domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Câncer Discursivo

Uma questão tem rondado minha cabeça nos últimos tempos....

Muito legal ir para fora do país, ver coisas diferentes e pensar um pouco mais no próprio Brasil...
Mas antes de falar sobre a Bolívia e o Peru, e as mil conclusões que tirei nessa viagem (e mais um milhão de perguntas), vou falar de uma coisa que tem me perturbado demais ultimamente...

O que há de comum na imaturidade política do brasileiro, nas propagandas da direita anti nova constituição da Bolívia, no espaço em que se debate a legalização das drogas e do aborto, no comportamento de certos grupos de esquerda que dizem que você é menos revolucionário por ter entrado num shopping e tomado um sorvete do Mc Donalds e nas mil e uma pessoas que me chamam de puta por aí?

Simples: os argumentos para todos esses grupos são sempre baseados numa questão moral. A moral é um câncer argumentativo; é um problema sério de foco. As pessoas discutem coisas que deveriam estar no âmbito político num âmbito moral...

aí elegem o diplomado em Ciências Sociais, porque cultura popular é cultura gratuita(nesse país, popular=pobre, e essa cultura só é útil para o lucro das viagens da CVC, em shows caríssimos de maracatu...), e por isso não serve para governar o país...O Lula é mal presidente porque bebe cachaça e não whisky, e não porque faz um programa de destruição da universidade pública de qualidade, o Reuni, travestido de projeto popular de universidade... A direita boliviana conquista parte da paupérrima massa católica - 90% da Bolívia é católica - dizendo para escolher a deus e votar não na constituição que pode realmente revolucionar o país, simplesmente porque ela promove políticas de controle de natalidade, que é uma questão urgente na Bolívia(e olha que ninguém nem tocou no assunto do aborto!!)...

O debate da legalização das drogas fica num lenga-lenga de aumento ou não do consumo, a psicologização do "proibido é mais gostoso", e a balela do "proibido dificulta o acesso"(como se eu não conseguisse comprar cocaína dos meus coleguinhas de faculdade), como se esse fosse o maior problema que traz o tráfico, como se as drogas fossem a novidade do século XX e ninguém as usasse antes, como se os maiores gastos da rede pública de saúde não viessem do consumo de álcool e tabaco, drogas legalizadíssimas, e como se a indústria farmacêutica não igualmente viciasse, matasse e destruisse a nossa saúde; e o pior que quando você conversa com as pessoas sobre isso, elas acham que você defende isso por ser um zé ruela que se droga todos os dias, um junkie de veias estouradas e narina vermelha, te fazem jurar que você não vai provar essa ou aquela droga porque pode causar esse ou aquele efeito irreversível (o velho e eficaz terrorismo perante as drogas e o sexo, que irritante! A pior droga que eu já provei foi o cigarro - que eu compro em qualquer padaria)...mas elas não acham que você defende isso porque consegue ver que a ilegalidade das drogas só dá uma merda de argumento para criminalizar o pobre, para legitimar a ação da escrotíssima PM ao invadir casa de gente trabalhadora com o pretexto de que "favelado é tudo suspeito", e que a ilegalidade da droga traz alienação e desestrutura a classe que poderia ser muito revolucionária, exatamente a classe mais pobre do ambiente urbano, que sofre mas enxerga que existe a desigualade (ou seja, dinheiro não falta, senão, todo mundo seria pobre), e tem a maior possibilidade de ir a escola e ter contato com a educação...Onde está a esquerda que não levanta essa bandeira? Pois é, então...

A legalização do aborto então, é uma discussão ultrapassada nos países europeus, resolvida; Portugal legfalizou o aborto há pouco tempo, e é um dos mais conservadores países da Europa. Caralho, a constituição não é laica? Por que diabos eu não tenho direito a não acreditar nessa vida que todo mundo vê no feto mas não vê no moleque que a PM mata porque roubou uma moto? Isso é ridículo!! Enquanto isso, ficam estéreis e morrem todos os anos um número inaceitável de mulheres no Brasil pela ilegalidade do aborto. É moral matar mulheres? É moral o gasto que tem o SUS com as consequências de abortos mal feitos, em um país machista em que as mulheres ficam a mercê da vontade dos seus maridos, já que a cada 10 segundos uma mulher é agredida por um imbecil, seja porque ele está bêbado, seja porque ela não quer dar para ele, seja porque ela pediu para ele pôr camisinha, ou simplesmente porque ele se acha no direito de espancá-la? Um país que não volta suas políticas públicas de controle de natalidade e controle de epidemia de DST/Aids para combater o machismo que impede o sucesso desse dinheiro destinado a resolver esse sério problema de saúde pública? Cadê a moral católica que não vê a epidemia de Aids se alastrando entre as mulheres pobres? Esse debate é político, debate de saúde pública, e não moral!...

E o moralismo de algumas "esquerdas", travestido de "postura revolucionária"...tenha santa paciência! Claro, é preciso questionar as coisas, o Mc Donalds é um lixo e a ideologia do shopping é escrotíssima...mas imaginar que viver numa cabana e virar um São Francisco de Assis é a atitude mais revolucionária do mundo é ridículo, um engano, e um moralismo tremendo. A dialética é uma constante, a contradição é a base para destruir o sistema. A questão não é o que você come e veste que te faz revolucionário, não é ser de uma classe média ou baixa ou alta, não é o que você estuda na universidade(uma vez me disseram que eu não era revolucionária porque fazia química, que eu devia ir para Sociais para ser revolucionária, como se o sistema não tivesse criado o curso de ciências sociais...Bom, O FHC é sociólogo, Fidel é advogado, Che é médico... acho que isso dispensa o resto da discussão), nem em ser mais ou menos revolucionário, veja bem, isso não é uma competição com troféu...ou será que é, depois que seus complicados estudos de economia o levem ao poder e você esquecer do norte básico da esquerda?...A revolução está em transformar as suas atitudes, em como você trata a contradição que há em você, em como lida com isso, em como a transforma, em como a aceita quando preciso, em como age sobre ela para chegar ao sonho da divisão justa dos resursos, o norte da esquerda, seja dos anarquistas ou dos comunistas. Isso tem que ser posicionamento político, e não moral.

O fato de eu combater a moral como argumentação não quer dizer que eu não tenha a minha moral. Na minha moral, não como carne, frango, porco, Mc Donalds, procuro seguir os caminhos da não competição com outras mulheres(fomos criadas para ser assim, mas eu reluto!), tenho uma crise de consciência por ter um carro, estou procurando um mocinho ou uma mocinha revolucionários para me acompanhar na minha vida, sou decididamente pacisfista, procuro ser livre e independente(principalmente nas questões em que me dizem que eu não posso porque sou mulher, desde carregar malas a fazer balisas), vou para a cama absolutamente sempre que tenho vontade e companhia e tenho tentado manter a calma em discussões como essa. Mas a minha moral é minha. A minha moral não é utilizada nos meus argumentos. Tenho sim princípios políticos para ela, que são comuns aos meus argumentos, que eu tento manter na esfera política.

A moral, enquanto recurso argumentativo, é como um câncer, algo que nasce de dentro da argumentação, mas que é facilmente quebrável, é ideológico, é lacunar. Algo que só pode se consolidar em um contexto cultural, artificial e produzido, sem questionamento, e por isso mesmo extremamente perigoso.

E chega desse papo moralista!

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