sexta-feira, 8 de maio de 2009

Sobre a reportagem de José Serra e a dicotomia Teoria/Prática

E-mail em resposta a polêmica criada por uma reportagem com declaração de Serra, na lista de emails dos meus colegas de classe....

Reprotagem:

http://etnografianovirtual.blogspot.com/

Segue...
Beijo p/ quem é de beijo.


Caros colegas,

Já aviso que este email está longo e expõe uma visão de mundo minha bem particular. Mas não poderia deixar de ser, porque eu tenho muito medo de onde essa estranha dicotomia entre teoria e prática vai nos levar...eu odeio dicotomias. Peço que, se vocês se interessarem pelo meu email, leiam até o fim para não me interpretarem erroneamente, ou senão o desconsiderem.

Obrigada e desculpas pelo tamanho e por ter ido longe demais do debate "prático"...mas toda prática traz uma consequência maior....

Beijos e atés...Isa

Vamos lá:

1 - me apresentando à discussão:

- Pensando um pouco na disciplina que fiz semestre passado "Escola e Currículo", com a prof. Carminha (de quem sou fã absoluta, hehehhe); um pouco nas discussões que tive com nossas veteranas que estão concluindo o curso, antes da minha mudança definitiva p/ cá; na forma como transformaram o currículo do químico com licenciatura (que não era educador em química) para o do "técnico" em ensino de química, que foi exatamente o que vivi na licenciatura em Química; nas minhas experiências no estágio da licenciatura em Química; nas salas de Projetos de EJA que me envolvi e que ainda estou envolvida; nas aulas particulares que dei para vestibulandos bem abastados; nas salas do Cursinho em que dei aula; no projeto de educação popular em que trabalhei; e, acima de tudo, na expectativa que tiveram e têm esses meus alunos(que sempre me ensinaram muito mais do que eu a eles), vou colocar alguns pontos sobre o currículo do nosso curso de Pedago aqui na Unicamp...

2) antes de pensar no currículo em si:

- essa professora que eu disse é de uma comissão (desculpem o vago de minhas informações sobre isso) do MEC, que analisa e controla as condições dos cursos superiores de Pedagogia: tem curso de porta de estrada por aí que aluga biblioteca para receber a comissão. Isso mesmo, não tinha biblioteca, mas como é obrigatório por lei, alugava uma. Cursos estes que são "baratinhos", pedagogia é um curso barato de abrir, que dá para arrancar um bom lucro desse pessoal que quer ter uma condição de vida um pouco melhor, e busca um diploma universitário...Essa é a relação mercadológica desses cursos. O cara que trabalhou a vida toda, que não tem saco de estudar porque não tem nada que lhe interesse muito, que tá cansado do trabalho e vai prá aula a noite, depois de uns 3 busões...Esse é o pedagogo formado. Tem também os cursinhos de sábado, que são até mais baratos e menos chatos, olha que legal! Diploma expresso, como o café de máquina. A empresa educacional lucra milhões, o cara consegue o diploma, na sua única chance de tê-lo, passa a ganhar uns 600 reais ao invés de 500, entra na sala de aula e prova que dois mais dois são 5, os alunos continuam jogando bolinhas de fogo...e ainda se assustam que a escola esteja um lixo. A gastrite é dolorida... Mas é claro, o problema é o excesso de teorias, afinal, esses universitários leem bastante...

3) Currículo do curso de pedago:

- Segundo a disciplina que discutiu muito currículo, o curso de pedagogia surge no Brasil na década de 30, com o intuito inicial de formar acadêmicos para pensar a educação na sociedade. Ou seja, inicialmente, não íamos ser professores, íamos ser pesquisadores...Essa definição do curso passa por uma óbvia teorização de tudo, um modelo de pesquisa que reflete sobre uma prática que não tem(ou seja, um absurdo, refletir sobre uma prática fantasma)...Ele até ganha uma licenciatura pouco tempo depois, mas só toma as proporções de formar professores que tem hoje com o fim da escola Normal, ou seja, com o fim da formação de professores somente em 2ºgrau...

- O que isso representa? A universidade tem um caráter muito diferente da escola, pois é onde se faz pesquisa, ou seja, teoria, e onde se pensam as práticas da vida e se constrói a Ciência. Sendo assim, espera-se que um curso universitário tenha uma base teórica sim, pois quando vemos a educação como algo mais que uma transferência de conhecimento, quando a vemos num âmbito de construção social e cultural para uma determinada sociedade, regida por um determinado contexto sócio-econômico, o mínimo que podemos fazer é estudar, além da sala de aula em si, Sociologia, Filosofia, Antropologia, Psicologia, e até algumas coisas que não estão no nosso currículo, como Economia, Direito, Filosofia das Ciências Exatas e Ciência Política. Isso nos dará uma base crítica, impossível num curso com enfoque técnico...Por exemplo, essa é a diferença entre um curso técnico em Química e um curso universitário...O formado pela técnica sabe calibrar os peagâmetros(medidor de pH), mas quem saberá as implicações do pH resultante é o químico. Isso é formação crítica, aquela que nos tira do senso comum, aquela que nos faz - seja para reproduzir a nossa sociedade, seja para transformá-la - autônomos para decidir sobre o que queremos e refletir sobre as práticas que temos...Seja para a direita, esquerda, centro, frente, trás, costas, acima, abaixo, circular...Pouco importa. É a formação crítica que nos liberta.

- Enfim, é claro e óbvio que só a teoria não te fará um bom professor (seja lá o que for "bom"), assim como não te faz um bom engenheiro, um bom economista, um bom químico, um bom político...Pensando que a teoria é uma reflexão sobre a prática, como ter uma teoria sem ter uma prática?

- Conversando com nossas veteranas, no meu ano passado de questionamento constante sobre se ia mesmo para a Pedago, se não devia fazer outro curso, se devia fazer faculdade, para que fazer faculdade, blá, blá blá, elas me disseram: o curso de pedago é meio que dividido em duas etapas: 1) façam a revolução e 2) como se adaptar ao sistema para não perder seu emprego (palavras minhas). Ou seja, nosso curso é dividido entre teoria e prática. Por que é tão importante termos teoria no começo? Para sairmos do senso comum. Mas essa teoria que vemos são só algumas das reflexões possíveis; que, além disso, na minha opinião são pessimamente lidas na maioria das vezes, como se fossem imediatas condutas a serem aplicadas pela fé em deus Marx todo poderoso que lhe dará a terra prometida do socialismo, a solução do mundo...distorcendo o próprio Marx. E aí tudo vira utópico. Ou seja, substituindo uma prática sem reflexão por outra. O que acontece entre a primeira parte e a segunda? Para mim, parece que a primeira parte não questiona muito a si mesma. Simplesmente cai naquelas de "a educação tem que mudar", argumenta porque, fala fala fala, lê mil marxistas (e praticamente só eles, não lê nem Marx nem outros, e lê muito pouco sobre os clássicos do sistema...o que eu acho um absurdo), e nos retira de um senso comum....e joga em outro. E depois de fazê-lo, depois de nos manter dois anos em sonho revolucionário, nos jurar uma terra prometida, nos acorda e joga nos estágios, nas disciplinas de ensino de matemática, português, geografia...Enfim, nos dá a cartilha. E aí, como nas minhas conversas com a professora que dá aula comigo no EJA, que também fez Unicamp, que também sonhou, eu só vejo a mesma cartilha na sala, talvez apenas com um pouco mais de afeto pelos alunos...Dar voz é perguntar como está o filho da Elza. E quando dou aula e anseio por algo diferente, eu que já escolhi de que lado estou, já pensei demais em como mudar a prática que tinha e tenho, já me assutei com as dúvidas dos meus alunos, abastados ou não, nas aulas de química que dava (que geralmente não tinham nada a ver com átomos, e sim com análise sintática), eu não sei o que fazer.

- E aí? E aí que fica nessa discussão eterna de um mundo diferente, sem pobres, sem violência, mas sem mudar uma linha na cartilha...Alguns desses pedagogos viram acadêmicos de renome, discutirão a terra prometida doutrinando novas ovelhas para seu rebanho revolucionário, que se manterá no cercado seguro da universidade...Alguns optarão claramente por seguir o modelo vigente, e também ficarão na academia, dizendo que a história acabou, formando técnicos perfeitos em ensinar o moleque a sentar direito na cadeira. Outros, a maioria de nós, acabarão indo para a sala de aula, dizendo que o curso é lindo, mas o "ditado" e o "complete as lacunas com ss ou ç" é o único jeito de ensinar a ler....Bom, e aí manteremos o sistema, independente da escolha que tivemos. Por quê? Porque não somos autônomos na nossa reflexão. E sem autonomia de reflexão, caímos no ponto de que absolutamente qualquer coisa é utopia...caímos no maldito pragmatismo técnico...

- Bom...essa é minha crítica ao que tenho visto até agora do curso e o que vi e pensei olhando bastante para ele e refletindo se eu o queria mesmo ou não. Esses todos foram motivos que me fizeram pensar que não queria.

4) sobre o que o governador falou, e consequências da técnica....

- Não vou destilar meu ódio anti-tucano, porque não acho que ele seja um argumento suficiente, o ódio que sinto é apenas o que sinto pelo que vejo por aí...Partirei de seus próprios argumentos e extrapolarei as consequências.

- Antes de mais nada, o senhor governador deveria pensar em aumentar as verbas para a educação pública, que são vergonhosamente pequenas no estado de São Paulo, inclusive para as privilegiadas "porcarias" de universidades sobre as quais ele tem poder político e econômico, ele dá a grana, e na qual ele mesmo se formou economista (aqui na Unicamp, que é uma das escolas mais diferenciadas, de base teórica marxista e "humana" - no sentido de contrário a "exata" - do país). E isso não é discurso de esquerdista não: educação é meio de controle público. Não é simplesmente um direito, é uma forma de moldar a sociedade sem precisar de tanta polícia. É condizente com um estado neoliberal minimamente inteligente e centrado em manter-se no poder que mantenha a educação bem controlada para a formação do operário, para divulgar o valor meritocrático, para justificar o pobre, para fingir que existe democracia. Não é a toa que os eua tem um sistema público de ensino básico. O Estado pode dar conta disso, deve dar conta disso, para manter o próprio neoliberalismo. Parece que essas coisas o tio Lula entendeu melhor que os neoliberais mais antigos, como os tucanos... Se o nosso governador quer criticar os cursos de Pedagogia olhando simplesmente para o currículo, é no mínimo um descuido neoliberal. Professor revoltado é uma autoridade com a porta aberta ao questionamento, perigosíssimo...ainda mais tendo no seu currículo uma teoria que mostra que as coisas não precisam ser assim....já pensou se ele acredita? Haja polícia...

- Mas se o cara não precisa refletir, abre então um curso técnico, ué... Coloca o cara na sala de aula junto com um professor mais antigo, olha que legal, dá uma ajuda de custo para ele pegar o ônibus até a escola, deixa ele um, dois anos lá, enquadra como estagiário, afinal, ele estará aprendendo na prática o que acontece, aprenderá tudo sobre como dar a cartilha...pronto. E fica baratinho, ó!

- Se é para criar uma peça de máquina, pronto, formatado, com pouco gasto, no "curso" técnico. Mantém uma polícia forte, e mande bombeiros a queimar os livros como em Fahrenheint 451...Queimemos todas as teorias, afinal o que vale é a prática, queimemos todas, não importando se vêm da direita ou da esquerda, da Europa ou da África, queimem Marx, Bakunin, Chavez, Castro, Idi Amim, Florestan Fernandes, Marilena Chauí, Paulo Freire, Gilberto Freire, Fernando Henrique Cardoso, Prouhdon,Adam Smith, Ricardo, Aristóteles, Taylor, Ford, Descartes, Darwin, Hitler, Gramsci, Platão, Trotsky, Lenin, Newton, Einstein, Kropotikin, Mário de Andrade, Lévi-Strauss, Saramago, Lavoisier, César Lattes, Plínio de Arruda Sampaio, Frei Betto, Stinner, Skinner, Vigotski, Piaget, Freud, Fauerbach, Santo Agostinho...(metade da grafia desses nomes deve estar errada)...Queimemos tudo, a história acabou, agora é a técnica, o corpo é uma máquina, você é uma máquina, e máquina não sonha, a máquina produz, não despenda energia com outras coisas, a dissipação de calor é a maior consumidora das energias da máquina, não tenha filhos para não perder o emprego, não se apaixone para chorar nos filmes de Hollywood, não vá passear no parque, não olhe para o azul do céu, se mate se não puder trabalhar, se acabar sua utilidade. Bem vindo ao Admirável Mundo Novo.

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