sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Conhecimento Popular...

Um bolo, um café, um fim de tarde. Sento-me à mesa com seu Tião, caboclo de 72 anos de histórias para contar, jardineiro, poeta e educador.
Depois desses 5 meses de convivência, conversas, risadas, eu aprendi demais com o seu Tião, e quero aprender mais ainda. Muito além de complicadas aulas de botânica, estética de poesia, incompreensíveis textos de filósofos da economia, teorias inúmeras sobre o aprendizado da criança e a afetividade na escola, muito além dos partidos "revolucionários" que disputam seus cargos nos três poderes, dos gritos surdos do movimento estudantil, dos remédios com nomes químicos complicados, está o seu Tião e seu conhecimento popular, de quem viveu e VIVE muito...Seu Tião me ensinando sobre as luas boas para plantar, me ensinando a cozinhar melhor e mais saudável, me contando como funciona a política "cinza" e a "propriedade intelectual" de seu projeto nas escolas, seu Tião me contando que conhece gerações e gerações que pegou no colo, seu Tião sonhando e FAZENDO o coletivo e a revolução acontecer, seu Tião e os chás que curam tudo, a dama da noite na frente da casa como repelente de mosquitos, seu Tião e suas histórias gostosas de anos com mochila nas costas, seu Tião recitando poesias de autoria própria antes dos mais deliciosos almoços...

E ele me diz: aproveite a vida, porque ela passa rápido, eu estou aproveitando a minha. Ele me fala isso como se fosse, para o resto do mundo, um jovem de 20 anos...Muito diferente do discurso derrotista dos infelizes de 40, que acham que a felicidade está nos 20 anos...Nunca vi o seu Tião lamentar seus 72 anos, nunca vi alguém achar que ele tivesse mais de 50, nunca vi o seu Tião deixar de ir uma única sexta feira dançar forró...O que, aliás, ele faz deliciosamente bem.

E detalhe: ele faz absolutamente TUDO a pé. Vai trabalhar, comprar mudas p/ jardim, supermercado, forró. A pé. Isso me impressiona muito, eu que sempre fui meio preguiçosa e medrosa de andar na rua. Só anda de busão se vai ao centro.
O seu Tião é uma das pessoas mais sábias que conheço, seguramente. E uma das pessoas mais revolucionárias com certeza. Seu Tião lida com mundo partindo do pressuposto de que o ser humano é bom, e isso eu acho o mais fantástico de tudo. Não é uma fé tola, vazia, cultuando livros, filósofos, deuses, imagens, é a fé de quem conhece tanto do mundo e dos homens que consegue distinguir sistema e natureza humana. Trabalha com crianças, jovens, presos, deficientes, políticos de muita grana, trabalha com gente suficientemente diferente para saber que as pessoas estão contaminadas pelo sistema que criaram, mas não são naturalmente ruins. Essa não amargura com o mundo, essa alegria intrínseca, essa vivacidade que dizem alguns ser "juvenil", me inspira, me alegra, me dá uma esperança...

Não é a toa que o sei Tião me lembra a minha avó...Como eu sinto a presença dela quando estou com ele...A relação com a terra(minha vó entendia tudo de chás, xaropes, e sempre tinha uma arruda em casa), as frases sábias da cultura popular, as piadas - quase sempre cheias de palavrões e de cunho sexual - que ela contava morrendo de rir, as costuras que ela fazia, a comida deliciosa e cheirosíssima que ela fazia(como a do seu Tião...), o jeito meio debochado e absolutamente sincero de falar de sexo comigo...Eu me lembro do cheiro doce do quarto dela, perfumado e cheio de bonequinhas, de ir comprar pano no centro com ela e meu pai, lembro do carinho que consegui dar p/ ela, da mão dela quando ela falava(um gesto típico dela, geminianos sempre mexem muito as mãos), do sotaque meio pernambucano e meio carioca...Mas mais do que isso tudo, eu lembro do exemplo que ela é para mim, como é o seu Tião...

Com tudo o que sofreu minha avó, ela não se vendeu, nunca. Me lembro da minha última conversa com ela...Num leito de hospital, por um maldito câncer, uma tarde de sexta feira, sem nunca perder o senso de humor:
- Mas Isadora, vc gosta mesmo daquele rapaz, que sua mãe fala?
- Não vó, não(mentiraaaaaaaaaa, huahuahuhua)...
- É, eu não dei sorte no amor não...
Adendo - minha vó namorou meu avô, um português mulherengo e machistão típico, que, como era de se esperar, arrumou outra...e minha avó não aceitou que ele tivesse outra...Quando descobriu, tomou um porre de rum e mandou ele catar coquinho, mesmo com uma filha e o estigma de mãe solteira; encontrou outro que a prometeu mundos e fundos, foi afastada da minha mãe, que morou um bom tempo com meu avô por isso(não sei exatamente porque, só sei que minha mãe e minha avó ficaram um tempão longe e que tem a ver com esse outro namorado da minha avó) e esse outro foi embora e sumiu, deixando-a com outro filho nos braços...enfim, um covarde imbecil...E minha vó era uma nordestina não branca, sem casa própria, que morava onde trabalhava e criou assim meu tio...
- Uma vez, Isadora, apareceu um advogado, bonitão, rico, não queria saber se eu tinha filho, se eu era virgem, se eu tive estudo ou não, ele queria casar comigo...
- Ué, vó, mas por que a senhora não casou com ele, ele podia ter te dado muita coisa!
Ela me olhou com uma cara de "é óbvio" e disse:
- E Isadora, como eu ia casar com ele se eu não o amava?

É, aprendi muito mais com eles que com os postulados da matemática.
Minha avó me dizia que tinha estudado burrologia, se dizia burra, mas sempre me perguntava como escrevia uma palavra tal, como funcionavam as coisas, que era tal coisa e o que era outra...A prática da reflexão constante dela me inspirava a ir pesquisar e descobrir o mundo...
Eles dois sabiam/sabem muito mais, e me ensinam tudo assim, sem um único dia de faculdade.

Coletivo, amor, reflexão, bom humor, felicidade? Esses valores errados eles me ensinaram, e eu me emociono de lembrar dessas coisas...Isso é o conhecimento popular.

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