terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Parresia feminista

Ah, a Parresia, linda palavra, que conheci num colóquio incrível sobre um cara chamado Maurício Tratengbreg...Todo mundo devia ler esse cara!

Parresia é um conceito grego, avesso a retórica, que significa "falar a verdade, mesmo que se corra riscos por isso"...Cara, isso é a alma da transformação, da transgressão, isso é o ápice da revolução!

Pois bem, sobre falar tudo...bom, eu sempre fui meio irritadinha, estressadinha, e gritava palavras de ordem em conversas de bar, palavras de ordem com pouco e parco embasamento teórico, pouca e parca reflexão sobre atitudes, mas a permanente e intuitiva indignação, própria de quem nasce no lado "errado" do mundo, o "utópico", o "inalcansável", o "hipócrita", o "maldito" lado esquerdo...bom, fazer o quê?

Sempre fui especialmente indignada em relação a prisão em que me colocaram por ter tido o enorme prazer de ser mulher. Enorme prazer porque eu amo ser mulher, não para usar saltos e cabelos vermelhos; eu amo sentir o ciclo da lua no meu corpo, no meu humor, amo o meu formato no espelho(mesmo quando abuso dos docinhos...), amo a forma como o prazer vem a mim, disperso, intenso, amo a minha forma feminina de sentir, o colo, o carinho das mãos, que não foram feitas para bater. É por isso que sou uma incondicional feminista.

Não, eu não odeio homens, não os quero escravos na cozinha, não os quero depilados, não os quero num maldito salto, não quero desmoralizá-los por serem homens que saem com muitas mulheres. Essa visão de feminismo(ridícula, por sinal), não ataca as raízes da questão; é preciso mudar a lógica, e não invertê-la. Não quero ser uma Idi Amim do feminismo, isso é revoltante e absurdo... E no que consiste minha ação de feminista? Aí está, na Parresia...

Pois é, hoje eu amadureci e demorei muito tempo para chegar nesse parágrafo aí de cima...bom, não tanto para chegar no parágrafo, mas na ação que dele implica. Já quis ser muito má com os homens, desprezei-os depois de certa noite, os xinguei, quis sua cruz, mas chorava bastante com as pedras, tão semelhantes as que jogava por aí, e delas me escondia com um discursinho furado de mentir, fingir...Eu não queria jamais um cara machista, e era obrigada a ouvir que eu provavelmente ia acabar sozinha(quer maior machismo que esse, dizer que eu tenho que mudar meu jeito de ser, pelo menos falar menos, porque senão homem nenhum ia me querer? Será que alguma mulher me aceitaria, penso eu? heheh...Idéias machistas e homofóbicas,uai, quem disse que eu quero um homem? E quem disse que eu por ser mulher vou ser infeliz se não tiver alguém? A mulher vista como frágil e incompleta...). E como impedir machistões? Pelas atitudes, ué, é fácil saber se ele vai te julgar por ser livre: seja. Pois bem, um dia eu fui livre e não fui julgada por isso, aliás, fui amada por isso. Hehehe, homem perfeito? Não, apenas um capricorniano de esquerda...O homem perfeito tem que ter ascendente em libra! hehehe...

Aproveitei a deixa para sacar várias coisas...conclusão? Que, apesar de dizerem para maneirar em meus textos, apesar de me dizerem para tomar cuidado com o que pensam de mim, apesar de me chamarem disso ou daquilo, eu digo hoje, calmamente, a pura verdade, sem competir com homem nenhum. Já estou aprisionada demais em malditas depilações, leis inconcebíveis a um estado laico, o risco permanente de um imbecil qualquer achar que porque eu dou para todo mundo tenho que dar para qualquer um(essa frase é memorável, hehehhe, da primeira mulher a usar um biquíni no Brasil) e me chamar de vagabunda porque eu não vou dar para ele, etc e tal, para estar presa também a proclamar o que penso e faço. Isso porque eu não me preocupo tanto com os padrões de "beleza" da sociedade, com todas as neuras competitivas que nos ensinam desde muita pequenas com as coleguinhas, tento me livrar dos mil nojos e da idéia de que sou uma "mocinha indefesa"...

A parresia deve ser permanente...A parresia é aliada, é o ser e fazer de verdade...Ela tem melhorado até relações mais complicadas minhas, como com a minha mãe, tem melhorado minha felicidade comigo mesma....

Mas claro, para praticar parresia é preciso que se tenha muita coisa em mãos...
A vergonha do que se faz deve ser a primeira a calar-se. Faz parte do admitir o risco, a vergonha é um enorme instrumento de violência simbólica, um enorme repressor.
Vergonha dos erros do caminho?Admitir os erros é o primeiro passo para a reflexão, e não devemos ter medo de errar, mas devemos ter cuidado para não errar...
Outra coisa que se precisa é argumentação. Vixe, essa é bem difícil de conseguir, precisa ler muito, discutir muito, e pensar mais ainda... não para você sair pregando ao seu coleguinha, mas para manter-se sempre no seu eixo e fazê-lo pensar também. Ler só não basta, discutir só não basta, pensar só não basta; a reflexão precisa de conhecimento, flexibilidade e muita disposição.... É preciso estar preparado a defender-se, sempre; é preciso estudar tudo, conhecer o argumento do outro para não se surpreender, e pensar o tempo todo...
Mas o que não deve faltar, como todo bom sábio chinês diria, é calma. Com ela, se vai longe...quem tem argumento e está realmente convencido do que pensa não precisa de violência. Sem calma, não se assume o risco, e aí é que eu acredito que resida o ditado: Quem não deve, não teme. Dever é algo inerente ao que se acredita, e se você realmente acreditar que não deve, não há então o que temer. Pelo menos não em se falar a verdade....

É preciso tomar o risco, mostrar a cara, pois não adianta convencer as paredes do quarto e matar os mais fanáticos opositores. Grito e gritarei sempre, eu amo a liberdade, e quero exercê-la femininamente. Se para fazer a revolução a minha volta, para quebrar minhas correntes, eu preciso da parresia feminista, esta será minha aliada, minha parceira, minha arma.

3 comentários:

  1. Vc é simplesmente fantástica! Sem mais comentários... tô com mta saudade!

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  2. parresia é o mal no coração.
    é sério, mas espera eu me explicar.

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