sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Da vagabunda ao poliamor

Quando eu era criança, me lembro de ouvir as incríveis histórias da minha avó materna. Tinha espeial admiração e prazer em ouvil-la contar de seus namorados simultâneos e seus casos paralelos. Embora eu me identificasse na infância mais com minha avó paterna (não sei bem porquê), a ideia de parecer com ela no quesito relacionamento me causava muito estranhamento, já que ela se casou com um homem que mal conhecia, que tinha "se apaixonado" por ela depois de ver sua foto, linda que era minha avó paterna. Coisa estranha.

Passei boa parte da infância brincando de namorar. Sempre tinha um namoradinho. Tive um desses que durou 3 anos, e acabou quando um dia eu achei aquela coisa de ganhar presentinhos e não dar beijo na boca algo para lá de chato, o que aconteceu ao mesmo tempo do que veio a seguir.
Na adolescência, porém, depois de uma pré-adolescência conturbada, cheia de tesão e liberdade reprimida (em nome da minha segurança física e psicológica, é claro), paixonites gigantescas e platônicas e, o pior de tudo, muito assédio sexual que sofri de meus colegas de escola (pois é, o tiro de segurança restringindo liberdade saiu pela culatra, como sai qualquer segurança que parta de um princípio heterônomo), a ficha caiu e eu saquei: sim, eu sou muito parecida com minha avó materna. Inclusive em uma certa porra louquice, eu diria, particular.

Graças a minha mãe eu ouvia alguns discursos meio anti machistas e socialistas em casa. Combinados com os ideais implantados pelo meu pai, de cristianismo em suas leituras mais a la gauche(ao menos foi isso que absorvi)- igualdade, amor ao próximo e a si mesmo, divisão do pão e do peixe, o que me fez sair correndo rapidinho do catolicismo quando soube o que era a Inquisição - eu fui me tornando uma figura meio braba, e sempre meio questionadora, mesmo antes de saber fazer as perguntas certeiras. Como quando tinha 2 anos, e sem saber falar, desafiava meu pai a me mandar dormir, um homem de mais de cem quilos, a frente de uma menina que nem 1 metro tinha, na porta de meu quarto.

E além de ter na adolescência passado a me identificar cada vez mais com a minha avó, eu me entendia cada vez menos.

Primeiro, eu tinha interesse mesmo, tesão de verdade, em alguns caras que quase nunca eram os que "me respeitariam" - quando eu achava que respeito era algo oposto a desejo. E isso obviamente não é uma leitura só minha: existe um cisma em nossa cultura de que respeito é inverso a desejo. Ou seja, relações de amizade são de respeito, e relações em que há desejo já tem em si um pressuposto desrespeitoso. Pois é, passei por maus bocados nessas: o cara da minha primeira vez, por quem eu ardia de tesão até o último fio de cabelo, foi comigo um típico babaca, contando por aí que eu era uma vagabunda. E eu mesma acreditava nisso. Mal sabia eu que era sim a primeira, mas não seria a última vez que eu passaria por isso.

Demorou para que eu de fato tivesse qualquer contato sexual com alguém além dele. E quando tive, advinha a fama? O caso foi muito grave para minha socialização com o mundo três vezes: em uma, perdi qualquer diálogo sincero com as pessoas com quem fazia teatro, que me olhavam torto. Na outra, fui humilhada com meu nome em portas de banheiro, nas piadas das pessoas, quase ninguém se manteve meu amigo, eu ouvi risadas por muitos meses ao passar na rua,  tive que me explicar para pelo menos umas 5 ou 6 pessoas que viriam a ser amigas minhas me perguntando se "as coisas horríveis eram verdade" - foi horrível, passei 1 ano vagando sozinha e me perguntando por que eu não ia embora de vez dali. O último me rendeu uma série de violências sexuais - porque se vc acha que aquele seu comentário maldoso sobre a menina que, em tese, "deu para todo mundo" não fez mal a ninguém e/ou ela merecia, vc não tem ideia do que isso legitima em termos de violência, vc não faz nem nunca fará ideia do que é ter alguém penetrando seu corpo contra a sua vontade dizendo que vc mereceu - e humilhações públicas por meses, e olha que nesse eu nem fiz nada tão absurdo assim, apenas trepei com o cara errado, na casa errada. Pelo menos tivesse desfrutado de mais corpos. Teria sido melhor.

Nessas, eu tentei por algum tempo me apaixonar por caras decentes, tipo os meus melhores amigos. Eles me inspiravam tanto desejo quanto um javali, e se interessavam tanto por mim quanto se interessariam por suas irmãs. Passei um tempão morrendo de ciúmes e desejando loucamente que eles fossem meus, meus, MEUS, achando que querer um cara com quem eu teria filhos e que jamais me estupraria ou me humilharia publicamente era abdicar daquele prazer com o qual eu sonhava no fundo do meu inconsciente, aquela volúpia que me fazia sentir o sangue correr nas veias....Ah, que força tem o tesão.

Mas depois de ser muito, muito humilhada, e de tantos conselhos bem intencionados - mas opressores - de minhas amigas, de tantos caras que disseram me amar, sempre com um ar de "apesar de vc ser assim, meio vagabunda", eu decidi: Se eu precisaria "largar essa vida" ou ia ficar para sempre na insegurança da solidão, eu escolhi ficar sozinha. Entre liberdade e segurança, depois de tanto abuso que passei mesmo com tanta segurança, que me custou tanta liberdade, eu jamais escolheria a segurança. E fui ser feliz com outras coisas, fui entender o mundo, fui viajar, fui, sei lá, plantar batata e pensar noutra coisa. Desencanei do príncipe no dia que escolhi ser livre ao invés de ter alguém que está comigo por algo que não sou. Pois se eu era uma vagabunda, eu ia fazer o quê?

E o desejo? Ah, esse eu ia saciando com homens que eu fiz de objetos meus. E me sinto triste até hoje pelos 3 ou 4 que não agiram e nem agiriam assim comigo jamais. E me sinto triste por ter achado que liberdade sexual era o que o capitalismo prega: consumo de pessoas.

Um dia, porém, me apareceu uma figura com jeito meio perdido. E no jeito perdido, no entrave - incrível entrave - da língua, ele não sacou meu saco cheio depois de nosso sexo na grama, sob as estrelas - a primeira vez que eu claramente distingui um orgasmo - em terras mais livres que aqui. E ele se encantou pelo que todos lamentaram: que mujer libre eres tu. E eu experimentei algo que me era inteiramente novo: de repente, eu fui amada pela minha natureza. Eu fui pela primeira vez amada por ser uma vagabunda. Uma perfeita vagabunda. Amada por ter prazer, por me entregar, amada no meu corpo imperfeito, amada por desejar, amada pelo sexo. De repente, sexo e amor não pareciam coisas distantes, de repente eu olhei para alguém que me arrepiava todos os pelos do corpo e poderia ser o pai dos meus filhos. Foi uma mudança de paradigma, e foi também como se aquele amor próprio que eu comecei a cultivar no dia em que escolhi a liberdade estivesse ali, despontando da terra e encontrando o sol. E aí ele só cresceu.

Mas, embora amasse minha liberdade, ela ainda o ameaçava. E ao querer uma vagabunda só para ele, ao tentar infringir minha natureza de novo, eu visitei a culpa, a tristeza, e a prisão. E isso me desgastou, isso me corroeu no mais intrínseco da minha natureza. E eu de novo conheci a humilhação de ser subjugada, de ser fisicamente invadida, eu novamente pensei que merecia. Eu tinha medo que ele fosse embora, porque eu jamais achei que alguém mais no mundo poderia amar uma vagabunda como eu. Até que um dia outras diferenças entre nossas naturezas desfizeram nossa virtual união. E assim eu chorei, eu até pensei que o amor estava desfeito de novo, mas enfim, entre chorar e ser livre, eu ia fazer o quê?

E o mundo me aguardava muitas surpresas, é claro. Um dia encontrei um maluco de cabelo bagunçado que era um vagabundo também. A identificação nos tornou amigos, a amizade nos tornou mentalmente afinados, tão afinados que a mente só não dava conta.... Os corpos se uniram em uma bombástica e explosiva união. Dois vagabundos a potencializar a liberdade. Logo viramos 3. E foi com essa figura que, além de muitas outras pazes, eu entendi que minha vagabundagem, pela qual eu e minha avó tanto sofremos, era nada mais, nada menos que uma inaptidão inata para o padrão social de relacionamento: a monogamia. E foi com essa figura que eu entendi que eu e ele somos, na verdade, uma outra versão de amor, o poliamor. E de repente, desejo e respeito fazem parte de um pacote indissolúvel. Amor e sexo são formas extrapoladas um do outro. Liberdade já não é mais oposto a segurança. E foi assim que conhecemos a nós mesmos muito mais, e eu conheci de novo o sabor de andar de cabeça erguida. Eu tive o prazer, esse muito novo, de não me sentir em dívida com o mundo - ao menos não neste aspecto.

E depois disso tudo, vieram alguns outros amores que eu amei e amo muito, que eu quero muito bem. Que assumiriam meus filhos, que me fazem arder de paixão, que poderiam ao mesmo tempo brincar com cordas e cozinhar para mim no jantar, e que jamais tocariam em mim sem meu consentimento. Que jamais me julgariam vagabunda, ao menos não achando nisso algo de ruim.

Quando soube que teria um filho, eu tive muito medo. Eu me lembrei de cada violência que passei, cada dor, cada desvalorização que me imputaram e eu só tive como lamentar. Mas hoje eu percebo, depois de tanta coisa, de tantos caras incríveis que conheci, de tantos caras subjugados pelo patriarcado que em tese os favorece, que mais do que algo inato ao pinto, o machismo e o patriarcado que me subjulgou tantos anos por minha natureza é algo construído, talhado com violência no coração das pessoas. E eu me acalmei: a liberdade, por fim, há de desviolentar o mundo e curar suas feridas.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Astrologia em tempos de ceticismo

Esses dias conversava eu com Bernardo, que nem adianta taguear porque não vai ver, sobre astrologia - ele, que sempre foi até chato no seu ceticismo, tem começado a se interessar mais(é o ascendente em Aquário, derretendo a pedra taurina de seu ser com a passagem do tempo, chegando cada dia mais perto dos 28 anos).
Acontece que astrologia não é uma invenção baseada em imaginação inventada há 100 anos por meia dúzia de adolescentes bobonas, como adoram pintar por aí. É um daqueles conhecimentos mágicos de mundo - claro que não é ciência, nem quero colocar como se fosse, como adoram os religiosos de hoje em dia, até porque eu nem acho que ciência seja o único conhecimento válido que existe - forjados há mais de 3mil anos atrás, com observações minuciosas sobre a posição dos astros e o impacto da natureza sobre as pessoas. Porque, embora as pessoas hoje se esqueçam disso, quem define nosso calor escaldante de região tropical em janeiro e o frio dos países nórdicos, que não vêem o sol por meses é exatamente a posição do planeta em relação ao Sol - angulação, rotação e translação da Terra, o fato de ser elipse.
As constelaações são apenas uma coincidência, mas não só uma coincidência com datas de aniversário, e sim com determinadas estações do ano. As estações determinam muito a nossa volta e sempre definiram, mesmo em tempos de capitalismo e industrialização: se não definem mais o que comemos de maneira tão direta, com as frutas da época e os animais disponíveis para carne, ao menos ainda definem o calor e a umidade do ambiente.
Astrologia é um jogo complexo de arquétipos, que foi criado na regiao da Pérsia. Claro que muito mudou de lá para cá, e muito muda se mudamos de hemisfério, mas cabe a nós observar essas mudanças e adaptar leituras, entendendo suas limitações.
Este complexo jogo de arquétipos jamais se colocou como definidor de personalidades e de caráter, ela apenas correlaciona aspectos observados das pessoas com a natureza.
Acho curioso como em tempos de tanta ciência e psicanálise a gente não conceba que as primeiras sensações fora do corpo da mãe, tão exploradas em relação a ausência ou presença materna, não tenham a ver também com as primeiras sensações de calor e frio, umidade/secura, vestimentas ou nudezes. Que nao tenham a ver com os alimentos que nossa mãe come quando nascemos, comprovadamente tão influentes em nossos hábitos alimentares. Acho interessante como nos colocamos como seres tão descolados de toda a natureza e do ambiente que está a nossa volta, colocando toda a nossa formação apenas na relação que temos com outros seres humanos, e não com o todo em volta de nós. E nesse sentido a astrologia foi reduzida a uma babaquice para adolescentes.

Não se trata de acreditar em astrologia ou não. Mas de respeitá-la, como talvez uma das poucas vozes que ainda ligam nossos comportamentos aos nossos corpos, nossos corpos ao nosso habitat.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Pela maternidade (e paternidade) liberta

Dizem que a maternidade tira a liberdade da mulher.

Por muitos anos, as mulheres foram escravizadas por serem mulheres, simplesmente. Por muitos anos, não houve saída.
Um dia, nos cansamos das correntes. Precisamos concentrar as forças em quebrá-las. Fortalecemos nossos músculos para não usar os sutiãs queimados, colocamos calças, cortamos os cabelos. Primeiro nós precisamos de fato nos espelhar no masculino para provar que não eram nossas bucetas que nos proibiriam de ser capazes. Sentamos no banco do motorista, aprendemos a escrever e ler, aprendemos a lutar, e concentramos toda a força nisso.
Precisamos para isso, parar de carregar nossos bebês - que carregávamos aos montes, sem vontade, por aí. Arrastávamos junto com eles, também oprimidos pelo patriarcado, nossa dor, projetamos e reproduzimos isto neles. Precisamos por nós e por eles parar de carregá-los.

E aí começamos a ser vistas como seres que poderiam, sim, que eram capazes, que talvez pudessem ter alguma liberdade,

Mas agora, por nossa liberdade e pela liberdade da infância, nos falta quebrar essas correntes que nos colocam quando nossos úteros começam a crescer, nos falta dizer não às correntes que dizem que a maternidade é o fim da liberdade feminina.
Por nós, para que possamos escolher QUALQUER COISA, inclusive a maternidade, sem abrir mão da nossa liberdade, nós precisamos negar e bater o pé quando nos tentarem amarrar no parto. Que não nos amarrem nem em nossas tetas leiteiras, ou em nossas estrias da barriga.
Está na hora de mostrar para o mundo que nós mulheres podemos e seremos livres com nossos filhos nos braços, que eles não serão o que nos impedirá de amar livremente, gozar loucamente, lutar bravamente. Que nós ensinemos pelo que somos às nossas crias que a liberdade não tem preço e é o pressuposto para a felicidade. Por nós e por eles.

Está na hora de libertar os homens da cruz em que se meteram, de imaginar que não podem ser bons pais porque o trabalho é incompatível com os filhos. Está na hora deles entenderem que o amor é faculdade humana, que lutar, gozar e amar são possíveis também na paternidade responsável, que carinho, colo e amor também se faz com a barba, que as mãos grandes e fortes também servem para trocar fraldas e acalmar a cólica.
Está na hora de fazer da maternidade e da paternidade uma opção de vida tão livre e feliz quanto qualquer outra.

Está na hora também de construir um conceito de liberdade que não seja fiado no consumo e no mercado. Que não seja só sair a noite para tomar cerveja a hora que quer, ou comprar o carro do ano com o dinheiro que vc usaria em fraldas. Está na hora de ensinarmos ao mundo que liberdade começa dentro de si mesmo, e se expande pelo seu exercício, pela constante reflexão.
Está na hora de nos libertar da ideia do filho como um calvário que se carrega, da maternidade e da paternidade como um padecimento no paraíso, como se um filho fosse uma desgraça na vida das pessoas. Está na hora de libertarmos nossos filhos das escolhas que fizemos e das mazelas das nossas vidas.

Por um conceito de maternidade e de paternidade para além das amarras. Sim, é possível ser livre e ter filhos.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sobre conhecimento, cocô e a pós-modernidade.


Um cano x estourado, e nós, de uma das gerações que mais discutem freud, nietzche, marx, nanotecnologia, transgenia, carros de 200km/h e a relação disso tudo com a morte e vida severina, mas cada vez menos sabemos limpar o próprio cocô, somos colocados em nosso devido lugar: o de alienados da própria matéria. Completamente alienados porque não temos ideia de como se constroi uma casa, como se faz uma rede de encanamento, como se virar sem uma descarga em casa.

Quando eu dei aula no Zumbi dos Palmares, assentamento do MTST - que estruturalmente era como uma favela - eu me dei conta disso, já que meus alunos sabiam muito mais sobre casas do que eu poderia sonhar saber. Não só sabiam, como hackeavam - usando um termo tão lindo de uma cultura presente na classe média, para algo que parte, no caso deles, da sobrevivência mais intrínseca - em cima do pouco que tinham para construir alguma coisa. Como pode ser tão difícil para nós, da ponta do trabalho intelectual, perceber que somos completamente alheios de todo o lado material da produção, e que isso nos torna dependentes em tudo das classes mais pobres, que são pobres exatamente pela desvalorização de seu precioso trabalho? E não venham me dizer que um engenheiro sabe mais que essas pessoas - não, não sabe, porque eu quero ver se um engenheiro se vira com 10 folhas de madeirite e umas telhas de amianto, sem banheiro para aliená-lo do próprio cocô.

E não só de casas entendem meus alunos, entendem de árvores de café, cavalos, plantações, móveis, cozinha e, bom, claro, limpeza. Entendem e eu me sinto uma aluna aprendiz com a Clei aqui em casa, ela que é uma mestra nas artes da limpeza e da organização - e em algumas outras. Eu, como alguém que se esforça em driblar a preguiça e a frescura de intelectualóide, tento aprender, mas sou ainda sou alfabética-silábica nestas artes. Ainda me é difícil pegar na vassoura para riscar esse caderno que é o chão de minha própria casa, ainda me sinto cansada pelas primeiras panelas que lavo...Nessas artes, mal leio um livro de 30 páginas.

Tudo o que é sólido desmancha no ar, e nós, das castas alfa e beta desse Admirável Mundo Novo, estamos aqui sofrendo o esvaziamento da matéria, "vencendo" - ou melhor, cortando a cabeça dos - os limites dela, para depois procurarmos eternamente a cabeça desse espírito humano, que é o trabalho. E dá-lhe SOMA para permanecer na Utopia do consumo....

terça-feira, 16 de julho de 2013

De uma educadora para os médicos

Uma amiga minha ontem me disse "mas você está bolada com esse negócio dos médicos, né?".
Sim, eu estou. Tenho muitos amigos médicos, não só na timeline do Face mas na vida, e os amo de paixão. Resolvi então explicar porque esse mimimi todo me irrita tanto.

Sou educadora popular há 7 anos - 3 anos em um cursinho popular que se transformou e bem que podia ser um belíssimo curso de Ensino Médio, 2 anos num projeto de educação de Jovens e Adultos, como alfabetizadora, e 2 anos em um projeto de extensão tocado por estudantes, que se propuseram a alfabetizar jovens e adultos em uma ocupação do MTST - vulgo favela com reivindicações, em termos de estrutura física. Há 8 anos eu faço disciplinas na Faculdade de Educação da Unicamp, sempre empenhada em entender esse fenômeno no país, porque há 8 anos eu decidi ser professora (na química eu fazia licenciatura). Mesmo no curso de química, que eu me empenhava pouco, eu não perdia uma aula sequer das matérias da Educação, e li quase tudo o que me mandaram ler, e estudei bastante nos projetos de educação dos quais fiz parte.
Embora tanto tempo trabalhando nisso e me empenhando , nunca recebi um centavo sequer pelo meu trabalho. NUNCA. Nada, nadica, e ajudei muita gente a aprender a ler. Meu pagamento era o seu Quirino sainda da sala e lendo na porta "Sala 3", ou a Clei escrevendo um bilhete para a patroa. Algo imensurável de delicioso, mas certamente nunca me ajudou a por o pão na mesa. Eu fiz esse favor ao Estado brasileiro, de tentar reparar um dano causado por séculos de exploração e elitismo, por simples senso de justiça.

O primeiro projeto em que trabalhei, quando eu entrei, funcionava em salas alugadas como um favor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Até que eles eram legais com a gente, mas era a sala e eventualmente o auditório, para algumas aulas especiais. Saímos de lá quando trocou a direção, que nos deu condições absurdas de funcionamento para continuarmos... E assim ficamos alugando salas do IFCH, como alunos, e eventualmente sem ter onde dar aula, usamos os corredores do prédio e as mesinhas da Arcádia, espaço de convivência do IEL. As provas que fazíamos e atividades que requeriam cópias, conseguíamos fazer na conta do Diretório Central dos Estudantes. Tínhamos uns 100, 200 reais por mês que, se não me falha a memória,e eram dados por Centros Acadêmicos da própria Unicamp. Locação de filmes para passar, por exemplo(naquela época não era trivial ainda baixar filmes na internet), saíam desse dinheiro, quando tínhamos, ou mesmo do nosso bolso. Os materiais para nossas atividades de laboratório e coisas do gênero vinham de pedir uma mangueira daqui, ver o que tinha em casa, comprar do nosso bolso.... O projeto ia lindo em 2007, reformulado e incrível, mas no final do ano uma bomba veio sobre ele: a maioria de nós, professores, não teria como dedicar mais  tanto tempo porque tinha atrasado o projeto de mestrado/doutorado, ou simplesmente precisaria ganhar algum dinheiro para continuar. Um a um, resistimos enquanto pudemos, até que sobraram tão poucos de nós que, mesmo com a experiência e o tesão absurdo em fazer isso, o projeto acabou.

O segundo lugar em que atuei tinha mais estrutura: é tocado pela Sonia Giubilei, professora aposentada da Faculdade de Educação. Funciona até hoje no COTUCA, mas claro: só podíamos usar do COTUCA as salas e os banheiros, nada de internet e coisas assim como já pedimos uma vez. O Projeto Educativo de Integração Social desembolsou em 2010 o dinheiro para comprar um computador. E os estudos do meio sempre estavam perigando na vontade dos diretores da Faculdade de Educação, à qual o projeto é vinculado, como se fosse um favor para nós. Alguns professores eram estagiários nas matérias da FE, outros voluntários e outros eram bolsistas trabalho - o que gerava um problema de compromisso por parte dos professores, e veja, uma bolsa trabalho é abaixo do salário mínimo. E bom, assim continua até hoje o projeto, que tem uns 30 anos quase nas costas e já alfabetizou e ajudou a formar muitos adultos da cidade, mesmo funcionando só aos sábados.

O terceiro, do qual sou uma das fundadoras, aprendeu tudo na raça. A nossa sala de aula era de madeirite, e bastava uma chuva de verão para levar teto e parede embora, e nós, professores e alunos, reconstruímos e organizamos um sem número de vezes....A mesa para nossos alunos estudarem foi construída com as nossas mãos e de nossos alunos, os cadernos foram doação de uma diretora de São Paulo, do CIEJA- Campo Limpo, e as cadeiras foram pedidas numa escola ali perto, que nos doou as que estavam piores. Trabalhamos assim por um ano, e alfabetizamos uma galera. Ficamos imensamente felizes quando conseguimos num edital a incrível verba de 8 mil reais para um ano de trabalho - veja, 8 mil para o projeto todo, e sem sobrar um centavo para nós, que com alguma sorte, pelo menos pagamos a gasolina para irmos dar aula, ou seja, não pagamos para trabalhar.
E quando íamos trabalhar, passávamos ali do ladinho do tráfico de drogas, vimos gente ser morta no meio da rua em plena luz do dia, vimos gente morrendo de fome, doente, e ouvimos as incríveis recomendações e diagnósticos absurdos dos médicos da região, isso sem contar no que eles mesmos entendiam quando vocês mandavam que eles tomassem um remédio de 8 em 8 horas...No verão o cheiro do lado da sala era horrível por causa de um monte de lixo jogado no terreno ao lado, e não tínhamos banheiro na nossa sala de aula. Agora, vamos dar aula na Flaskô, uma fábrica ocupada, e estamos felicíssimos porque pelo menos não teremos que reconstruir nosso espaço a cada verão, não teremos tanto contato com o tráfico e - olha que mágico - ganhamos 22mil reais para um ano de trabalho, o que daria, dividindo entre nos remunerar e material para o grupo todo uma remuneração fantástica de 70 reais por mês. E estamos felizes com isso!!!

Na educação, o dinheiro que recebemos do PIB não vai todo para a educação pública. Se a saúde recebe uma porcentagem menor, pelo menos é melhor repassada entre seus profissionais: não é porque a verba que vai para a educação é maior que é bem distribuída, ela vai para a educação privada, para a compra de apostilas babacas para crianças de 4 anos dos empresários da educação, para consultorias horrorosas feitas por engenheiros que não fazem ideia de como alfabetizar uma pessoa, ou para a compra de milhares de computadores que ficam travados em salas de informática sem pessoal capacitado. Os professores são amordaçados em suas greves, temos a pior remuneração entre as profissões de Ensino Superior no país, se está formando professores a distância em 2 anos, que chegam despreparados para trabalhar numa escola que não facilita em nada sua vida... As reformulações curriculares no Brasil tiveram também participação de pessoal do exterior, mas não dos cubanos com seus índices excelentes em provas internacionais, e sim de espanhóis, que nos venderam uma metodologia e perspectiva pedagógica ultrapassada no país deles há mais de 10 anos (as tais competências e habilidades, no governo FHC).

Existem escolas públicas que funcionam bem? Existem. O CIEJA- Campo Limpo é um exemplo, atende 1500 jovens e adultos no município de São Paulo, dentre eles mais de 300 alunos com deficiências de todo o tipo, da "simples" cegueira à paralisia cerebral grave, que nem andam e pouco falam. Existe o Âncora, em Cotia, com parceria com a Secretaria Municipal de Educação de lá. Existe o Agostinho Páttaro em Barão Geraldo, que é lindíssimo em termos de estrutura e funciona bem. Em todas essas escolas, porém, nenhum professor ganha mais do que 2,5/ 3 mil reais. Nenhum, e no Âncora alguns são voluntários, inclusive. Em todas essas escolas, as verbas para manutenção e compra de materiais são poucas, e acaba que suas diretoras/coordenadoras aceitam verbas de empresas particulares, que se aproveitam do espaço para publicidade barata; ou pior ainda, tiram dos bolsos dos professores ou do bolso dos pais de alunos um dinheiro a mais para funcionar.... Isso sem contar na prática de guardar canudinhos do lanche e restos de papel por aí afora para ter material para as aulas de artes. E o povo pira achando lindo o trabalho com sucata.... Seria lindo, se não viesse do migué das políticas públicas.

E mesmo quando eu finalmente ganhar na minha profissão, vou ganhar como máximo o mínimo salário de vocês - 3 mil reais - e ficar felicíssima.

Depois de tudo isso, vejam como eu me sinto quando vocês, médicos, reclamam de ter o curso aumentado em 2 anos para trabalhar remuneradamente, o que eu amaria que acontecesse com os cursos de Pedagogia, ter 2 anos de trabalho remunerado com vínculo com a Universidade; vejam como eu me sinto quando vejo que os melhores profissionais da saúde do meu continente, que sem toda a parafernalha tecnológica conseguem manter os melhores índices de saúde pública mesmo tendo um PIB ridiculamente inferior ao nosso, estão vindo para cá e vocês bradam seus gritos - elitistas e sim, racistas - contra a vinda deles, ainda mais depois de saber que vcs mesmo recusam trabalhar em lugares "sem recursos" por 10mil, 15 mil, 25mil- sem recursos ou sujinhos, que vão sujar as roupinhas brancas de vocês com esse nojo todo de pobre?

E o mais impressionante: todo esse mimimi depois de aprovarem o Ato Médico, que lhes dá super poderes, como se entender da fisiologia humana sob a perspectiva ocidental fosse tudo o que há para se entender da saúde desse ser complexo que é o ser humano. Lamentável, eu diria.

Então pensem bem nas reclamações de vocês, e venham reivindicar coisas melhores do que o que vem reivindicando, e terão, assim, o apoio massivo da população.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Amor não é bossa nova

O amor não é uma bossa nova, nem uma ideia calcada em palavras bonitas,
O amor é o suor compartilhado em cada tijolo empilhado.
O amor não é um carinho, um toque suave,
O amor é o som dos martelos batendo nos pregos, levantando as paredes.
O amor não é um abraço e um beijo vazio,
Nem o fogo que cresce das entranhas,
Nem o calor úmido de um orgasmo sequer,
Embora ele até possa nascer disso...
Nem tampouco passar a mão na cabeça,
Um afago falso, que vê a frente o abismo do outro mas não puxa sua mão.
O amor é a matéria, a construção,
Edificada coletivamente, levantada com as mãos.
O amor é a divisão igual do trabalho,
É levantar o outro cansado com o próprio corpo,
É segurar aquele que cai, ainda que isso lhe doa,
É honrar o compromisso que as entranhas prometeram na paixão.
Amar é ser companheiro no que se constrói do mundo,
E extrair do concreto, das vigas e do metal
Todo o sentido de se viver.
E as palavras de amor só tem valor e sentido de fato,
Se vierem do trabalho coletivo,
E aí puderem representar seu prazer.

domingo, 16 de junho de 2013

Armário

A distância que tomo de ti me dói a cada segundo.
A falta que vc me faz, do seu cheiro que remete ao conforto primordial do ser....
Chorei cada ausência toda a minha bebezice, e a choro novamente agora, pelos quilômetros e pelo silêncio que nos separa de ser inteiras, uma para a outra...
E me dói que eu mesma coloque essa distância, mas me seria insuportável permanecer perto sem ser livre, e mais ainda me doeria que a distância fosse para sempre, pelo amor que vc deixaria de ter por mim se me conhecesse racionalmente por inteiro.
Quando você ataca meus iguais, quando age com eles como os meus inimigos agem perante a mim, eu sinto uma dor de rejeição que não sei explicar, uma tristeza profunda por saber que é preciso manter a distância. Eu me encho de esperança tantas e tantas vezes de que isso vai mudar, e quem sabe seja isso que me move a escrever, de que eu poderei ser livre e ser próxima de você, sentir seu abraço e seu cheiro mais vezes, mas a cada comentário seu contra meus iguais, eu me calo e lamento a nossa distância, eu choro mas tento secar minhas lágrimas...
A distância que faz o conflito se calar, a distância da minha covardia, do medo enorme que tenho de te perder, o medo por não saber se aguentaria essa dor.
Às vezes eu tento pensar que vc superaria até os milênios de opressão que se sobrepõe sobre nós pelo que sente por mim, o amor viceral que a maternidade traz, às vezes eu tento pensar que com certeza a minha liberdade te faria muito bem, às vezes eu acho um absurdo de minha parte não confiar no seu amor...Mas eu tenho medo de te perder, porque eu não suportaria que você odiasse minha forma de ser, minha natureza.
E me vem a boca uma vontade de te pedir perdão por ser quem sou de fato e não quem tu querias que eu fosse, e ao mesmo tempo uma revolta imensa por tamanha traição a mim mesma.
E assim fico lacrada neste armário, do qual saí para o mundo todo, menos para ti, porque a dor de te perder seria com certeza muito maior do que a dor de perder o mundo inteiro...