segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Infidelidade, choques e palavras

Aqui estou mais livre....
Mais liberta daquele maldito quarto com velhas energias...
Enfim...
Esses dias todos vendo o que eu fui criada para ser, a patricinha que eu deveria ser (eu ia ser uma patricinha revoltadinha, claro, mas que ia achar que voluntariado é uma chance para o mundo...típica capitalista humanitária eu seria, como já fui) e fico pensando onde foi que eu desviei do caminho....Fui fundo na minha memória e na minha consciência, e me deparei com umas coisas engraçadas...

Eu sempre fui uma peste de curiosa...aprendi a andar com dez meses, e ia mexer nas coisas todas, para o desespero da minha mãe e dos cristais caros das minhas tias...Primeiras palavras? Nem mamãe, nem papai. "Daicensa", vindo dos bravos "Dá licensa" que dizia minha mãe para tirar minha mão das coisas todas...Começou assim.
Falei muito pouco, meus pais meio preocupados, e um belo dia com 2 anos e meio(quase 3), eu comecei falar, falar, falar, uma matraca, desimbestei falar tudo de uma vez...Nunca mis parei...
E cresci assim, me metendo a fazer as coisas...E meus pais, superprotetores, me ensinaram a ter medo do mundo...E eu nunca fui do tipo que retruca broncas, na verdade eu sempr fui bastante passiva...Mas aquela curiosidade desesperada que eu tinha me subia, e eu acabava fazendo as coisas e levando bronca, e como eu descobria coisas gostosas fazendo o que não devia, eu acabei pegando um certo gostinho pelo proibido...

Minha mãe sempre teve medo que eu engordasse, cresci nessa nóia de engordar desde muito criança...E um domingo fui na casa de uma amiguinha e tomei sorvete(tinha uns 8 anos, sei lá quantos) e contei p/ minha mãe. Ela brigou tanto comigo, que eu entendi uma coisa triste: as palavras me traem. De agora em diante, vou fazer tudo e não contar para ninguém.

E conforme eu ia crescendo, eu fui desenvolvendo a capacidade de desdobrar minha vida entre satisfazer minhas curiosidades e vontades e o que eu falava p/ pessoas. Assim nasceu minha vida dupla, de um sorvete e uma bronca.

Até o dia em que eu tive minha primeira vez. Pela primeira vez, alguém tinha uma informação minha que poderia me machucar se espalhada...Claro que a bronca veio antecipada, fui criada numa sociedade machista, e me senti uma puta, como era de se esperar. Porque, por mais apaixonada que eu estivesse, eu não fiz por "amor", eu fiz porque eu já não aguentava mais de curiosidade, porque eu já não podia mais segurar a minha vontade...Durante pelo menos uns três anos isso foi um segredo de estado...Exceto para ele e, no caso do pouco caráter, dos amigos dele. Pois bem. Eu sabia já que as palavras traíam, mas um belo dia eu descobri que situações também traem. E pela primeira vez, por uma festinha de um pessoal do teatro, em que eu passei dos limites dos fúteis e falsos bons costumes, eu soube o que era não se sentir uma puta simplesmente, mas receber um dedo na cara te falando isso. Mas as pessoas também sabem que as palavras traem, então elas diziam isso com o olhar.
Este tipo de fato se repetiu algumas vezes, o suficiente para que eu me perguntasse todas as vezes mas afinal, qual era a maldita diferença de fazer as coisas entre quatro paredes e no meio da rua, qual era o problema de afinal de uma mulher querer satisfazer suas vontades, e por que as pessoas me diziam coisas do tipo: se vc não quer se sentir uma puta, pare de agir como uma. Ou seja, pare de procurar.

E foi assim, virando o pé quando caminhava na linha, que eu caí fora do caminho...As pessoas se chocavam comigo, que coisa maluca, se chocavam e ficavam absurdadas...Acho que por esconder palavras e nunca conversar eu nunca fui suficientemente reprimida antes de fazer nada. E aí eu fazia e não tinha consequências...Que nem criança, sabe? Depois não aguentava o esporro do mundo... Hehehe...

Em todos os processos em que conversei antes de fazer, por exemplo o lance de ficar com meninas, eu sempre me resolvi muito bem...Não que eu voltasse atrás e deixasse algo por fazer, mas eu fazia de uma forma que o choque fosse mais tranquilo...

Mas o resto, eu sempre acabei chocando as pessoas, elas tinham um moralismo que esperava um não sei o quê, e eu as feri com as maluquices que fazia...E as perdia...e negava, neguei tanta coisa que eu na verdade amo , já me neguei até como feminina, dá para acreditar? Tudo porque esse lance de chocar as pessoas simplesmente não é a minha, eu nunca gostei de chocar ninguém. Na verdade eu sempre fui até meio passiva, nunca gostei de bronca...

Acho que, de alguma forma, fui criada com valores errados desde sempre. Claro que fui criada num básico de "valores certos", e na verdade eram esses valores, a ascensão social, a competitividade, a monogamia, que o mundo esperava de mim...Mas existia uma revolta dos meus pais, principalmente da minha mãe, um certo tom indignado e absurdado com a fome, a falta de educação e saúde no mundo, que entraram em mim de uma forma particular...Um certo tom intimista de quem já viu a fome de pertinho, de quem pode imaginar isso. E se revoltar com isso é um valor errado hoje. O certo é vc se conformar baixar a cabeça, rezar, não importa de que lado você esteja. Sei lá, de uma forma maluca eu associei minha curiosidade e minhas vontades presas e renegadas por estar em um esquema que não permite experimentções (só se elas forem um produto de mercado, claro) à fome, à sede, e tudo se tornou então completa e assustadoramente paupável para mim que hoje já virou completamente indissociável. Mas é louco como as pessoas se chocam com qualquer um que tenta levantar só um pouquinho a cabeça, sem nada de fios ou correntes elétricas...

De tanto chocar as pessoas, eu acho que fico assim depois de um tempo, transbordando tudo, vomitando tudo com palavras, que só depois de muito tempo não ficam me traindo por aí...E o mis louco é quando as pessoas se chocam, dizem que me admiram, dizem que eu sou mais feliz e mais livre, mas não fazem a si mesmas nenhuma pergunta do tipo "por que estou falando isso?" e continuam sentindo-se infelizes e presas. E aí, se chocam comigo de dez em dez minutos, e eu fico aqui, me explicando, me explicando, me explicando...Eu volto às mais doces traidoras, as palavras...

Por hoje é só. Que não me traiam estas doces, pois meu corpo me mandou dormir, e eu sou uma menina obediente.

Um comentário:

  1. Cara... muito bom... queria escrever assim... você realmente conseguiu pegar tudo o que eu penso e colocar em palavras!

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