quarta-feira, 15 de julho de 2009

Sobre o amor livre

Mercantilizaram tudo.
Comida, água, sexo, amor, conhecimento, beleza, cultura, saúde...

Mercantilizaram tanto que chegamos no ponto em que, para ter algo de bom para nosso próprio corpo, temos que ir num especialista, e não sentir o que nos dizem os sentidos, não refletir sobre isso, não pensar, só consumir.
O tempo todo.

Tudo tem valor de troca; se um lápis custa menos que a caneta, ele é mais que ela; se um animal vale menos que um creme de passar na cara, ele é menos que esse creme; chegamos ao ponto que o próprio "veículo" da troca tem mais valor que aquilo que se usa: dinheiro vale mais que o nosso bem estar, que a nossa felicidade, que o nosso ambiente.

Mas pior que isso é que nós mesmos nos vemos com valor de troca, nós mesmos nos consideramos mais e menos pelo quanto o dinheiro nos compraria, e isso dividimos em papéis sociais, em produtos, nos transformamos em uma maquineta comprável; se o médico ganha mais que o lixeiro, ainda que a saúde dependa mais das condições sanitárias que de qualquer tratamento de cura, o médico sempre será mais, terá mais direito a ser respeitado; se a amante é só uma moça bonita com quem se sacia uma vontade e a esposa lava as cuecas e faz o almoço, a esposa produz um valor de uso que dá mais liberdade para o chefe da família produzir mais valor de troca; se o capitalista careca e gordo investe nos lugares certos, ele tem tudo no mundo, porque produz valor de troca, e o bóia fria não é nada, apesar de carregar duas toneladas nas costas tds os dias...

Cadê quem questiona isso? Não quero discutir o salário do médico ou do lixeiro, nem se é melhor a esposa ou a amante, ou o capitalista careca e gordo e o bóia fria. Desmercantilizar o mundo é, antes de tudo, questionar se somos pessoas ou se somos só pregos, roldanas e polias. Nenhum de nós, nenhuma classe, está fora dessa lógica, cada uma tem sua função na enorme máquina do capital, na qual todos somos escravizados. É isso que temos que quebrar, não deve existir médico e lixeiro, amante e esposa, bóia fria e capitalista: estamos assim definindo as pessoas por seu valor de troca, e não pelo que elas são.

Não pensamos no Antônio que gosta de estudar astronomia nas horas livres, gosta de teatro e adora doce de amendoim, pensamos no doutor Antônio que ganha 10 mil. Não pensamos no José que veio lá da Bahia, joga uma capoeira como ninguém, toca pandeiro nas horas livres e que tem 5 irmãos unidos e felizes, pensamos no lixeiro que não tem nome, coitado, ganha tão pouco. Não pensamos na Leila, que sonha com a liberdade, que brincava de bola com os moleques da rua, que estuda de noite e trabalha de dia, que ama sorvete de morango, que sonha em ter um filho, pensamos na vagabunda que está saindo com o Dr. Antônio que, coitado, se rende aos seus decotes.
Não pensamos na Maria Alice, que adora plantas e animais, que gosta de estudar astrologia e ver os filmes do Almodovar, pensamos na chifruda mulher do Dr. Antônio.
Não pensamos no Reginaldo que faz repente como ninguém, fiel a mulher com quem é casado há 10 anos e que sempre que dá compra aquela boa e velha rapadura, pensamos no coitado do bóia fria que não tem nome, que é uma foto bonita do Sebastião Salgado e compramos a foto!

E cruzamos os braços, e não repensamos, temos medo de pensar!!!

E isso é tão introjetado dentro de nós, isso já está tão assustadoramente colocado, que nós mesmos nos colocamos valores de troca, nos comparamos entre nós como produtos de mercado, nos vendemos pelo cabelo mais liso, pelo músculo mais bem feito, pela inteligência que mostramos ter falando no nome de Platão, pela blusa com a cara do Che, pelo celular mais novo. Somos uma propaganda, atiramos pedras nos outros quando nos julgamos mais vendíveis e em nós mesmos quando nos julgamos inferiores a concorrência.

Um cara vê sua namorada levando uma cantada e vem bater no outro cara, p/ mostrar que é mais forte, ela vê o namorado conversando com uma menina mais magra, mais jovem, e pára de comer até aparecerem seus ossos, e a difama, quando o engravatado engomado com diploma unicamp cospe no cara com um terno emprestado 2 numeros maior, com o diploma da unip, e aí o engravatado é assaltado no semáforo mais próximo pelo mesmo cara em que cuspiu...

A competição, o ciúme, a fofoca: valor de troca.

Se queremos de verdade tentar a revolução, precisamos quebrar nossos tabus; precisamos nos fortalecer e mostrar quem somos, precisamos, antes de mais nada, revolucionar as relações humanas....

Isadora Franco, 15 de julho, 15:24.

Um comentário:

  1. Adorei o post.

    Marx tem uma frase muito pertinente, nos "Manuscritos econômicos e filosóficos":

    "A desvalorização do mundo humano aumenta na razão direta do aumento de valor do mundo das coisas"

    O sujeito não vale pelo que ele é, mas pelo que possui. O "ter" se sobrepõe ao "ser". Isso em todas as esferas: amor, família, amigos, trabalho.

    Como já dito, isso é característica do sistema. É imperioso, portanto, mudá-lo ;)

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