domingo, 26 de julho de 2009

A la Cuba

Ontem assisti um filme sobre Cuba, Habana Blues...
Legalzinho, um cara gato, música cubana, tal...
Mas eu tenho uma grande birra de qualquer filme que coloque a questão da vontade de sair de Cuba sem problematizá-la da forma devida...
Pois bem, aqueles jovens sonham em ser músicos lá fora, sonham em ganhar dinheiro e ter mais de um par de sapatos, comer carnes e doces todos os dias, poder viajar e tal...

O regime não é perfeito, claro. Existe uma censura, óbvio, é um país socialista, e para os que falam que "socialismo não pode ter ditadura", pois bem, que leiam um pouco melhor os pressupostos adotados - é uma ditadura sim, há um domínio do estado sim...Não vou nem entrar no mérito de questionar qual é afinal o real problema disso, já que me tomaria o post todo(e mais uns outros), já que estamos nessa merda de falácia em que democracia=liberdade e estes são valores "inquestionáveis"...enfim, um dia eu juro que falo o que penso sobre isso.

Ainda existe machismo, ainda existe racismo, homofobia então nem se fala...Opressão existe, mas vejo lá um processo mais sólido e maduro de combatê-la que aqui, em que tudo cai no mercado - se vc é um nicho do mercado, todo mundo tem que te aceitar; se vc pode ser força de trabalho barata para o mercado, explorar vc é inclusão social - como fazem com tantos transexuais e com tantas mulheres negras ou obesas, a atender telemarketing, e com tantos deficientes físicos/mentais a empacotar nos caixas de supermercado -o que não por acaso me lembra o Admirável Mundo Novo....

Mas vamos lá: em que país pobre(e até alguns ricos, como o Brasil) do mundo a maioria dos jovens imagina que poderia viajar p/ outro país? Em que país do mundo os jovens chegam a idade adulta com o mínimo de estudo, saúde e comida, a ponto de reclamarem por não terem mais que um par de sapatos, por terem "apenas" 51% dos jovens na universidade, por existir toque de recolher, por não poderem ouvir Beatles, como citado no filme?

Os jovens brasileiros das nossas periferias têm celulares, muitos pares de sapatos, tudo comprado com parcelas eternas, trabalham ao invés de estudar, e por isso nunca vão querer ouvir Beatles, Bossa Nova, ou qualquer outra manifestação artístico-cultural genuína e valorosa, ouvem eguinha pocotó e essa mercantilização do funk(que veio das próprias periferias, e o mercado corrompeu e vendeu), não têm acesso a saúde nem a formação nela, as meninas não tem muito controle sobre sua sexualidade(o controle que tem é "vou ao baile sem calcinha", sucesso de vendas), sendo submetidas a gravidez indesejada e doenças, todos os jovens comem comida entupida de gordura trans e outras porcarias industriais, correm risco todos os dias de serem mortos pela polícia ou pelo tráfico simplesmente por estarem no lugar errado, e o maior sonho de ascensão social é virar traficante de drogas, se não se afundarem no crack....

Quem tem mais poder de decisão sobre a própria vida, afinal? Qual dos dois jovens?
E o que é afinal liberdade, senão poder decidir sobre si mesmo?

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