sexta-feira, 17 de abril de 2009

Sobre a culpa burguesa..

Essa quarta feira fui a Santo André, assistir um ensaio de um projeto FANTÁSTICO que funciona no meio da favela, com tetatro do oprimido, nos moldes de Augusto Boal...Fiquei alucinada, ainda não conheço nada de Augusto Boal, preciso ler, mas o projeto é demais....Consegue conciliar trabalhar técnica de teatro de verdade com o que eles precisam e deles parte, o que a eles interessa e o que eles sentem...fantástico, alucinante, delicioso...a ponto de me fazer chorar no ensaio...Foi demais...incrível...enfim

No fim nos juntamos em roda e começamos a discutir sobre o projeto e o professor de teatro que o toca(um cara sensacional, por sinal, adorei ele) veio dizer que ele estava ali por uma certa culpa burguesa...
E eu lhe questionei se ele realmente era burguês. E ele me disse que era, porque tinha mais do que aqueles meninos da favela, porque não lhe faltava comida, tinha um certo conforto. E eu lhe questionei então o que aconteceria se ele parasse de trabalhar, e ele me disse: eu tava fudido!
Enfim...ou seja, classicamente este tipo de postura, até de um cara que tem um posicionamento político como o dele é tipicamente de classe média...tão operário quanto a gente da favela, mas continua pensando que é burguês...E aí, ele coloca o trabalho fantástico e politizado dele num patamar de fazer o bem, de solidarizar-se com a causa "deles", como se nós de classe média, por mais que não nos identifiquemos com a classe operária, por mais que nos iludamos achando que somos e ou seremos burgueses, como se nós não fossemos também oprimidos, como se nós também não sofrêssemos com o sistema, como se não fosse a nossa cultura submetida a uma cultura de mercado, nossa liberdade a uma liberdade de mercado(o que para mim já é uma puta opressão), como se nós não sofressemos com a violência que está nas ruas, mas acima de tudo nas televisões, como se não sofressemos a violência de servir de fantoche a essa lógica, a violência da não consciência, a violência de termos um mínimo de direitos simplesmente porque pagamos por um serviço...

Isso para não citar o fato de ser mulher e bissexual, que já representam mais dois fatores de opressão, já que uma boa parte da grana que gasto e do meu humor obrigatoriamente devem ir p/ depilação/shampoo/pedicure, porque afinal, mulher com pêlo é menos mulher, mulher feia é menos mulher e mulher de unha malfeita é porca; além, claro, de ter que ouvir, cada vez que beijo uma das minhas lindinhas meninas, um imbecil qualquer vindo pedir para entrar no meio...

Isso sem passar pelo fato de que eu não sou exatamente branca, nem exatamente paulista - qualquer piadinha rascista e de nordestino eu perco a cabeça e ainda acham que eu exagero...

Desculpa, eu não luto por solidariedade aos outros simplesmente, eu luto por mim, antes de tudo, cazzo!
Eu sou uma egoísta, na verdade...
E das mais egoístas...
A la Raul....

http://www.youtube.com/watch?v=KnYRQowDrWg

Um comentário:

  1. uma vez me disseram: o mundo se divide entre quem tem o capital e quem não tem. daí proletário é quem tá sem. ok, disse, mas a sociedade inteira sofre a força organizadora do capital, até o gordo-branco-com-charuto dono-da-empresa. daí me disseram que esse tipo de pensamento minava a consciência de classe: os capitalistas são os inimigos.
    eu aprendi, do cristianismo, a odiar o pecado mas não o pecador (a lição ficou pela metade, já que eu não vejo as mesmas coisas como pecado). o capital, catalisador da sociedade submissa à produção, é odiável. o humano preso sob sua ótica deve procurar sua libertação, e o que eu puder fazer para ajudar...

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