "leitura de mundo", num sentido bem Paulo Freire mesmo) enquanto algo tão livre e tão microscopicamente dependente de cada partícula de universo que há em cada ser humano, que chega a ser anárquico...Texto delicioso e fantástico, que me fez lembrar muitas coisas...

O primeiro fato que me lembrei foi a Vernissage, há uns 10 anos atrás, da exposição "Cabeças", da qual um quadro meu participou porque era a exposição dos alunos, e eu fazia aulas de pintura na época...Eu sou um verdadeiro desastre nas artes manuais, e eu tinha meus 11 anos na época, obviamente meu quadro era um quadro de criança, com uma maturidade de uma criança que quer fazer cabeças coloridas felizes em uma festa...E só.
Então, estava eu lá, orgulhosíssima de estar em uma exposição (acontece que nessa época, por ser boa aluna mas ser "feia" e um verdadeiro desastre em competições esportivas, eu tinha um enorme orgulho intelectual, uma arrogância nojenta típica dos nerds que eu só fui começar a desfazer nos meus humilhantes 4 anos de Química e nas minhas reflexões sobre beleza e esporte além do mercado...enfim...), e veio uma mulher, uma psicóloga, e fez uma enorme interpretação "psicológica" do meu quadro, dizendo que expressava sentimentos maduros da minha psiqué, e que expressava a coletividade, a percepção das pessoas como diferentes e o universo individual de cada um, as cores produziam um efeito do meu inconsciente, e um monte de outras interpretações DELA que meu ego confirmou, como se eu realmente tivesse pensado algum dia naquilo tudo...Eu era uma criança, pelo amor de Deus! Era só uma "festa" retratada, as cores eram cores porque eu adoro colorido, e a cabeça que representava meu pai era verde não porque eu queria expressar tal sentimento, e sim porque meu pai gostava muito de verde e ponto, mas isso no fim pouco importa à quem vai ver o quadro. Eu confirmei tudo pelo meu enorme "orgulho nerd intelectual", o ego inflado por uma "especialista" em mente humana que tinha visto uma inteligência sobrenatural do autor do quadro, exatamente como o autor do texto diz que os autores traem seus leitores ao serem cúmplices dessa interpretação "correta" da leitura...

Lembrei-me também de um dia, vendo uma cena montada por um grupo de teatro lá de Santos, que assisti em um lugar mágico chamado "Café Teatro Rolidei"*, e um amigo meu engenheiro me disse: "Isa, eu nunca entendo nada dessas coisas artísticas, do que querem dizer...me explica?", e eu, no meu orgulho intelectual nerd de atriz de teatro amador (na época eu estava num grupo de teatro há um ano), apesar de não estar entendendo bosta nenhuma, interrompi o deleite que eu estava sentindo (era uma cena bonita demais, com poucas falas bastante desconexas, mas a atriz olhava tão longe e sorria tanto que era intrigantemente inexplicável a sensação de alegria que a cena dava) para dar explicações vazias de filmes de Hollywood - como não bastasse ser orgulhosa, eu era bem tapada...hehehe...

Tive que me despir desse orgulho para voltar a dança, para saboreá-la de verdade como a saboreio hoje, ainda que ande ultimamente bem atrapalhada com as técnicas...

Esse lance de que a arte não deve ter interpretações "corretas" é ótimo. Lembrei-me de uma discussão recente com o Capi(meu namorado, p/ quem não sabe...) sobre o filme surreal "Um cão andaluz", do Buñuel. Eu não entendi nada do filme, mas morri de aflição o filme todo. E o Capi me deu a seguinte sacada: não é para entender, é para sentir. "Arte é para sentir". Fato, é disso que trata a estética, a arte: criar algo para sensibilizar o espírito, para desencadear emoções e nos colocar o desafio de sermos mais humanos, de refletir, de nos intrigar e enlouquecer no inexplicável...nenhum outro ser é capaz disso, e andamos correndo cada vez mais o risco de perder nossa capacidade estética enquanto nos voltamos à incessante produção insensível e irreflexiva - e logo estaremos como animais, num Admirável Mundo Novo...

Essa necessária verbalização de tudo, conceituação, páginas e páginas de explicação sobre obras artísticas. Tudo nós temos que verbalizar...será? Isso é desumanizante - e fazemos isso com a arte e com o que sentimos, fazemos isso com o amor, o desejo, com Deus... está lá a ciência bestialmente procurando o DNA de Jesus Cristo no Santo Sudário, endocrinologistas dosando hormônios do "estar apaixonado" (e o amor vira umas doses a mais de oxitocina, que absurdo!!), geneticistas e sociólogos provando por A+B o porque uma pessoa deseja alguém do mesmo sexo, acadêmicos do IA tentando conceituar que Chico Buarque queria dizer isso ou aquilo e blá blá blá...Socorro!!!!

Eu não faço idéia de como se explicaria uma escobilla (trecho do baile Flamenco em que se sapateia, particularmente minha parte preferida do baile), mal entendo o que se canta na música, não sei porque os compassos do tangos se dividem em 4 tempos e o da soleá em 12...E isso pouco importa, não é nada disso que me faz dançar e nem saber das técnicas é o que faz a minha dança arte(não estou negando o valor da técnica). Eu sinto a dança, ela entra em mim e me move, me desperta, mexe em algo inexplicável que me motiva a reflexão, a ação, o movimento, e o que eu sinto ao dançar ou assistir a um espetáculo é que faz daquilo uma arte. Isso vale para a capoeira, para o amor pela minha mãe, para meu desejo por doces, para minha revolta...

Numa sociedade em que o que sentimos é sempre subjugado a uma razão científica, sempre colocado de lado em nome da produção e do mercado, em que não escolhemos o que consumimos - simplesmente por estarmos alienados a tudo o que é produzido, não temos idéia da onde vem nosso chester de natal, ou como funciona nossa câmera digital, caímos na armadilha da tecnologia do especialista, e nem o coletivo nem ninguém domina o todo - a arte corre o sério risco de perder seu maior trunfo, o sensível...cada vez mais ela vira uma coisa funcional, que serve a um determinado fim, seja ele o fim dos dinamites ou da alienação do ser. Onde está a nossa humanidade?

E aí, realmente, fica muito fácil cair no "para que serve a poesia?"; retiramos da poesia e das artes sua essência, e a colocamos como simplesmente apologia, bomba, alienação...Não temos mais o livre sentir, não sentimos as dores de cabeça porque estamos cheios de aspirinas, seja no corpo, seja nas interpretações. E assim, discriminamos as interpretações "certas" e "erradas", ao invés de trabalharmos nossos sentidos...

Assustador, terrivelmente assustador...


*quem for a Santos, não perca...Funciona no Teatro Municipal de Santos, tem uma entrada salgada de 15 reais mas vale a pena - é um bar temático em que você é atendido por personagens, interpretados por um grupo de teatro; tem banda e dancinhas engraçadas, e no meio da noite fazem cenas teatrais; além do espaço ser um enorme cenário e de ter vários figurinos que todo mundo pode vestir; e os drinks são deliciosos, tem muitas opções sem álcool tb; a grana toda vai para custos básicos e projetos de fomento a arte na cidade, os atores são voluntários...

Um comentário:

  1. o verbal é uma forma de representação muito poderosa, mas tem seus limites e suas armadilhas. o esforço de traduzir o mundo inteiro pra esta representação ignora as armadilhas e os limites, e constrói uma ilusão perigosa pra qualquer cidadão e qualquer sociedade.
    o digital é a mesma coisa.

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