domingo, 10 de maio de 2009

Meu Big Bang...

"Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem". Rosa Luxemburgo.


E o tempo parou...

Dada a proposta, de se escrever sobre uma sensação, um sentimento, uma mágica, na hora pensei em escrever sobre o momento que mudou minha vida para sempre, meu ponto de partida, o que deu significado maior de minha vida; o que me despertou para o meu maior desejo, que estava escondido nas entrelinhas de meu coração. O meu Big Bang, que explodiu a energia concentrada em minha infância e expandiu meu universo. Sinto que isso me trouxe aqui a esta sala de aula, e sinto que será a única oportunidade de explorar este fato.
Um certo dia 15, de um certo mês de março, uma certa sexta-feira, acordei cedo, mas não foi para ir à escola. CDF vaidosa e curiosa que sempre fui, odiava perder aulas... A razão? Um fim de semana, com alguns colegas e um professor da escola, promovido por um projeto de incentivo ao protagonismo juvenil, para experimentar com outros jovens e professores de outras escolas e realidades o que era montar um projeto social. Na real eu tinha entrado nesse lance meio de gaiato, meio de curiosa, eram umas reuniões que faziam na minha escola uma vez por semana e eu ia porque achava legal e não tinha nada mais legal para fazer... Naquela época, eu sonhava ainda em ser jornalista, e acabei sendo sorteada como representante da minha escola para fazer o jornal do projeto, o que me deixou empolgada.
Voltando àquele certo dia, eu acordei de mau-humor... Sei lá, mó saco, ia viajar um fim de semana para um sítio, com um monte de gente que não conhecia, uns colegas da escola de pouco tempo... Até tinha o professor legal e a Rob´s, minha amiga desde muito tempo, mas era só. Bom, lá fui eu, meio arrependida, meio puta da vida, entrei no ônibus, meti o fone de ouvido com o “discmann” olhando para a janela, e me fechei. Ao meu lado no ônibus a Rob´s ficou conversando com o pessoal.
Ali centrada no meu mau-humor, sinto uma cutucada da Rob´s e tiro o fone.
- Isa, tão tocando CPM – disse ela (naquela época, eu ainda consumia esses narcóticos musicais... Pior que “crack”...).
Pensei: “meu CD está com a Sarah, e é um som de violão... é, vamos ver”. Desliguei o “discmann” e fui para o corredor de ônibus.
Aí, o tempo pisou no freio, freando loucamente rápido até parar, e capotar minha vida; lentamente, fui virando o rosto, vi duas meninas baixinhas e sorridentes que me deram oi, vi uma almofada do Corinthians em cada detalhe na poltrona, vi um violão vibrando as cordas, e chegamos finalmente à velocidade zero; o tempo parou. A explosão, o Big Bang. Os olhos que me encaravam e frearam o tempo, aqueles olhos que me encaravam como ninguém nunca tinha me encarado, daquele menino de boné virado para trás, aquela explosão de tempo infinito, imensurável, indeterminado que durou aquele olhar, a reação que aquele olhar gerou...
Naquele momento, meu corpo mudou. Senti uma euforia correndo pelas veias, os pêlos ouriçados, o arrepio quente, a descarga deliciosa de adrenalina, a boca salivando, o suor, o cheiro mágico que vinha dele e de mim; meus músculos ficaram estáticos, porque meu coração consumia toda a energia do meu corpo, batendo a mil, como nunca; naquele momento, naquele olhar, minha mente foi fecundada, por uma estranha certeza, senti-me molhada, aberta, invadida, como um rio de águas violentas que toma a terra seca, ávida pela chuva.
A latente energia que eu nunca havia partilhado com ninguém, que sempre havia ficado restrita às minhas buscas secretas e curiosas pelo meu próprio corpo, os segredos que descobri e guardei de mim mesma, naquele momento, naquele olhar, eu partilhei pela primeira vez. Eu que há muito já sabia o que era o prazer, eu que há muito já sabia que não achava só os meninos legais, eu que há muito já imaginava como seria partilhar do prazer... Naquele momento eu entendi que era ele, o menino de boné virado para trás, que me arrancaria de mim mesma, ele que me mostraria o que sou para mim e para os outros, ele que me faria movimentar-me pela primeira vez, a esbarrar nas correntes que me prendiam, como um rato que vai à cela roer a ensangüentada prisioneira amarrada.
Naquele momento, naquele olhar, eu saí da infância, eu cresci. Entendi o que é ficar inebriada, louca, à flor da pele, entendi o que é querer ser livre sem medir conseqüências, entendi que lutaria até a morte por isso.
E assim, minha vida começou: despertando para o amor da minha vida, o auge das liberdades, o maior dos prazeres, o sonho de todos os corpos, a inspiração maior dos hedonistas. Num olhar, o sexo entrou na minha vida. E o tempo parou.

2 comentários:

  1. UAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAL!!!!
    Adoreeeeeeei Isa! Ui,o tempo parou.Tem que parar,tem que parar.Adoro formas poèticas de falar de sexo! HAHAHA
    Ótimo e corajoso texto! =)

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  2. que PUTA coincidência eu sentir essa saudade e vir aqui ler exatamente o ultimo post, que fala do que eu mais pareço estar em contato: sexo!

    relembrar como foi o meu primeiro silêncio me fez ver mais do que eu gostaria. e vejo que preciso mesmo voltar pra terapia.

    de longe, mas totalmente perto - quase dentro. e definitivamente com saudade de ti...

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