terça-feira, 14 de abril de 2009

POR UMA EDUCAÇÃO PROFANA

Enfim, enfim....enfim tirei um tempo para escrever e articular meus últimos devaneios educacionais/artísticos/sexuais/ políticos....
Desde ontem de manhã estou devaneando por causa de uma discussão de sala....E o JJ, meu mais convergente colega de turma disse uma coisa mágica, juntou duas palavras que eu amo, mas nunca tinha lincado...ele disse alguma coisa do tipo" se estamos aqui por uma EDUCAÇÃO PROFANA..."
Profanaaaaaaaaaaaa.....um, dois, três orgasmos múltiplos nessa hora, profana, profana, profana...EDUCAÇÃO profana, PROFANA educação...
E eu tô pirando nisso, não sosseguei a estudar ontem antes de ir atrás de um dicionário e achei as seguintes definições: "PROFANO - Adj.1 - não relacionado com a religião; 2 - não sagrado; 3 - contrário ao respeito às coisas sagradas; Sm. 4 - aquilo que não se relaciona com a religião."(Def. do Dicionário Unesp, Português contemporâneo - Francisco S. Borba)....

E o que seria então uma educação profana?

Pensando em Educação Popular e Paulo Freire, retirando deles, usaria o conceito de conscientização na educação como processo de transformação pessoal e social que experimentamos na dialética com o mundo. Essa educação instrumental, que se parece tanto com o ensinamento de ofícios ao longo de milênios da história ocidental, que ensina a ordenar letrinhas mas não a sentir as palavras, a discuti-las, a dissertar sobre elas, essa educação que nos ensina aos pedaços, que divide, estratifica e classifica, que julga que aponta, que condena e louva...
A merda com a lógica evolutiva, classista, a merda com essa educação industrial, que nos aprisiona a mente, que nos obriga, que nos escraviza, que nos emburrece, que nos faz ficar estagnados resolvendo exercícios mecânicos de literatura, física, história, química, matemática, línguas, como se cada um desses conhecimentos fosse um caixote a ser decorado, como se nada tivesse sido criado e inventado a dinamizar nossos sentidos, como se essas artes só tivessem técnicas...aí é claro que pretensos artistas negam a técnica, afinal, ela foi valorizada demais nas outras artes! Cadê os sentidos, cadê o sabor das coisas? Aprisionam nossa mente nos sentidos que as coisas podem ter!! Nos aprisionam e não nos deixam criar, não nos deixam imaginar, injetam drogas educacionais que nos alienam, nos afomentam, nos condenam a sermos eternamente prisioneiros, a nunca conhecermos a nós mesmos!! Nos trancam fora de nós!!

E por falar em aprisionar a mente, essa educação que nos aprisiona o corpo, nos violenta em carteiras padronizadas e duras, nos castra nas possibilidades de movimento, aprisiona o corpo sem a dor da palmatória, nos proíbem o toque, nos proíbem o som, a fala, nos limitam as vistas ao quadro e aos uniformes sem cores, padronizam nossos cheiros em desodorantes que tentam disfarçar nossos feromônios, nos proíbem o sabor das coisas, das peles salgadas, as salivas doces...E é uma violência calada, implícita, hipócrita...A merda aulas longas e chatas, a merda ficar calado e não se mover....Tudo para o bom funcionamento da fábrica, apessoal, mecânica, perfeita, concentrada...

E por falar em corpo aprisionado, a merda a forma como nos educam a nós, mulheres, a ser "decentes", e colocar a todas nós, que não conseguem se adaptar, no limbo das vagabundas, das que merecem a violência, das que fizeram por merecer....Coloco e lembro das travestis aqui...

A merda sentar de perna fechada, cruzada, formigante, a merda essa educação que nos coloca abaixo, que nos obriga a provar que somos tanto quanto os homens, a merda essa proibição de mostrar o que há por baixo de nossas saias e além de nossos decotes, e mais a merda ainda usar essa mesma hipocrisia, essa mesma lógica de dominação para moldar nossos corpos e vende-los em salas de estética, revistas playboys e anorexias!

EU QUERO O FIM DESSA EDUCAÇÃO, EU QUERO A EDUCAÇÃOQUE LIBERTA, QUE DESENVOLVE A CONSCIÊNCIA, A EDUCAÇÃO DA VERDADE, A EDUCAÇÃO DA ARGUMENTAÇÃO, A EDUCAÇÃO DA LIBERDADE, A EDUCAÇÃO DA DIGNIDADE!

E falando em argumentação, vamos ao PROFANO:
Quais são as bases argumentativas de nossa educação (e de nossa sociedade ocidental) hoje?
Bom, temos a moral...A moral, a moral, a maldita dos meus textos, sempre, afinal, muita gente já me agrediu(psíquica e fisicamente) usando desse tipo de argumentação....E o que é a moral? A moral é um conjunto de valores de uma dada sociedade, valores que permeiam o incosciente coletivo, o incosnciente de uma classe, que são muito pouco contestados e que, quando contestados minimamente, se mostram pouco infundados, lacunares, ideológicos(bem marxista o termo, heheh)...Bom, a moral então é, na verdade, um caráter da cultura de uma dada sociedade...Claro que as pessoas só começam a pensar mais quando são estimuladas a isso, elas não acordam do nada e começam a pensar em elefantes cor de rosa sem nunca terem ouvido falar, visto, ou passeado num elefante cor de rosa. Portanto, por mais que a moral nos incomode tremendamente(como me incomodou por tanto tempo), não necessariamente isto foi suficiente para disparar a reflexão de contestá-la...
Ok então, e em que se baseia a moral nossa??
Bom, depois de milênios de sociedade patriarcal, mulheres renegadas ao espaço privado, o trabalho braçal, apesar de ser fundamental para manter o homem, ser menos valorizado e renegado por um bando de parasitas exploradores, a organização da educação ter se mantido por milênios nas mãos de uma religião específica - a católica, a igreja -, o sexo ter sido atrelado a reprodução, e por isso sem sentido ao todo da população o desenvolvimento de qualquer sexualidade fora disso - só para os homens que pudessem pagar uma boa puta, ou um bom eunuco, tudo meio escondidinho, claro - , depois de milênios de brigas entre etnias e culturas diferentes em diversas partes do globo, e tudo isso, absolutamente tudo, como a antropologia quer nos fazer acreditar que é característico da nossa espécie, tudo fundamentado e siginificado numa série de explicações, textos, registros, poemas, paidéias, mitos, religiões, repetições de explosões, soluções, estatísticas, relógios, papéis sagrados, enfim, tudo fundamentado e significado com uma base que hoje deu origem a uma coisa maluquíssima que é a Ciência...

Claro, não esquecendo que no fim, ou no começo, não sei, tudo vem da fome e da sede, do pavor que a fome e a sede nos trazem quando chegam, a fome e a sede provocadas por uma organização que explora, que mata, aliena e maltrata ainda - a despeito do desenvolvimento dos meios de produção - 1 terço da população mundial...Essa incoerência, de construir um aparato enorme se justificando em não sentirmos fome nem sede, mas matar de fome e de sede uma parte enorme da população, mas não matar como quando se atira com uma arma, matar por roubar a vida, por roubar a energia, por expropriar os sentidos. Não é a morte que assusta, a morte virá, e isso é fato; é a fome e a sede, causada para poucos, a expropriar a vida da maioria...No prático, é isso.

Pois bem, voltando, e em cima do que foi construída a ciência? Bom, em cima de um castelo de areia, de significações antigas, em cima também da religião...e apesar de sua pretensão em descrever, em explicar, em analisar o mundo, até tornar-se uma verdade absoluta, essa ciência que produz-se nela mesma, e continua justificando a velha moral judaico-cristã, essa ciência que é passada na escola ao colocar-nos em cadeiras a repetir a tabuada, essa ciência que me diz que tenho menos desejo que o homem, que as pessoas se atraem por feromônios do sexo oposto, que os negros são geneticamente mais propensos a serem alcoólatras, que sou mais fraca que um homem, que o operário é menos inteligente que o patrão, bla bla bla, essa ciência se baseia em métodos ARBITRARIAMENTE escolhidos, essa ciência implica num INTERESSE de quem a faz, e essa ciência que se propõe objetiva NUNCA SERÁ objetiva, porque NENHUMA EXPLICAÇÃO É RACIONAL, simplesmente porque o ser humano NÃO É RACIONAL. E nesse sentido, tomamos a ciência como mito, religião, explicação infundada ou com fundo duvidoso, tão premonitiva quanto a bola de cristal da cigana, e tão certa quanto o juízo final; em resumo, como uma música do Raul, conversa para boi dormir. E compreendendo a ciência como uma base da moral; compreendendo a ciência como baseada na religião e sendo um mito também, vou além da laicidade....

Vou ao PROFANO! Não se trata de proibir que as pessoas tenham religião...Eu não proíbo nada! Mas eu quero ir além do não ser religioso; o profano desvincula da religião, o profano coloca como não sagrado, o profano retira da dualidade de bem e mal quando é o não sagrado, o profano é contrário a religião, que eu significarei como contrário à argumentação da base da organização da nossa sociedade em cima de um mito, de uma significação maluca! Cada um que dê a sua, mas eu que não interfira na sua e você que não inferfira na minha, cazzo! E aí está a educação profana, numa educação anti-mítica, anti-religiosa, anti-científica, para construir um mundo consciente, prático, digno e LIVRE!

Bibliografias?
Me ajudaram neste devaneio:
Ultraje a Rigor - Pelado, Sexo, Vamos Virar japonês, Zoraide
RAul - Rock do diabo, Todo mundo explica, Eu Sou egoísta, Caminhos, Conversa para Boi dormir
PAulo Freire - A definição de consciência
Manacorda - História da educação
CAetano Veloso - Vaca profana(sempre), Quereres, Panis et Circenses
Ediógenes, Sydney, Sel, professores meus...
Colegas de classe: Todos, em especial o JJ e o João
A todos que têm discutido muito comigo, Capivara, pessoal de casa, Valentina..
E todo o resto da minha vida...eu ando numa piração ultimamente, sinto-me fecunda,
profunda, alucinada, criativa, louca, prática, linda, sensível ao mundo, aberta...feliz...

Um comentário: